Quintas-Feiras Negras

A pandemia foi anunciada, no dia 11/03/2020, provocando um risco sistêmico mundial. A bolsa de valores brasileira, apesar da queda desde a “quinta-feira branca” (pico de 119.527 pontos), ainda aparecia entre as alocações preferidas dos gestores. 

Comungavam a avaliação de haver fluxo certo de recursos, devido ser baixa a proporção de renda variável nos portfólios, seja da pessoa física, seja do investidor institucional. A dúvida era se o estrangeiro potencializaria ou não esse movimento. Ledo autoengano.

Durante a mania especulativa, mantém-se a fé irrealista, surgida na euforia da alta, de a elevação de preços continuar eternamente. Dissidentes são ridicularizados por não entenderem “o novo mundo”. Pobres acreditam no súbito enriquecimento.  

O instinto puramente especulativo leva as pessoas não só a acreditar nos valores crescerem ainda mais, mas também a crer na posse da genialidade antecipatória de cair fora antes de O Mercado desabar. O mundo de simulação especulativa é habitado não por gente necessitada de ser persuadida a acreditar, mas sim por gente apenas em busca de uma desculpa por acreditar.

Outra “quinta-feira negra” ocorreu no dia 12/03/2020. Na manhã, o jornal econômico mais lido por participantes de O Mercado, no Brasil, anunciava: “A sangria dos mercados acionários americanos foi retomada ontem, jogando o índice de blue chips Dow Jones em ‘bear market’ [mercado-urso baixista], quando o indicador acumula uma queda de mais de 20% em relação ao pico recente. Os investidores seguem frustrados pela falta de ação dos governos em relação aos impactos do coronavírus. O cenário ontem foi agravado após a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificar o surto como uma pandemia, contribuindo para mais um dia de pânico nos mercados financeiros globais.”

Apesar da piora das perspectivas, os rendimentos dos títulos de dez e trinta anos nos EUA – em geral sobem quando seus preços caem –, em meio ao pânico nos mercados, se comportaram de maneira oposta ao esperado de ativos de proteção. Os investidores realizaram lucros, ficando com dinheiro em caixa e esperando uma oportunidade para reentrar no mercado acionário mais barato.

Enquanto a Nasdaq e o Dow Jones, em Nova York, caíram respectivamente -4,70% e -5,86%, o Ibovespa em São Paulo teve a maior queda se comparada às demais bolsa de valores do mundo. O Ibovespa teve o segundo ‘circuit breaker’ da semana acionado e fechou em baixa de 7,64%, aos 85.171 pontos. Isso não ocorria desde outubro de 2008, quando em meio à crise financeira mundial cinco ‘circuit breakers’ foram acionados, sendo três na mesma semana, com dois no dia 6 de outubro e um no dia 10.

Em todo o ano de 2020, a média diária do giro era de R$ 19,5 bilhões. Mas, desde a Quarta-feira de Cinzas, o volume passou para uma média diária de R$ 27 bilhões por causa da onda de busca por proteção. 

Sexta-feira, 13 de março de 2020: “eu não acredito em fantasmas, mas se eles existem, existem…” A véspera tinha sido aquela nova “quinta-feira negra”. Um novo dia de pânico assolou os mercados financeiros, depois de o presidente Donald Trump ter anunciado o cancelamento de voos de passageiros entre a União Europeia e os Estados Unidos durante 30 dias. Além disso, apresentou um pacote de medidas vagas, consideradas pífias para enfrentar a crise global decorrente da pandemia do coronavírus.

Na Bolsa de Nova York, o mecanismo de “circuit breaker” (parada de negócios) foi acionado pela segunda vez na semana. O índice Dow Jones caiu -9,99% e o S&P 500, -9,51%. Na Nasdaq, a queda foi de -9,43%. Foi o pior dia desde 1987.

Quase a bolsa de valores brasileira teve suas negociações interrompidas pela terceira vez em uma única sessão, de maneira inédita. Na mínima, o Ibovespa alcançou 68.488 pontos, queda de 19,59%, mas encerrou o dia com perda de -14,78%. Desde o pico de 23 de janeiro, o Ibovespa já acumulava desvalorização de -39,3%.

O pânico foi associado também à deterioração das perspectivas fiscais do país. Forçou reação sem precedente de parte do Tesouro Nacional e do Banco Central. O dólar superou R$ 5 logo nos primeiros minutos da sessão e os juros futuros saltaram para o limite de alta, travando os negócios. O BCB fez quatro intervenções vendendo dólar no mercado à vista e o Tesouro lançou programa de compra e venda de títulos públicos. O dólar encerrou o dia em alta de 1,41%, a R$ 4,7882.

