Armadilha da Liquidez: Preferência por Liquidez Generalizada na Prática do Mundo Real

Alex Ribeiro (Valor, 01/09/2020) informa: os bancos aumentaram em R$ 25,3 bilhões o volume de cédulas e moedas mantidas em caixa no último ano, em mudança de padrão provocada pela pandemia e pela queda dos juros básicos a percentuais historicamente baixos.

O montante retido pelos bancos subiu a R$ 65,9 bilhões em julho, um incremento de 62% em relação aos R$ 40,6 bilhões observados no mesmo mês do ano passado. Os recursos mantidos pelos bancos em suas agências, nos caixas eletrônicos e nas transportadoras de valores de sua propriedade tecnicamente são chamados de encaixe monetário.

Famílias e empresas também passaram a reter mais dinheiro em espécie no último ano, mas o incremento, embora robusto, foi menos intenso do que o observados nos bancos. A alta foi de 43% em 12 meses, para R$ 279,9 bilhões no fim de julho.

O principal motivo para os bancos aumentarem os encaixes foi escapar dos custos de entregá-los ao Banco do Brasil, responsável por fazer a custódia de numerário em nome do Banco Central. O Banco do Brasil cobra uma tarifa entre 0,21% e 0,44% dos valores depositados, para ressarcir os seus custos operacionais.

A custódia é um serviço de guarda de dinheiro prestado pelo BB. Após processamento, destrói as cédulas em mau estado de conservação e recoloca as ainda em boas condições para circular, quando há demanda do público.

Quando os bancos depositam dinheiro em custódia no Banco do Brasil, o valor correspondente é creditado como um saldo na conta de reservas bancárias, uma espécie de conta corrente mantidas obrigatoriamente pelas instituições financeiras no Banco Central. Esses depósitos são passíveis de remuneração pelo BC. Quando menor os juros básicos da economia — hoje, em 2% ao ano — menor a remuneração recebida pelos bancos.

A queda da taxa de remuneração nos depósitos em reservas bancárias, comparada com o que os bancos pagam pelos serviços de custódia, levou essas instituições financeiras a reter mais dinheiro em espécie consigo, aumentando o encaixe monetario.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, citou a queda dos valores em custódia no Banco do Brasil como um risco potencial à estabilidade financeira em momento quando os juros básicos caem aos menores percentuais da história.

Em sua reunião de agosto de 2020, o Banco Central cortou os juros menos do que achava adequado, justamente para avaliar melhor possíveis repercussões negativas no sistema financeiro. O BC complementou o estímulo considerado necessário com um “forward guidance”, ou seja, a indicação de que não vai subir os juros, e poderá até baixá-los, enquanto as suas projeções de inflação e as expectativas de mercado não se aproximarem das metas. É o velho “viés de alta ou de baixa” em inglês… Soa melhor, menos gente tupiniquim entende, né?

Campos Neto não entrou em detalhes sobre por que o aumento do dinheiro com os bancos representa um potencial risco à estabilidade. O fenômeno, porém, cria uma ineficiência no sistema em momento quando o Banco Central se desdobra para atender à maior demanda de dinheiro em espécie pela população.

Muita gente sacou dinheiro para deixar em casa durante a pandemia e, assim, evitar o risco de contágio com idas frequentes aos bancos. Além disso, a demanda por dinheiro aumentou com o pagamento de auxílio emergencial e com a liberação de recursos do FGTS.

Esse repentino aumento no dinheiro em circulação — normalmente cresce a uma taxa de 6% ao ano — criou para o BCB o desafio de fabricar cédulas o suficiente para atender à população. A Casa da Moeda trabalha perto do limite de sua capacidade e as casas impressoras estrangeiras também têm pouca margem para atender tempestivamente novas encomendas do BC.

O dinheiro em circulação, incluindo notas e moedas com a população e com os bancos, aumentou R$ 109 bilhões no período de 12 meses até julho, para R$ 345,7 bilhões. Desse aumento, quase um quarto ficou retido com os bancos. Para atender à demanda adicional, o BC lançou a cédula de R$ 200.

O “dinheiro frio”, vulgo “geddeis”, agradece

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