Fluxo de Renda em Queda, Estoque de Riqueza Financeira em Ascensão: Recomendação de Prudência em Finanças Pessoais

Com o fluxo de renda (PIB) caindo também em termos nominais de R$ 7,257 trilhões em dezembro para R$ 7,177 trilhões em julho — em termos reais caiu no acumulado no primeiro semestre do ano -5,9% –, o estoque de riqueza financeira acumulada por Pessoas Físicas aumentou de proporção: de 45,1% para 48,7% do PIB. O IPCA acumulado até julho foi de 0,48%, ou seja, com SELIC/CDI acumulado no mesmo período em 1,95%, houve ganho real de poder aquisitivo de 1,47% para o investidor em renda fixa com 100% do CDI.

O depósito de poupança rendeu em termos nominais 1,51% e reais 1,02%. Mesmo com projeções de retorno real negativo, caso a taxa de inflação se elevar, a poupança voltou a ser protagonista nas carteiras das pessoas físicas do Varejo Tradicional no primeiro semestre de 2020. O auxílio emergencial para atenuar os efeitos da covid-19 no orçamento das famílias de menor renda é a justificativa usual.

A busca por aplicações mais conservadoras em meio ao revés dos mercados por uma parcela dos investidores também deu impulso ao CDB, com os bancos aproveitando para reforçar suas estruturas de captação. Já os fundos de renda fixa encolheram pelo impacto da taxa de administração na rentabilidade, em período período quando a Selic alcançou sua mínima histórica, de 2% ao ano.

Pelos dados da Anbima, os fundos de renda fixa alcançaram a menor participação da série histórica, desde 2011. No Varejo Tradicional, caiu de 13,5% para 11,1% em 12 meses. No Varejo de Alta Renda passou a representar 27,1%, ante 36,1% de um ano antes. No Private Banking caiu de 10,1% para 7,2%.

Na timeline dos últimos dois anos, os juros vêm caindo e ficou muito pesada a taxa de administração no retorno dos fundos de renda fixa. O setor vem se ajustado e promovendo a redução dos custos nas carteiras de renda fixa mais tradicionais.

A recuperação da captação vista em julho, interrompendo uma sequência de meses no vermelho, com ingressos de R$ 35,4 bilhões, tem relação com essa calibragem e também com o gap entre taxas longas e curtas.

A curva de juros pode ter queda ainda, existe uma certa “boca de jacaré” entre a taxa de um ano e a de dez anos. Se o investidor acreditar ela poder se fechar, os fundos carregados em papéis longos, em nível de taxa de juros mais alta, podem capturar ganhos. O BCB tem feito esforço para diminuir essa “boca de jacaré” com retórica.

Com os estímulos do auxílio emergencial, levando a abertura de contas de poupança e inflando os números gerais em quase 45 milhões em um ano, para 102 milhões no total, a caderneta ganhou participação relativa no estoque de investimentos.

Os dados de julho mostram essa tendência prosseguir no segundo semestre. A captação líquida da caderneta foi de R$ 27,1 bilhões, o terceiro melhor fluxo de toda a série histórica que começa em 1995. Desde janeiro, os ingressos superaram os saques em R$ 111,6 bilhões.

As novas captações em caderneta de poupança superaram os saques em R$ 11,402 bilhões em agosto de 2020, conforme o Banco Central (BC). Em julho, houve captação líquida de R$ 28,144 bilhões.

Em agosto de 2019, por sua vez, o BC registrou captação líquida de R$ 1,315 bilhão. No ano passado como um todo, a poupança teve captação de R$ 13,327 bilhões, já descontados os recursos retirados.

O resultado de agosto deste ano se somou ao rendimento de R$ 1,707 bilhão creditado no mês. Assim, o saldo total da poupança somou R$ 986,779 bilhões, contra R$ 972,669 bilhões em julho.

Além disso, os recursos da caderneta aplicados em crédito imobiliário (SBPE) registraram captação de R$ 7,947 bilhões. No caso do crédito rural (SBPR), a captação R$ 3,454 bilhões.

Pelos dados do semestre da Anbima, em um ano, no Varejo Tradicional a participação da poupança passou de 67,1% para 68,8%. No Varejo de Alta Renda, em meio à busca por um porto seguro, ela cresceu de 12,1% para 13,8% entre junho de 2019 e de 2020.

Enquanto isso, o CDB aumentou de 9,8% para 11% entre os indivíduos com maior poder aquisitivo. No Varejo Tradicional, o CDB teve um incremento de 17,1% no primeiro semestre em relação a igual intervalo no ano passado. Na alta renda, a alta foi de 48,4%, e no private, de 52,5%.

