Emprego de Má Qualidade e Desemprego Oculto

Qualidade dos EmpregosSaldo de emprego formal ago2019-ago2020Desemprego recorde jan 1995-jul 2020

Bruno Villas Bôas (Valor, 09/10/2020) informa: quase a metade dos empregos existentes no país são de qualidade ruim, com salários baixos, instabilidade ou jornada excessiva, o correspondente a 40,8 milhões de ocupações (45,5% do total), mostra estudo da consultoria IDados.

O economista Bruno Ottoni, pesquisador do IDados, diz que o estudo avalia a qualidade do emprego para além dos salários, com base em literatura internacional surgida nos últimos anos. A ideia é sintetizar múltiplos fatores em um indicador.

Existe um problema estrutural a limitar a oferta de boas vagas no Brasil: a baixa produtividade de trabalhadores, reflexo do pouco investimento em educação. Esse argumento coloca como responsabilidade dos trabalhadores os setores mais dinâmicos não crescerem e gerarem muitos empregos no país. O problema macroeconômico está na descapitalização dos ofertantes de empregos — e não na capacitação profissional dos demandantes. Este é um problema microeconômicos de poucos setores com tecnologia mais sofisticada.

A proporção de empregos de qualidade é pior se comparada à registrada, por exemplo, na média de 34 países europeus, acompanhados pelo Eurofound, agência da União Europeia. Essa agência calculou que 20,2% das ocupações da região têm qualidade ruim.

Outro estudo com metodologia semelhante, aplicado para a América Central, mostra o Brasil estar em níveis parecidos ao de países como Honduras (41,6%) e Nicarágua (43,3%) e bem pior do que Costa Rica (18,8%) e Panamá (29%), por exemplo.

Para chegar aos números sobre o Brasil, a consultoria baseou-se em indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE, de 2017. A ideia era olhar o mercado de trabalho sem as recentes distorções gerada pela pandemia.

O principal fator para a má qualidade do emprego no Brasil está no salário. O estudo mostra que 77,7% das ocupações remuneram insuficientemente para adquirir seis cestas básicas, critério de corte adotado. Cada cesta custa pouco mais de R$ 500.

Logo após os salários, a falta de estabilidade pesa para a baixa qualidade das ocupações no país. Cerca 40% dos trabalhadores estavam no emprego havia menos de 36 meses, o que evidenciaria uma rotatividade excessiva da força de trabalho.

Outro fator para a baixa qualidade do emprego é a seguridade. Do total de ocupados, 35,7% não contribuem para a Previdência Social, tornando-se desprotegidos de direitos trabalhistas, como os auxílios (doença, acidente e aposentadoria).

Por fim, pesa negativamente a jornada de trabalho superior a 48 horas semanais, emprego sem carteira assinada ou trabalhador por conta própria sem ensino superior. Os aspectos são reunidos em pontos e levam ao número final.

Ottoni lembra que a qualidade dos empregos contribui de forma significativa para o bem-estar. Nos EUA, antes da pandemia, a taxa de desemprego estava nas mínimas em 50 anos, abaixo de 4%. Mesmo assim, a insatisfação dos americanos era grande.

“A baixa qualidade do emprego nos Estados Unidos foi um dos fatores por trás da eleição de Donald Trump para a presidência do país”, diz o economista. “Por isso, o indicador da qualidade do emprego agrega para a análise do mercado de trabalho.”

Uma abertura mais detalhada dos resultados mostra que Brasília (36,1%), Santa Catarina (41%) e Rio de Janeiro (41,3%) têm, proporcionalmente, menos empregos de qualidade ruim, o que seria explicado pelo ampla presença de empregos públicos.

Como avalia a qualidade dos empregos existentes, o estudo não considera estatísticas de desemprego. O Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, embora bem colocado no ranking da qualidade do emprego, tinha a quarta pior taxa de desemprego do país, de 15,1%.

“É uma situação inversa ao exemplo dos EUA. O indicador de qualidade do emprego deve ser visto, assim, de forma complementar a outros dados do mercado de trabalho, como a taxa de desemprego fluminense”, acrescenta Ottoni.

O Estado de São Paulo tinha 43% dos trabalhadores em ocupações de qualidade ruim, nono da lista. Em termos absolutos, São Paulo tinha o maior número de trabalhadores em empregos piores (9,3 milhões) e melhores (21,6 milhões), de acordo com a pesquisa.

Os piores indicadores estão no Ceará e no Pará, Estados nos quais mais da metade dos trabalhadores ocupados está em posições ruins, com 52% e 50,1%, respectivamente. São Estados, em geral, com elevada taxa de informalidade na economia.

Durante a pandemia, o mais provável é que o indicador de qualidade do emprego tenha melhorado de forma artificial no país, já que as ocupações informais foram as mais afetadas. Distorções assim também aparecem em outros indicadores do mercado de trabalho, como a renda e a produtividade do trabalho.

Uma saída para melhorar os indicadores seria incentivar a geração de empregos formais. Ele afirma que as empresas formais e mais produtivas são muito taxadas, o que dificulta o crescimento delas e a geração de vagas de melhor qualidade no país.

