Desalavancagem Financeira dos Clubes de Futebol Endividados

Bruno Villas Bôas (Valor, 29/07/2020) informa: o futebol brasileiro passará a ser dividido por dois blocos: o dos clubes com gestão eficiente e desempenho esportivo; e o dos que repetem velhas práticas mal sucedidas, avalia Cesar Grafietti, consultor de finanças e gestão do esporte do Itaú BBA, em relatório divulgado nesta terça-feira sobre o balanço dos clubes.

O documento mostra: 2019 marcou essa divisão com as conquistas esportivas do Flamengo. Ele venceu o campeonato brasileiro e a Copa Libertadores após um ciclo de reestruturação iniciado em 2013. Foi o último da trinca de clubes tradicionais que mirou o equilíbrio financeiro, ao lado do Grêmio e Palmeiras.

Outros clubes devem surgir como força capazes de rivalizar com esses times que foram vencedores no passado. Um deles é o Athletico-PR, campeão da Copa do Brasil de 2019. Outros são Bahia, Fortaleza, Ceará e Goiás, com “possibilidades reais de tornarem a série A seu habitat natural”.

Um dos fatores que esses clubes têm em comum é a relação entre a dívida bruta de curto prazo e as receitas totais em nível inferior a 45%. Para ele, esse indicador de alavancagem é o que melhor sintetiza o fôlego financeiro de um time de futebol. É assim no Flamengo (27%) e Grêmio (25%), por exemplo. Palmeiras está com 46%.

O grupo das “velhas práticas mal sucedidas” inclui Vasco, Botafogo, Fluminense e Cruzeiro entre os clubes que “já não suportam o peso dos erros do passado”. E também clubes com “má gestão do presente”, incluindo gigantes do futebol nacional como Corinthians, São Paulo, Internacional, Atlético Mineiro e Santos.

Para ilustrar o tamanho do problema, o analista calculou o tempo necessário para cada clube pagar suas dívidas. Com o uso de 20% da receita total, o Botafogo levaria 19 anos para pagar suas dívidas. O Flamengo e o Palmeiras levariam quatro. São Paulo e Santos, seis anos. Fluminense e Corinthians, oito e nove anos respectivamente.

“Mas será sempre futebol. E sempre será possível montar um time que conquiste, mesmo com erros de gestão. Sempre será possível desafiar os organizados e se colocar entre eles nas primeiras colocações do Brasileiro, ou chegar a uma final de Copa do Brasil. Mas conforme o tempo passa, estes serão cada vez mais exceção que regra”, afirma.

O relatório do Itaú BBA analisou as demonstrações financeiras dos 24 clubes melhores colocados no ranking esportivo da CBF. O levantamento mostrou que a receita total somada desses clubes cresceu 9% no ano passado, para R$ 5,953 bilhões. O aumento foi impulsionado por vendas de atletas (22%) e publicidade (11%).

O destaque foi o Flamengo, com avanço de 50% nas receitas totais, para R$ 841 milhões, segundo a metodologia usada pelo banco. O clube abriu, assim, distância considerável para o Palmeiras, segundo colocado, com receita total de R$ 635 milhões no ano passado, ligeiramente abaixo do ano anterior (R$ 682 milhões).

O estudo mostra ainda que a receita dos clubes com direitos de TV cresceu 7,6% no ano passado, para R$ 2,466 bilhões. O Flamengo, que atuou junto ao governo federal para mudar as regras de transmissão, foi o que mais faturou: R$ 330 milhões. Parte desse valor está relacionado com premiações por conquista de títulos.

“A grande maioria dos clubes da série A depende em cerca de 50% das receitas [recorrentes] oriundas da TV”, avaliou. “Num momento em que se discute novas formas de negociação de direitos de TV, esta é uma conta importante para ser levada em, consideração”, acredita o analista.

Editada em meados de junho pelo presidente Jair Bolsonaro, a Medida Provisória 984/2020 permite que o time mandante de uma partida de futebol negocie os direitos de transmissão do jogo, o chamado direito de arena. A MP recebeu o apoio do Flamengo e de outros times de futebol.

O relatório do banco lembra que a pandemia vai abalar os resultados dos clubes em 2020. Com campeonatos adiados, jogos realizados sem presença de público e perda de sócios-torcedores, as receitas somada dos times de futebol deve ficar menor, entre R$ 1,3 bilhão a R$ 1,7 bilhão em 2020.

“Os clubes melhor estruturados tendem a não sofrer tanto com aumento de dívida. Por estar organizados, provavelmente conseguiram negociar redução de salário com atletas, por exemplo. Os clubes com salários já atrasados tendem a sofrer mais. Como negociar algo que você já não paga?”, disse.

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