Variedades de Capitalismo e Desigualdade de Renda

Nota: O gráfico mostra no eixo horizontal a desigualdade composicional e no eixo vertical a medida padrão da desigualdade de renda interpessoal (coeficiente de Gini). Os países nórdicos (Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca) estão marcados em vermelho.

Marco Ranaldi & Branko Milanovic (VoxEU, 03 December 2020) escreveram importante artigo sobre desigualdade. Compartilho abaixo.

Níveis semelhantes de desigualdade de renda podem ser caracterizados por distribuições completamente diferentes de capital e trabalho. As pessoas pertencentes ao decil de renda mais alta nos Estados Unidos, antes da Segunda Guerra Mundial, recebiam principalmente rendas de capital, enquanto em 2010 as pessoas no decil mais alto ganhavam altas rendas de trabalho e capital (Piketty 2014). No entanto, a diferença em suas participações de renda total era pequena.

Diferentes distribuições de capital e trabalho descrevem diferentes sistemas econômicos. Dois sistemas polares são particularmente relevantes. No capitalismo clássico — explícito nos escritos de Ricardo (1994 [1817]) e Marx (1992 [1867], 1993 [1885]) ¬– um grupo de pessoas recebe renda inteiramente da propriedade de ativos, enquanto a renda de outro grupo deriva inteiramente do trabalho . O primeiro grupo (capitalistas) é geralmente pequeno e rico; os últimos (trabalhadores) são geralmente numerosos e pobres, ou, na melhor das hipóteses, com níveis de renda medianos. O sistema é caracterizado por alta desigualdade de renda.

No capitalismo liberal de hoje, no entanto, uma porcentagem significativa de pessoas recebe rendas do capital e do trabalho (Milanovic 2019). Ainda é verdade a parcela da renda derivada do capital aumentar à medida que avançamos na distribuição de renda, mas muitas vezes os ricos têm altos rendimentos de capital e de trabalho. Embora a desigualdade de renda interpessoal ainda seja alta, a desigualdade na composição da renda é muito menor.

O objetivo do estudo é apresentar uma nova forma de olhar para a desigualdade. Ela nos permite classificar empiricamente diferentes formas de capitalismo. Além da usual desigualdade de renda interpessoal, olhamos para a desigualdade na composição fatorial (capital ou trabalho) da renda das pessoas. A análise de classe (onde a classe é definida estritamente, dependendo do tipo de renda recebida) é, portanto, separada da análise da desigualdade de renda propriamente dita.

Quais países ao redor do mundo estão mais próximos do capitalismo clássico e quais do capitalismo liberal? O capitalismo clássico exibe maior desigualdade de renda interpessoal face ao capitalismo liberal? Podemos encontrar o chamado de sociedades “homoplásticas” – onde todos têm aproximadamente as mesmas parcelas de capital e renda do trabalho? Essas sociedades homoplásticas apresentariam níveis altos ou baixos de desigualdade de renda?

Para responder a essas questões, em Ranaldi e Milanovic (2020), adotamos uma nova estatística, recentemente desenvolvida por Ranaldi (2020), para estimar a desigualdade composicional das rendas: o índice de concentração do fator de renda (IFC). O índice de concentração do fator de renda é máximo quando os indivíduos no topo e na base da distribuição total da renda ganham dois tipos diferentes de renda, e mínimo quando cada indivíduo tem as mesmas participações na renda do capital e do trabalho.

Quando o índice de concentração do fator renda é próximo a um (valor máximo), a desigualdade composicional é alta e uma sociedade pode ser associada ao capitalismo clássico. Quando o índice está próximo de zero, a desigualdade composicional é baixa e uma sociedade pode ser vista como um capitalismo homoplástico. O capitalismo liberal ficaria no meio. Os valores negativos do índice de concentração do fator de renda, ao descreverem sociedades com capitalistas pobres e trabalhadores ricos, provavelmente não serão encontrados na prática.

