Expectativas de Aumento de Inflação Durante Grande Crise Deflacionária

Atif Mian e Amir Sufi dizem, no livro “House of debt: how they (and you) caused the Great Recession, and how we can prevent it from happening again” (Chicago; The University of Chicago Press; 2014): quando os banqueiros centrais expandem as reservas bancárias, em uma recessão com perdas alavancadas, não há aumento nos empréstimos quando ocorre uma grave e longa queda econômica.

Mas, eventualmente, a economia pode se recuperar e, se o Banco Central mantiver as taxas de juros muito baixas, os bancos retomarão os empréstimos e isso provocará inflação. Alguns argumentam, se o público em geral esperar inflação no longo prazo, a economia pode se beneficiar mesmo no curto prazo.

De acordo com essa visão, as expectativas de inflação podem gerar um aumento nos gastos, mesmo quando a economia está acima do limite inferior zero. No capítulo 4 do citado livro, Atif Mian e Amir Sufi afirmam: as taxas de juros podem precisar ser negativas para induzir algumas famílias a gastar mais.

Em outras palavras, para induzir as famílias a gastarem, elas precisam ser cobradas por economizar, em vez de gastar. Aumentar as expectativas de inflação ajuda a obter uma taxa de juros negativa.

Por exemplo, suponha você economizar US$ 1.000 em uma conta bancária pagando juros zero. Se você espera o preço dos produtos (planejados comprar no futuro) aumentar, o poder de compra futuro de seus US $ 1.000 no banco diminuirá.

Em termos dos bens reais, determinantes de seu poder aquisitivo, a inflação leva a uma taxa de juros negativa no seu depósito bancário. Isso o incentivará a gastar em vez de economizar, aumentando assim a demanda agregada. Se o Fed puder fazer você acreditar em “a inflação acabará por emergir”, a visão das expectativas de inflação sustenta isso poder impulsionar a economia.

O problema com esse argumento, no entanto, é ele pressupor os gastos das famílias serem muito sensíveis às mudanças nas taxas de juros reais. Embora isso possa ser verdade em circunstâncias normais, um episódio de perdas alavancadas pode interromper o vínculo.

Em uma economia com dívida excessiva e um colapso nos valores dos ativos, as famílias endividadas são forçadas a cortar massivamente os gastos. Além disso, dado o histórico de inadimplência, são cortadas dos mercados de crédito, caso quisessem tomar mais empréstimos. Como resultado, mesmo as taxas de juros negativas não aumentarão substancialmente os gastos.

Mas vamos supor os gastos das famílias responderem às expectativas de inflação mais altas. Um sério problema permanece: é extremamente difícil para os Bancos Centrais criar expectativas de inflação mais altas em uma recessão de perdas alavancadas. As famílias só esperam inflação mais alta se o banqueiro central se comprometer a permitir a inflação, mesmo quando a economia se recuperar e escapar do limite zero mais baixo das taxas de juros nominais.

Mas a reputação dos banqueiros centrais se baseia no combate à inflação. Diante disso, o público em geral espera o Banco Central intervir para retirar as reservas do sistema quando a economia começar a se recuperar. Se não é possível confiar nos banqueiros centrais para permitir a inflação quando a economia se recuperar, a economia não se beneficia de expectativas de inflação mais altas.

Como Paul Krugman escreveu sobre a Década Perdida Japonesa, “a política monetária será efetivamente eficaz só se o Banco Central puder prometer com credibilidade ser irresponsável.”

Atif Mian e Amir Sufi iriam além. Os formuladores de política monetária precisariam se comprometer a ser muito irresponsáveis ​​para gerar expectativas de inflação em meio a uma crise de perdas alavancadas.

Quando o crash se concretiza, as famílias reduzem drasticamente os gastos. Diante da demanda massivamente esgotada, a reação natural das empresas seria reduzir preços e salários. Foi exatamente o que aconteceu durante a Grande Depressão. Mais uma vez, as forças naturais da economia avançam contra a inflação e em direção à deflação durante uma grave crise econômica. A política monetária luta uma batalha difícil.

Os Bancos Centrais estão dispostos a agir de maneira irresponsável o suficiente para vencer? A evidência sugere uma resposta negativa.

O Banco Central Europeu tem sido conservador em sua abordagem, assim como o Banco da Inglaterra. O Federal Reserve empurrou o manual para o lixo com a flexibilização quantitativa [afrouxamento monetário] agressiva e a linguagem de orientação condicional em suas declarações.

Mas, como afirmou a ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos, Christina Romer, “a verdade é mesmo essas medidas terem sido passos bem pequenos… o fato principal é: o Fed não estava disposto a fazer uma mudança de regime. E, por isso, a política monetária não foi capaz de desempenhar um papel decisivo na geração de recuperação.”

Confiar na política monetária para gerar inflação através das expectativas pode funcionar lindamente em modelos macroeconômicos. Mas confiar na irresponsabilidade dos banqueiros centrais é uma estratégia perdida. Não podemos contar com eles para solucionar magicamente o problema da dívida.

1 thought on “Expectativas de Aumento de Inflação Durante Grande Crise Deflacionária

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasile comentado:
    Desta vez o professor Fernando Nogueira traz uma reflexão interessante sobre a autoridade monetária. A economia pode ser reativa pelo aumento do consumo das famílias. Contra isso pesa a prudência em gastar já o pouco dinheiro do auxílio emergencial ou as reservas pessoais, cuja rentabilidade foi até negativa em certo período. O argumento favorável repousa sobre a expectativa futura de aumento generalizado dos preços, a famosa inflação.
    No Brasil, diferentemente dos EUA, por exemplo, a missão do BC resume-se, na seara monetária, a manter o valor da moeda dentro de metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional, sem obrigações legais com o crescimento econômico.
    Assim, a chamada à “irresponsabilidade” da autoridade monetária fica mais difícil de ser atendida.

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