Anticapitalista no Século XXI

“Em abril de 2018, fui diagnosticado com leucemia mieloide aguda. (…) Se a cirurgia for bem-sucedida, estarei curado; caso contrário, morrerei.” Erik Olin Wright escreveu isso com serenidade, em agosto daquele ano, quando concluiu seu livro “Como ser anticapitalista no século XXI?”. Ele foi publicado postumamente (Boitempo, 2019), pois o autor morreu aos 71 anos no dia 23 de janeiro de 2019.

Considero-o uma obra prima a se tornar um clássico, lido por gerações posteriores de ativistas. É uma renovadora obra de um escritor marxista. Demarca a superação de uma época. Representa uma obra-mestra para se pensar a evolução sistêmica.

Pertencia aos autointitulados “marxistas analíticos”. Seu objetivo era livrar o marxismo de todo o tipo de papo furado – picaretagens filosóficas, saltos argumentativos e demais ilusões da retórica “nós contra eles” – e produzir uma ciência mais rigorosa.

Erik foi presidente da Associação dos Sociólogos dos Estados Unidos. Com seu conceito de “situações contraditórias de classe” – posições de classe localizadas entre as três classes fundamentais, isto é, os capitalistas, os trabalhadores e a pequena burguesia, incentivou os marxistas irem além da relação binária capital-trabalho

Observava o papel-chave da pequena-burguesia, dos pequenos empresários, gerentes, supervisores e trabalhadores autônomos. Uma classe média universitária, composta por trabalhadores intelectuais, se formou massivamente após a II Guerra e tem maior capacitação profissional para encontrar ocupações perante a 4ª. revolução tecnológica.

Seu esquema de classes explicava melhor a desigualdade, em especial a de renda, em lugar dos modelos sociológicos sobre estratificação, as teorias sobre capital humano usadas pelos economistas e os conceitos marxistas binários. Mensurava a consciência de classe.

Sua conceptualização de classe focava na distribuição de diferentes recursos: força de trabalho, meios de produção, recursos organizacionais e competências. Se o feudalismo estava baseado na desigual distribuição da força de trabalho, o capitalismo estaria baseado na desigual distribuição dos meios de produção. O capitalismo de Estado, por sua vez, seria baseado na distribuição desigual dos recursos organizacionais e o socialismo de mercado, na desigual distribuição de competências ou capacitações.

O capitalismo apresenta-se como um modo específico de organizar a economia, isto é, a produção e a troca de bens e serviços. No modo de produção escravista, predominante na maior parte da história da humanidade, o produtor era o escravo – e ele era uma mercadoria, comprada e vendida no mercado. Não recebia salário por seu trabalho.

Feudalismo foi um modo de organização social, político e cultural, baseado no regime de servidão, onde o trabalhador rural era o servo do grande proprietário de terras, o senhor feudal. O feudalismo predominou na Europa durante toda a Idade Média, isto é, entre os séculos V e XV.

No capitalismo, as relações de trabalho são normalmente estabelecidas por meio de um contrato, tácito ou escrito, segundo o qual o empregador se dispõe a pagar um salário e o empregado se dispõe a trabalhar em prol do benefício de quem o emprega. Sob pressão, os capitalistas-acionistas podem oferecer algum outro tipo de recompensa a seus empregados como bônus em ações ou participação no lucro e resultados. Estes podem ter um fundo de pensão patrocinado pela empresa e ele comprar ações, ou seja, coletivizar esses direitos de propriedade.

No socialismo, a troca de bens é motivada pelo acesso ao necessário para os membros da sociedade realizarem, nos limites do possível e do viável para a sustentabilidade do ambiente, suas capacidades e seus talentos, de modo a terem vidas plenas. No sistema capitalista, bens e serviços são geralmente produzidos e vendidos em um mercado com o objetivo de realizar lucros. A impessoalidade do dinheiro rege as trocas em todos os sistemas econômicos complexos emergentes das interações de múltiplos componentes.

Para Erik Whrigt, o modo de organizar a economia se dá através de um sistema dinâmico de instituições sociais. Ele compreendeu a formação e a reprodução de nichos não capitalistas em contexto mais amplo de funcionamento social predominantemente capitalista.

Nesse caso, os arranjos institucionais se combinam e finalmente definem não um modo de produção puramente capitalista, mas um ecossistema social híbrido, articulando dinamicamente configurações variadas e múltiplas de organizar a economia. Na sociologia wrightiana, o socialismo existe dentro e para além do capitalismo.

