Índice de Miséria Macroeconômica

Ana Conceição (Valor, 24/07/2020) informa: o Índice de Miséria Macroeconômica, que procura medir o bem-estar da população ao agregar indicadores de inflação, desemprego e dívida bruta, deve chegar ao fim deste ano ao pior nível já registrado desde o início do Plano Real.

Segundo cálculo da MB Associados, que elabora o indicador, o governo Jair Bolsonaro deve terminar seu segundo ano de mandato com um índice de 36,85, nível 35% acima do pico atingido em janeiro de 2016 (de 27,39), no segundo mandato de Dilma Rousseff, até então o pior registrado. Agora em julho, o índice está em 22,17 (leitura preliminar), posição similar à alcançada no momento da reeleição da ex-presidente, no início de 2015.

O Índice de Miséria Macroeconômica, divulgado agora pela primeira vez, expande o tradicional conceito de Índice de Miséria criado no começo da década de 1970 pelo economista americano Arthur Okun ao agregar a variação da dívida bruta às taxas de desemprego e de inflação em 12 meses, indicadores que, além da economia, refletem o custo social para um país. Quanto menor a soma desses três indicadores, maior o bem-estar da população.

De acordo com Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a ideia de acrescentar a variação da dívida bruta é sinalizar de forma mais abrangente a condição macroeconômica do país no médio e longo prazo. “Ao somar um indicador crucial para o futuro, que é a dívida bruta, damos essa sinalização sobre os problemas à frente.”

O forte aumento do indicador previsto para o fim do ano é dado pelo crescimento da dívida bruta e também do desemprego. A MB estima a dívida em 94,7% do PIB ao fim de 2020 (uma variação de 18,9 pontos sobre os 75,9% de 2019). A taxa de desemprego projetada para dezembro é de 16,1%, enquanto o IPCA acumulado em 12 meses é estimado pela consultoria em 1,8%. Assim, o índice é a soma de 18,9 com 1,8 e 16,1, chegando a 36,85.

A série construída pela MB começa em 2012, quando se inicia a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apura a taxa de desemprego, mas a avaliação de Vale é o que país viverá o pico do índice em um período que se inicia no Plano Real. “Nunca tivemos uma variação de desemprego e de dívida como agora. Se for para trás, para 1995, certamente será o pior momento.”

Diferentemente do segundo mandato Dilma, quando a piora se concentrou na inflação e no desemprego, mais que na dívida, agora, a inflação não é um problema, enquanto o peso do desemprego e da dívida cresceram e devem continuar subindo. “São os dois grandes problemas com que o governo vai ter que lidar nos próximos anos, quando as condições macroeconômicas vão ser muito adversas”.

A título de comparação, em janeiro de 2016, o desemprego teve peso de 35% na formação do indicador, a inflação, 39% e, a dívida, 26%. Em dezembro deste ano, o peso do desemprego será maior, 44%, enquanto o da dívida deve ser de 51%. Já a inflação terá um peso de apenas 5% no índice de miséria macroeconômica.

Reverter a curva ascendente do indicador dependeria de uma disposição clara do governo em propor reformas estruturantes. Vale diz não ver o Executivo fazendo o esforço necessário. Se em 2016, o índice cedeu após o impeachment e o alívio fiscal e inflacionário que se seguiu, agora é provável que isso aconteça apenas após a próxima eleição presidencial, num novo conjunto de forças políticas, diz ele.

“Inverter essa curva vai demandar um esforço tremendo para fazer as reformas necessárias. E este não é o governo mais hábil em termos políticos.” Uma demonstração disso seria a atual discussão da reforma tributária, em que o Executivo propõe a unificação do PIS-Cofins, com uma alíquota de 12%. Uma reforma mais abrangente dependeria de uma negociação intensa com os Estados, algo que ficou mais difícil, na sua visão, depois do confronto entre Bolsonaro e os governadores e prefeitos ao longo da pandemia de covid-19.

Neste momento, diz Vale, duas tarefas urgentes seriam um choque de confiança dado pelo próprio governo, sinalizando estabilidade para os investidores, especialmente depois da desastrada gestão na área ambiental. E, na parte, fiscal, garantir a manutenção da regra do teto de gastos.

“É necessário garantir a regra para dar confiança e estabilidade”, diz. Mas o momento é desafiador para isso. Os gastos com saúde tendem a crescer por causa da pandemia e o governo tenta levantar o Renda Brasil, que além do objetivo de elevar o gasto social se tornou um instrumento de aumento de popularidade do presidente. Há ainda outras pressões por aumento de despesas.

Um segundo passo seria uma reforma tributária “digna do nome”, diz Vale. O ideal seria trabalhar sobre a PEC 45, que já está sendo avaliada no Congresso e fazer um ajuste no Imposto de Renda, com alíquotas maiores para rendas maiores. Para o economista, o ajuste fiscal necessário não vai escapar da necessidade de um aumento na arrecadação.

1 thought on “Índice de Miséria Macroeconômica

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Além do pouco incômodo do Capitão Messias com o empobrecimento da nossa gente, que parece se divertir com a desgraça alheia, um aspecto chama muito a atenção na digressão do prof. Fernando Nogueira da Costa, titular de Economia da Unicamp, sobre o recorde de miserabilização do brasileiro.

    Dos três fatores que fizeram o índice saltar de 15% para quase quarenta – 1 em cada 4 cidadãos do país ficou em situação insustentável este ano -, o que de fato parece contribuir decisivamente é o endividamento.

    E a resposta do governo é manter os juros em dia, enquanto atrasa como pode a ajuda às pessoas, Estados, Municípios e empresas, deixando os brasileiros ao leu enquanto transfere a riqueza coletiva a certos amigos do onça, em geral escondidos em fundos de investimentos internacionais, que dificultam a identificação daqueles que estão enriquecendo na pandemia.

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