Densidade de Diplomas e Votos na Esquerda

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional da John F. Kennedy School of Government de Harvard. Publicou artigo (Valor, 10/11/2020) sobre partidos de esquerda terem se tornado partidos das elites culturais metropolitanas. Compartilho-o abaixo.

? Depois que Joe Biden conseguiu com dificuldade uma vitória nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, após alguns dias cheios de suspense, observadores da democracia americana ficaram perplexos. Animados com as pesquisas, muitos esperavam uma vitória esmagadora para os democratas, com o partido capturando não só a Casa Branca, como também o Senado.

Como Donald Trump conseguiu manter o apoio de tantos americanos – recebendo um número de votos ainda maior que o de quatro anos atrás -, apesar de suas mentiras descaradas, da corrupção evidente e da condução desastrosa da pandemia?

Cabe aos partidos da esquerda desenvolver soluções programáticas para problemas econômicos enraizados. Soluções tecnocráticas são insuficientes. Essa ponte precisa ser construída para a superar fissuras pelas quais as elites são em grande parte responsáveis

A importância dessa questão vai além da política americana. Partidos de centro-esquerda de todas as partes do mundo estão tentando reagir nas urnas contra os populistas de direita. Embora Biden seja, por temperamento, um centrista, a plataforma do Partido Democrata moveu-se consideravelmente para a esquerda — pelo menos pelos padrões americanos.

Uma vitória democrata esmagadora teria sido um impulso significativo ao espírito da esquerda moderada: talvez tudo que é necessário para vencer seja combinar políticas econômicas progressistas com um apego aos valores democráticos e a decência humana básica.

A discussão já está em como os democratas poderiam ter se saído melhor. Infelizmente, sua vitória apertada não produz nenhuma lição fácil. A política americana gira em torno de dois eixos: cultura e economia. Neles, podemos encontrar aqueles que acusam os democratas de terem ido longe demais e aqueles que os acusam de não terem ido longe o suficiente.

As guerras culturais colocam as áreas rurais predominantemente brancas e socialmente conservadoras contra as áreas metropolitanas, onde as chamadas “woke attitudes” [conscientização sobre a justiça social e racial] ganharam predominância. De um lado temos os valores familiares, a oposição ao aborto e o direito de posse de armas. Do outro, temos os direitos LGBT, a justiça social e a oposição ao “racismo sistêmico”.

Muitos que votaram em Trump viram o apoio dos democratas aos protestos de rua deste ano contra a brutalidade policial como uma condenação à violência e o arremesso da nação como um todo no saco do racismo. Embora Biden tenha sido cuidadoso ao falar contra a violência, os democratas ficaram suscetíveis a acusações de “jogar para a plateia” e de denegrir os valores do coração da América. Para outros, a continuidade do apoio a Trump simplesmente confirma o quanto o racismo e a intolerância estão enraizados, e a necessidade urgente que o Partido Democrata tem de combatê-los.

Em termos econômicos, muitos observadores, incluindo alguns democratas de centro, acreditam que o partido afugentou eleitores conservadores ao se mover demais para a esquerda. Fiéis ao seu estilo, os republicanos atiçaram o medo de aumento de impostos, políticas ambientais que eliminam empregos e medicina socializada. Nos dois maiores partidos políticos dos EUA, o mito americano perfeito do empreendedor solitário que se sai melhor quando o governo interfere menos continua vivo e bem.

No outro lado do argumento, os progressistas afirmam que Biden fez campanha sobre propostas que estão longe de radicais pelos padrões de outras nações desenvolvidas. Ele estava, afinal, determinado a enquadrar as eleições como um referendo sobre Trump, e não como um teste de apoio a uma agenda alternativa. Talvez Bernie Sanders ou Elizabeth Warren, com suas ênfases maiores nos empregos, segurança econômica e redistribuição estivessem mais afinados às aspirações da maioria dos americanos.

Como as eleições foram realizadas no meio de uma pandemia cada vez mais mortal, também é possível que os padrões de votação tenham sido conduzidos por uma mistura de considerações econômicas e de saúde, apenas frouxamente relacionadas a essas discussões. Algumas fontes do Partido Democrata acreditam que os eleitores podem ter ficado preocupados com os custos econômicos dos “lockdowns” e com as políticas mais agressivas contra a covid-19 defendidas pelos democratas. Se assim for, os argumentos acima são em grande parte irrelevantes.

Em resumo, está claro que as eleições não resolvem o debate perene sobre como o Partido Democrata e outros partidos de centro-esquerda deveriam se posicionar nas questões culturais e econômicas para maximizar seus apelos eleitorais. Mas isso também não altera fundamentalmente o desafio que esses partidos enfrentam. Os líderes políticos da esquerda precisam talhar uma identidade menos elitista e uma política econômica de maior credibilidade.

Conforme observou Thomas Piketty, entre outros, os partidos de esquerda se tornaram os partidos das elites metropolitanas e instruídas. Como suas bases tradicionais das classes trabalhadoras foram corroídas, a influência dos profissionais globalizados, do setor financeiro e dos interesses corporativos aumentou. O problema não é só o fato de essas elites sempre favorecerem as políticas econômicas que deixam as classes média e média-baixa e as regiões menos favorecidas para trás. É também o fato de que o isolamento cultural, social e espacial dessas elites as tornam incapazes de entender e se identificar com as visões de mundo dos menos favorecidos.

Um sintoma eloquente disso é a facilidade com que a elite cultural despreza os mais de 70 milhões de americanos que votaram em Trump nessas eleições, retratando-os como pessoas ignorantes que votam contra seus próprios interesses.

No campo da economia, a esquerda ainda carece de uma boa resposta à questão premente da nossa época: de onde virão bons empregos? Uma tributação mais progressiva, investimentos em educação e infraestrutura e (nos EUA) seguro saúde universal são cruciais. Mas não são suficientes. Bons empregos para a classe média estão ficando escassos, graças às tendências seculares da globalização e da tecnologia. E a covid-19 aumentou a polarização dos mercados de trabalho. Precisamos de uma estratégia de governo mais proativa, voltada diretamente para o aumento da oferta de bons empregos.

Comunidades onde os bons empregos desaparecem, pagam um preço que vai além da economia. Dependência química, famílias desfeitas e aumento da criminalidade. As pessoas se apegam mais aos valores tradicionais, ficam menos tolerantes a forasteiros e mais dispostas a apoiar líderes autoritários. A insegurança econômica desencadeia ou agrava falhas culturais e raciais.

Cabe aos partidos da esquerda desenvolver soluções programáticas para esses problemas econômicos profundamente enraizados. Mas soluções tecnocráticas são insuficientes. Muito dessa ponte precisa ser construída para a superação das fissuras pelas quais as elites culturais são em grande parte responsáveis. Caso contrário, os democratas poderão ter um despertar amargo daqui a quatro anos.

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