“O crescimento econômico também permitiria gerar mais empregos, com qualidade. Ajudaria se as reformas fossem adiante, mas as pautas não avançaram porque o governo não entra na discussão séria, não pega pontos difíceis e negocia”, afirma o pesquisador do IDados.

Delphine Strauss — Financial Times, de Londres 08/10/2020

A pandemia do coronavírus deixou sem emprego milhões de trabalhadores a mais em todo o mundo desenvolvido do que sugerem os dados estatísticos oficiais de

desemprego, de acordo com estimativas de economistas. Isso ameaça as perspectivas de recuperação da economia nos próximos meses.

Mais de 25 milhões de pessoas na zona do euro e nos EUA estão oficialmente desempregadas, de acordo com números divulgados na semana passada.

Mas economistas dizem que o verdadeiro número de pessoas que perderam o emprego devido à pandemia é muito maior, se consideradas as pessoas cujos empregos estão temporariamente protegidos por programas de licença temporária subsidiados pelos governos, as que deixaram o grupo da População Economicamente Ativa (PEA, o número de pessoas empregadas ou em busca de emprego) e as que não conseguem trabalhar o número de horas semanais que gostariam.

As estimativas do número exato de pessoas cujos meios de sustento ficaram comprometidos variam bastante. Mas os governos de todo o mundo desenvolvido enfrentam o mesmo dilema: o choque econômico imediato das medidas iniciais de confinamento se abrandou, mas a permanência do desemprego tende a causar dificuldades generalizadas, pressionar os salários para baixo e desacelerar o ritmo de uma recuperação puxada pelo consumo.

“A reação do mercado de trabalho é a chave para entender as mais recentes ramificações do choque provocado pelo vírus, analogamente ao papel desempenhado pelos bancos durante a grande crise financeira ou pelos países soberanos durante a crise do euro”, disse o economista Marc de Muizon, do Deutsche Bank.

A economista Katharina Utermöhl, do Allianz, disse que os indicadores oficiais de desemprego são “a ponta do iceberg” e que há provas de que cerca de 30 milhões de trabalhadores desalentados deixaram de ser contados nos dados estatísticos oficiais em 25 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do grupo das economias emergentes.

Parte desse desemprego oculto – muito maior do que o observado em recessões anteriores – tende a ganhar visibilidade nas estatísticas oficiais quando os dados de setembro forem divulgados, no fim deste mês, porque muitos pais, que estavam em casa com os filhos, reingressaram na PEA quando as escolas reabriram, disse ela.

Nos EUA, a dinâmica é diferente. Trabalhadores em licença temporária são contados como desempregados na estatística oficial, portanto a primeira onda de perdas de emprego foi mais visível. O desemprego alcançou um pico em 14,7% em abril – cerca de 23 milhões de pessoas.

Desde então a economia americana reabriu cerca de metade das vagas que tinham sido fechadas. O desemprego caiu para 12,6 milhões, 7,9% da PEA, em agosto.

Mas boa parte dessa melhora aparente se deveu aos trabalhadores que saíram da PEA. A taxa oficial subestima a verdadeira extensão do desemprego, e o ritmo de melhora desacelerou. Alguns trabalhadores em regime de licença temporária voltaram ao trabalho, mas há pouco recrutamento em outras áreas, e um número crescente de empresas, que vai de companhias aéreas a parques temáticos, está fechando vagas permanentemente.

O professor Jason Furman, da Universidade Harvard, ex-assessor do presidente Barack Obama, calcula “a taxa de desemprego realista” em 9,6% – com cerca de 2,3 milhões de pessoas excluídas da contagem oficial -,após correções que refletem 750 mil pessoas que, segundo ele, foram classificadas equivocadamente, e uma queda muito mais radical de participação na PEA do que a observada nas últimas recessões.

Um período longo desemprego e subemprego elevados, com um exército de trabalhadores inativos em estado de espera, à margem do mercado, ameaça a recuperação da economia, uma vez que vai refrear o crescimento dos salários, a renda e os gastos das famílias.

A cada mês que os desempregados ocultos continuam deixados de fora da PEA, o consumo mundial das famílias incorrerá numa perda de 14 bilhões de libras esterlinas, estimou Utermöhl, em grande medida em áreas de gastos sociais eletivos que já são os mais duramente atingidos pelas restrições relacionadas à covid-19.

“Quando as aberturas de novas vagas são escassas, como agora, a alavancagem dos trabalhadores desaparece. Os empregadores simplesmente não têm de pagar tão bem quando sabem que os trabalhadores não têm alternativas em outros lugares.”

1 thought on “Emprego de Má Qualidade e Desemprego Oculto

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    São de má qualidade as ocupações de baixo salário, jornadas semanais superiores a 48 horas e sem proteção previdenciária. E oculto o desemprego daqueles que estão ocupados meramente por programas oficiais de garantia de trabalho na pandemia, que de outra forma se somariam aos desalentados desconsiderados na desocupação laboral.
    Um quadro grave trazido por Fernando Nogueira da Costa, que não pode esperar o feriado para ser divulgado, nem ter como resposta do governo “e daí?”.

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