Desafio da Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego

Serviços fev-ago 2020

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP. Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado. Roberto Zagha foi professor assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Como habitual, publicaram um artigo desenvolvimentista (Valor, 14/10/2020). Foge à regra neoliberal do jornal.

“O Brasil custou a crescer. Da chegada dos portugueses até o começo do século 20 a renda per capita do brasileiro estagnou. Explorava-se pau-brasil, plantava-se açúcar ou café, descobria-se ouro ou diamantes, traziam-se milhões de escravos, acabava- se com a escravidão, abria-se o país à imigração e a renda per capita mal se mexia.

Entre o final do século XIX e início do século XX, chegou a noção de ordem, progresso e crescimento econômico. A ideia se alastrou e cativou a mente de muitos. Líderes políticos civis e militares, industrialistas, tecnocratas, e até escritores como Monteiro Lobato e o cidadão comum começaram a imaginar um país moderno, com indústria, estradas, eletricidade, água e esgotos, educação, empregos bem remunerados, transporte público, comida para todos.

“Governar é abrir estradas”, “cinquenta anos em cinco”, “Plano de Metas”, passaram a ser temas de campanhas políticas. Governos civis e militares, modernizaram o país, lançaram a base de sua industrialização. Comissões estudaram os desafios do desenvolvimento, discutiram estrutura e estrangulamentos, como crescer e modernizar o país e as políticas econômicas que melhor serviriam esse objetivo. Economistas debateram o papel da moeda, das políticas fiscais, da concentração da propriedade, se chamavam estruturalistas ou monetaristas. Fizeram-se erros. Fizeram-se as correções necessárias e superaram-se os erros. Através de todo este período de entusiasmo modernizante, prevaleceu a vontade coletiva de ir para frente.

Os resultados foram espetaculares. A renda per capita do brasileiro dobrou entre 1900 e 1940, e quintuplicou entre 1940 e 1980. Nada menos do que uma metamorfose. Imaginem se o crescimento do período 1940-80 tivesse sido mantidopage2image134894832

nos 40 anos seguintes. Nossa renda per capita hoje seria 5 vezes a de 1980, isto é, R$ 130 mil em vez dos R$ 34 mil atuais.

Mas a partir dos anos 80 a ideia do crescimento abandonou o Brasil, parou de empolgar a imaginação coletiva, foi para outros lugares, onde outros países passaram a crescer a taxas brasileiras.

O resultado? Nos 40 anos que seguiram 1980, a renda per capita do brasileiro aumentou em apenas 30%, antes mesmo da crise da covid-19, e assim chegou a R$ 34 mil em vez dos R$ 130 mil que teriam sido possíveis tivesse o crescimento continuado às taxas 1940-80.

Por que o crescimento parou?

Os anos 1980 foram difíceis globalmente: alta dos preços de petróleo e das taxas de juros internacionais exigiam políticas de ajustamento e reformas. O Brasil custou a defini-las e implementá-las. Crise da dívida externa, hiperinflação e redução da taxa de crescimento passaram a fazer parte do cotidiano. O Plano Real em 1994, seguido pelo tripé da política macroeconômica, ambos imaginativos e audazes, conseguiram pôr um fim à inflação e crises externas, sem os custos em crescimento geralmente associados a programas de estabilização econômica. É difícil encontrar palavras descrevendo o entusiasmo e regozijo do país frente à acalmia de preços, fim de crises externas e previsibilidade reencontrada.

O tripé – superávit primário, independência do banco central com metas de inflação e taxa de câmbio flexível – foi extremamente eficaz em manter a inflação sob controle e evitar crises externas. Passou a ser a referência na condução de políticas macroeconômicas nos últimos 20 anos. Outra política que contribuiu à estabilidade foi o fim do endividamento externo do governo. A dívida pública agora é quase que exclusivamente em moeda nacional.

Mas boas ideias não são boas para sempre. O país se apegou rígida e religiosamente ao tripé e à inflação baixa. Taxa de juros altas foram aceitas como inevitáveis, assim como uma taxa de câmbio instável e apreciada. O crescimento parou de ser um objetivo. Taxas de crescimento modestas, bem abaixo da média histórica, foram aceitas como normais.

Durante alguns anos pós-Plano Real e tripé, a falta de políticas econômicas orientadas ao crescimento foi parcialmente mitigada pelos preços altos de commodities. Mas tiveram um custo em termos de um crescimento menor do que era potencialmente possível e de erosão dos alicerces do desenvolvimento do país: investimento público e privado, abertura da economia, industrialização e taxas de câmbio competitivas.

Talvez mais grave, a ideia de crescimento passou a segundo plano. O país passou a ter metas de inflação, mas não teve nem metas de crescimento nem estratégias de crescimento. A taxa de juros estratosférica passou a ser objeto de teorias que o tempo e os fatos provaram errôneas, mas ainda assim foram geralmente aceitas. Mais ainda, o Banco Central subiu em 2015 as taxas de juros para combater uma inflação que obviamente era de custos e não de demanda, e em 2018 reduziu as metas de inflação. Nenhum economista seria capaz de quantificar o ganho da redução das metas de inflação, mas ainda assim foi implementada.

O diferencial entre a taxa de juros doméstica e a internacional atraiu amplos volumes de capital financeiro que foram erroneamente contabilizados como investimento estrangeiro direto. As consequências da taxa de câmbio sobre a economia real foram ignoradas. Uma ideia ainda mais perversa se inseriu no pensamento coletivo: o crescimento é função exclusiva da disciplina fiscal. Quanto maior essa, maior aquele. A falta de fundamentação teórica dessa postura não incomodou. Em suma, a falta de diagnósticos econômicos claros, o apego a ideias em voga, e a falta de compromisso com o crescimento econômico fizeram com que o país ficasse à deriva.

Poderá o país reencontrar o caminho ao crescimento econômico? O passado nos diz que é possível. O Brasil conseguiu crescer a taxas altas por varias décadas com fundamentos muito mais fracos que os de hoje. Por outro lado, a ambição coletiva era muito maior, as ideias econômicas muito mais audazes, e o pensamento econômico, mais rigoroso, não era vítima de uma “Armadilha de Ideias Contraproducentes”. O reencontro com o crescimento acelerado somente se dará quando, coletivamente, pudermos reencontrar a forca de nossas ambições econômicas, a confiança de que poderemos realiza-las, e a criatividade que perdemos na formulação de políticas econômicas.

1 thought on “Desafio da Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    O chamado de Fernando Nogueira da Costa faz lembrar Geraldo Vandré: a certeza na frente, a história na mão. Os resultados espetaculares que o Brasil já alcançou só reforçam a recomendação que faz o economista e professor da Unicamp pela flexibilização e mesmo a superação do famoso tripé neoliberal dos últimos quarenta anos, que levou o Brasil à condição de fornecedor de lucro fácil para o capital financeiro.
    Quando a desocupação marca recordes, a flutuação do câmbio favorece a entrada e saída de capital meramente especulativo e o PIB de 2020 promete fazer muitas vítimas ao “assassino econômico”, é sempre oportuno o resgate da lembrança de que a “renda per capita do brasileiro dobrou entre 1900 e 1940, e quintuplicou entre 1940 e 1980”.
    E depois?

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