Esse aumento também está ligado aos esforços dos bancos para reforçar o funding e a liquidez no sistema na modalidade de lastro para o crédito em geral. Foi um papel importante mais no começo da pandemia. O crédito cresceu 1% de maio para junho, conforme as últimas estatísticas do BCB. Mês a mês a carteira vem evoluindo. As instituições captam e oferecem melhores condições no custo de crédito na ponta.

Quando se olha o conjunto, as aplicações da pessoa física nos segmentos de varejo e private banking totalizaram R$ 3,37 trilhões ao fim do primeiro semestre. Houve uma expansão de 3,4% em relação a dezembro de 2019.

A maior alta foi observada no varejo tradicional, de 10%, superando pela primeira vez a marca do trilhão, com R$ 1,07 trilhão. Na alta renda, o acréscimo foi de 0,8% dos volumes, para R$ 995,7 bilhões, enquanto no private houve uma ligeira queda (-0,1%), para R$ 1,31 trilhão.

O reforço nas classes de investimentos mais conservadoras não significa o investidor ter aberto mão de diversificar para alternativas de maior risco. Na alta renda, a parcela em renda variável passou de 6,6% para 8,1%. No private banking, os fundos de ações respondiam por 7,6% do total do segmento no fim de junho, ante 6,7% 12 meses atrás. A aplicação direta em bolsa equivalia a 17,3% do total, saindo de 14,7% em junho de 2019.

Os multimercados também compram ações. Eles representavam ainda maior parcela da alocação com 32,2%, em comparação a 31,1% de 12 meses atrás.

Olhando à frente, com taxas reais negativas na caderneta e em fundos de renda fixa mais conservadores, o investidor voltará a buscar aplicações com maior potencial de retorno e risco. No ‘share of wallet’ houve o aumento do porto seguro, mas em algum momento isso se estabiliza e o movimento começa a se inverter. Na poupança, como ela foi usada para os depósitos do auxílio emergencial, esses recursos vão sendo gastos pelas famílias porque o emprego não retorna ainda aos níveis de antes da pandemia e as pessoas desocupadas vão consumindo essa reserva.

Influenciada por fatores como o pagamento do auxílio emergencial, a redução do consumo causada pelo distanciamento social e a menor propensão das famílias a gastar, a poupança registra neste ano, com folga, a maior captação de toda a sua série histórica. Dados divulgados pelo Banco Central (BC) mostram a captação líquida ter atingido R$ 111,578 bilhões entre janeiro e julho.

O número é quase três vezes maior, na mesma base de comparação, se comparado ao recorde anterior para o período desde o início da série histórica. Nos sete primeiros meses de 2013, os depósitos haviam superado os saques em R$ 37,605 bilhões. O acumulado neste ano também é mais que o dobro do que a captação mais alta para um ano de toda a série: R$ 49,719 bilhões, em 2012.

Os números mais recentes também mostram crescimento da poupança. Em julho, a captação líquida atingiu R$ 27,144 bilhões, a maior para o mês em toda a série histórica, com início em janeiro de 1995. As captações dos três meses anteriores também foram as maiores para qualquer mês desde o início da série, com R$ 30,458 bilhões em abril, R$ 37,201 bilhões em maio e R$ 20,533 em junho.

Parte da captação maior da poupança pode ser explicada pelo comportamento “conservador” da população brasileira na hora de investir. No meio de uma crise como esta, muita gente acaba fugindo para investimentos tradicionais, como poupança e imóveis. Não à toa vemos o setor de construção indo muito bem até agora, dada a crise.

A postergação do pagamento de impostos também impactou a liquidez da economia de uma forma geral.

Independentemente das razões para o aumento da poupança, esses recursos “não devem virar consumo futuro” tão cedo. A economia está em um momento de incerteza. O segundo semestre ainda será depressivo, pode ter alguma frustração com a atividade econômica. Haverá impactos negativos com o fim de programas de crédito do governo, direcionados a empresas, sobre o mercado de trabalho.

A posição de crédito no private banking chegou a R$ 47,8 bilhões ao fim de junho, com alta de 18,8% no primeiro semestre e de 33,5% na comparação anual. A fatia mais crescente de janeiro a junho foi a do capital de giro (56,6%), a R$ 7,1 bilhões, mais do que dobrando o volume observado ao fim do primeiro semestre de 2019. Os dados são da Anbima.

A demanda foi associada ao que ocorreu nas grandes corporações como reflexo da covid-19. Nas duas semanas que vieram na sequência da decretação da pandemia, em meados de março, as empresas fortaleceram seus caixas, tomaram seus limites e até recorreram aos recursos de holdings familiares para enfrentar o que viria pela frente.

A isenção do IOF no crédito no início de abril tornou as operações ainda mais vantajosas, disse o executivo, em especial no agronegócio, que vem dando suporte para atividade econômica. O cliente do private vê o setor aquecido e toma crédito rural, CPR, reinveste no negócio e gera riqueza que depois volta para investimentos.