Wright abandonou a “grande narrativa” da súbita revolução socialista. Ao refutar a perspectiva totalizante de um capitalismo inconteste, percebeu lógicas de transformação não puramente disruptivas do sistema dominante. Se uma alternativa binária da transformação social é refutada – ou é capitalismo ou é socialismo –, surgem lógicas de transformação atuando no aprofundamento dos elementos socialistas dentro do sistema capitalista predominante. Essas são lógicas de erosão do capitalismo.

No livro, defende um socialismo democrático de mercado, entendido como uma forma radical de democracia econômica. O livro poderia se chamar, portanto, “Como ser um socialista democrático no século XXI?”. Mas decidiu usar o termo mais abrangente, “anticapitalista”, porque considerou o argumento-central de seu livro ser relevante para todos aqueles opositores do capitalismo, mas céticos em relação ao socialismo

A crítica moral ao capitalismo está amparada em três conjuntos de valores: igualdade/justiça, democracia/liberdade e comunidade/solidariedade. O capitalismo gera e perpetua formas injustas de desigualdade econômica. Reduz a democracia e restringe a liberdade de muitos, ao mesmo tempo aumentando desproporcionalmente a liberdade de poucos. Pior, cultiva ideias, no âmbito cultural, capazes de endossarem o triunfo da competitividade individualista sobre o bem-estar coletivo.

Esses conjuntos de críticas ao capitalismo acarretam duas formas principais de ceticismo. Em primeiro lugar, muita gente questiona se o próprio capitalismo pode ser culpado de alguns dos problemas identificados. 

Uma visão bastante comum, por exemplo, é a de a pobreza em meio a abundância refletir uma disparidade entre as habilidades de cada um e as habilidades buscadas pelos empregadores. No fundo, isso teria a ver com mudanças tecnológicas e garantir um bom treinamento ou educação, mas não daria para culpar o capitalismo. 

Outra forma de crítica diz a persistência da pobreza ser resultado da desintegração das relações familiares e adoção voluntária de uma “cultura da pobreza”. Não se poderia culpar o capitalismo por isso. 

Problemas ambientais, por sua vez, seriam resultado da industrialização, sem relação com as estratégias de busca do lucro das empresas capitalistas. Déficits na democracia seriam oriundos da complexidade e do tamanho das sociedades contemporâneas e não teriam relação com a influência da riqueza sobre as regras do jogo no capitalismo. 

A deterioração dos valores comunitários seria um resultado da urbanização, da complexidade social e dos altos níveis de mobilidade geográfica. Nada teria a ver com as forças competitivas do mercado ou da cultura do capitalismo. 

Esses processos causais identificados pelos céticos são relevantes. A falta de habilidades necessárias para atender à oferta de empregos certamente contribui para a pobreza. A complexidade das sociedades heterogêneas é um grande desafio para as democracias. Os altos níveis de mobilidade espacial podem enfraquecer a noção de comunidade. 

O diagnóstico e a crítica ao sistema capitalista não implicam ele ser a única causa dos déficits presentes nos valores de igualdade, democracia e comunidade. Mas ele é emergente de interações das diferentes mazelas sociais, cujo desafio ativista dos anticapitalistas é superá-las, configurando um novo sistema pleno daqueles valores.

A segunda fonte de ceticismo diz respeito ao problema das alternativas. Muitas pessoas reconhecem o capitalismo estar, de fato, implicado em todos aqueles problemas. Mas elas também acreditam não haver alternativas viáveis a esse sistema capitalista

Uma crítica da retórica da intransigência reacionária é os caminhos alternativos propostos, para constituir um novo e melhor sistema de organização social, não funcionariam e poderiam até mesmo piorar as coisas. É a Tese da Ameaça: o custo de qualquer reforma proposta é alto demais,
porque colocaria em perigo
outra preciosa realização. Logo,
mudança social também tem “custo de oportunidade”. 

Outro ceticismo é, mesmo se for possível um sistema melhor, os poderes estabelecidos no sistema capitalista já são fortes demais. Tornam praticamente impossível a mudança. 

Para os céticos, ou não há um destino favorável, ou não há nenhuma maneira de chegarmos a ele. As alternativas são, portanto, utópicas, críticas à realidade capitalista, mas intangíveis. O restante deste livro se dirige a esse segundo tipo de ceticismo. O capitalismo gera anticapitalistas.

Publicado originalmente em:

https://jornalggn.com.br/artigos/anticapitalista-no-seculo-xxi-por-fernando-nogueira-da-costa/

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