A ação de emergência do Federal Reserve – Fed, o Banco Central americano –, no domingo, foi incapaz de acalmar os investidores. A Bolsa de Valores de Nova York teve queda na segunda-feira de -12,93% e a Nasdaq, de -12,32%. Em São Paulo, o Ibovespa caiu -13,92%. Nenhuma ação teve alta. O dólar se elevou de R$ 4,02 no início do ano para R$ 5,06 no dia 16/03/2020: as fortunas cotadas em dólar caíram 1/5 do valor.

O novo episódio de pânico nos mercados em todo o mundo na segunda-feira abriu oportunidades para compra de ações baratas e uma recuperação parcial da bolsa e do real no dia seguinte. O alívio emocional veio após a divulgação de pacotes de estímulos econômicos nos Estados Unidos e na Europa, para amenizar os impactos negativos do coronavírus. O Ibovespa fechou em alta de +4,85%, aos 74.617 pontos, e o dólar comercial terminou em queda de -1,10%, aos R$ 5,00.

Na segunda-feira seguinte, porém, anunciou-se os ativos brasileiros – ações e real – terem sofrido as piores perdas no mundo. Em 2020, o Ibovespa caía 56,4% em dólar, enquanto a moeda americana acumulava ganhos de 28,1% ante o real. A bolsa tinha o pior desempenho no mundo, enquanto o real estava entre os quatro piores.

Naquele dia 23/03/2020, o Ibovespa recuou -5,22%, aos 63.570 pontos, em linha com a bolsa de valores dos Estados Unidos, mas a performance aqui foi pior. O Dow Jones teve queda de -3,04%. Aquele patamar se tornou o piso do ano até agora.

Por que comprar ações, dada essa volatilidade, sinônimo de risco de o retorno esperado não se confirmar? Investidor adquire ações com o objetivo de obter direito à parte do lucro empresarial e/ou ganho de capital por comprar barato e vender caro. Esse retorno será proveniente de direitos e proventos – dividendos, bonificações e direitos de subscrição – distribuídos aos acionistas pela companhia aberta e eventual valorização do preço das ações. 

análise fundamentalista focaliza o desempenho da empresa e suas perspectivas futuras. Em visão alternativa, a análise técnica é Psicologia Social aplicada a O Mercado, cujo imaginário social vê como um ser sobrenatural, porque onipresente, onipotente e onisciente. Corresponde à soma dos desejos, medos e expectativas de seus participantes. Essa análise grafista busca identificar as tendências e as mudanças no comportamento das multidões – a massa de indivíduos –, refletidas os preços.

Ação normalmente é vendida quando o investidor avalia suas perspectivas serem relativamente menos favoráveis em comparação a outras ações ou mesmo outras alternativas de investimento. Em pânico, vende por qualquer preço, quando precisa obter recursos urgentemente.

O especulador profissional delimita, previamente, seu ganho e sua perda com ordens para o corretor de “stop-loss”. Em busca de proteção, cria o hábito de aceitar apenas pequenas perdas e cair fora logo, partindo para outra operação. Não aguarda a recuperação. Seu lema é: “quando o barco começar a afundar, não reze, abandone-o!”

A preferência dos maiores investidores, como fundos de capital estrangeiro e investidores institucionais, é por grandes empresas, inclusive estatais e privatizadas, com muitas ações em circulação. Contam com pronta liquidez, oferecendo condições de absorver as ordens de compra e venda. Abrem possibilidade das operações especulativas no mesmo pregão (day trade), no mercado de opções e de futuros.

Durante muitos anos, a maioria das empresas deixou de fazer emissões públicas, porque os investimentos eram diminutos, dada a estagnação da economia brasileira. As empresas capitalizadas preferiam, no regime de alta taxa de juros, ter liquidez com sobras de caixa, para obtenção de receitas financeiras e fazer autofinanciamento.

Em vez de emitir ações, para colocá-las junto ao público, as empresas optavam por recomprar, retirando do mercado as próprias ações desvalorizadas. Era um investimento em si mesmo. Esse comportamento oportunista das sociedades anônimas acabou por provocar grande escassez de papéis chamados de “segunda linha”.

A relutância das empresas privadas em abrir seu capital explica-se pelo baixo valor de mercado das ações em relação ao valor patrimonial. O país contava, em 2010, com 464 empresas de capital aberto. Em dezembro de 1996, eram 550. Em 2020, reduziu para apenas 330. Várias se tornaram sociedades anônimas para captar recursos em vez em quando por meio de debêntures – e não para buscar sócios na bolsa de valores.  

A NYSE tem cerca de 2.700 de empresas listadas (mais de 21 trilhões de dólares em valor de mercado), a Nasdaq mais de 3.000 (US$ 7 trilhões), assim como as bolsas de valores de Londres (US$ 6 trilhões) e Tóquio (US$ 5 trilhões). O valor de mercado total das ações na raquítica bolsa brasileira, no fim de outubro de 2020, era apenas US$ 700 bilhões.

Publicado originalmente em:

Quintas-feiras de pânico

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