A procura tem se concentrado em operações de curto prazo e a exclusão de 1,5% do IOF tem peso representativo. Considerando-se o custo do dinheiro mais um spread, o cliente do private banking consegue se financiar com taxas na casa dos 5% ao ano, ante algo perto de 6,5% com o tributo, cita. É um nível comparável também ao do segmento corporativo.

Para cliente com visão de negócio, na prática, o dinheiro de terceiros é mais barato para ter alavancagem financeira em lugar de só usar o próprio. Aumenta sua escala de negócios e daí a rentabilidade patrimonial sobre seu capital próprio. Ele aproveita a oportunidade de os ativos caírem de valor e aumenta a participação em empresas e compra imóveis.

Marcelo D’Agosto (Valor, 02/09/2020) afirma: no atual ambiente de juros baixos, incertezas sobre a retomada da economia e alta oscilação do preço dos ativos financeiros, os investidores estão sendo bombardeados por ofertas para promover mudanças radicais na composição da carteira.

A justificativa é ter ficado arriscado manter aplicações indexadas à variação do CDI. Isso porque existe a perspectiva de que o ganho proporcionado pelas alternativas mais tradicionais na renda fixa poderá ser inferior à inflação no longo prazo. Ou, pelo menos, os lucros não serão tão elevados como já foram no passado.

O CDI é o resultado de uma média das taxas para empréstimos de um dia praticadas entre as instituições financeiras. Esse mercado já foi relevante, envolvendo muitos negócios e grandes volumes de recursos. Hoje em dia, na prática, o CDI é um indexador próximo à variação da taxa Selic.

O volume de ativos financeiros indexados ao CDI é muito superior à movimentação de recursos transacionados diariamente entre as instituições financeiras. Portanto, para os investidores com aplicações indexadas ao CDI, é fundamental acompanhar as perspectivas para a Selic.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central estabelece o valor da Selic com o objetivo de promover a estabilidade dos preços, mirando certo intervalo de tempo. Na teoria, o Copom tende a aumentar a Selic toda vez que a inflação ameaça subir. E faz o oposto se o nível de preços cair.

A inflação nos últimos 12 meses foi de 2,31%. No acumulado no ano de janeiro a agosto ficou em 0,65%. Dada a crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus, a perspectiva é a de continuar não ocorrendo reajustes significativos de preços. Estamos em meio a uma Grande Depressão deflacionária.

Nesta situação inédita para as gerações vivas, o conservadorismo prudente em Finanças Pessoais é a melhor recomendação até a conjuntura econômica e política negativa ser ultrapassada.

A disputa entre visões de política econômica distintas tem sido frequente no Brasil. A principal consequência é o país manter extenso histórico de juros significativamente acima da variação da inflação, diferença chamada de juro real.

Para o investidor, o juro real é importante porque determina o poder de compra dos recursos poupados a serem gastos no futuro. Ter o conforto de poder investir em modalidades seguras e com bons ganhos acima da inflação garante resultados confortáveis e com baixo risco.

A principal razão para os juros reais terem sido altos no Brasil foi a possibilidade de que capitais deixassem o país e migrassem para o exterior em momentos de turbulência. Situações assim sempre provocaram graves problemas para a gestão das contas externas e a desvalorização cambial. Atualmente essa possibilidade é menor. O país conseguiu acumular reservas internacionais em montantes elevados e as alternativas de investimento no mundo ficaram mais arriscadas.

Essa é uma importante razão para justificar juros reais significativamente menores no Brasil daqui para frente. E estimular os investidores a buscarem alternativas especulativas para as aplicações. Mas não se deve esquecer do Modelo de Ciclos de Vida Financeira: especulação  para quem tem pouco a perder e muito tempo para recuperar eventual perda, ou seja, para jovens investidores afoitos contando com “a sorte do iniciante”: entrar em alta na bolsa de valores, quando a profecia é autorrealizável.

As novas ofertas de investimento podem ser analisadas a partir de uma perspectiva do desempenho histórico. Entender os mercados de atuação e os controles adotados pelos gestores aumenta o grau de confiança no investimento. A experiência tem mostrado decisões tomadas a partir de análises bem fundamentadas possuírem mais chances de produzir maiores retornos a longo prazo, ou seja, análises fundamentalistas em lugar de análises grafistas de tendências de cotações.

1 thought on “Fluxo de Renda em Queda, Estoque de Riqueza Financeira em Ascensão: Recomendação de Prudência em Finanças Pessoais

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    O enfoque do Prof. Fernando Nogueira é sobre as finanças pessoais, mas os elementos que ele traz a público mostram como se comportam os isentos [de tributos] milionários em períodos de crise: acumulam mais e mais riqueza, concentrando a renda em período de desaceleração econômica.

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