Ao aplicar essa metodologia a 47 países com microdados fornecidos pelo Luxembourg Income Study da Europa, América do Norte, Oceania, Ásia e América Latina nos últimos 25 anos e cobrindo aproximadamente 80% da produção mundial, três principais resultados empíricos emergem.

Em primeiro lugar, o capitalismo clássico tende a ser associado a uma maior desigualdade de renda em lugar do capitalismo liberal (ver Figura 1). Embora essa relação estivesse implícita nas mentes de autores clássicos como Ricardo e Marx, bem como em estudos recentes sobre a desigualdade pré-Primeira Guerra Mundial em países onde se acredita terem fortes divisões de classe (Bartels et al. 2020, Gómes Léon e de Jong 2018), nunca foi testado empiricamente.

Em segundo lugar, três grandes aglomerados emergem em escala global. O primeiro cluster é o de economias avançadas, que inclui Europa Ocidental, América do Norte e Oceania. Níveis relativamente baixos a moderados de desigualdade de renda e composição caracterizam este cluster. Os EUA e Israel estão um pouco separados dos países centrais, uma vez que apresentam maior desigualdade em ambas as dimensões.

Os países latino-americanos representam o segundo cluster e são, em média, caracterizados por níveis elevados em ambas as dimensões da desigualdade.

O terceiro cluster é composto por países nórdicos e é excepcional na medida onde combina baixos níveis de desigualdade de renda com alta desigualdade composicional.

Isso não é totalmente surpreendente: os países nórdicos são conhecidos por combinar compressões salariais com altos retornos para o capital “socialmente aceitáveis” (Moene e Wallerstein 2003, Moene 2016). Esse compromisso entre capital e trabalho (alcançado no início dos anos 1930) colocou um limite na desigualdade de renda na região (Fochesato e Bowles 2015), mas deixou a desigualdade de riqueza intocada (Davies et al. 2012). Ao reduzir drasticamente a progressividade da tributação da renda do capital (Iacono e Palagi 2020), as reformas do imposto de renda durante a década de 1990 trabalharam na mesma direção.

Vários outros resultados são encontrados. Muitos países da Europa de Leste estão próximos do cluster nórdico. Alguns (Lituânia e Romênia) apresentam desigualdades composicionais muito altas, provavelmente o produto da privatização concentrada de ativos estatais. A Índia é muito semelhante ao cluster latino-americano, exibindo uma estrutura baseada em classes com altos níveis de desigualdade de renda.

Taiwan e Eslováquia são, em vez disso, as sociedades mais ‘sem classes’ de todas. Eles combinam níveis muito baixos de renda e desigualdade de composição. Isso os torna ‘resistentes à desigualdade’ ao aumento da participação de capital na renda. Em outras palavras, se a participação no capital continuar a aumentar, devido a mais automação e robótica (Baldwin 2019, Marin 2014), isso não aumentará a desigualdade interpessoal: a renda de todos aumentaria na mesma porcentagem.

A ligação entre a distribuição de renda funcional e pessoal em tais sociedades é fraca – o tópico de uma coluna anterior da VoxEU de Milanovic (2017b). Também é interessante a Taiwan ser mais ‘sem classes’ e menos desigual se comparada à China.

O terceiro resultado, e talvez o mais surpreendente, emergente de nossa análise é nenhum país em nossa amostra ocupar a parte noroeste do diagrama. Não encontramos evidências de países combinando baixos níveis de desigualdade de composição (como os de Taiwan e Eslováquia) com níveis extremamente altos de desigualdade de renda (como na América Latina).

Para concluir, propomos uma nova taxonomia das variedades do capitalismo com base nas duas dimensões da desigualdade (Tabela 1). Acreditamos tal taxonomia trazer um forte foco empírico e distributivo para a literatura sobre as variedades do capitalismo, bem como uma maior cobertura geográfica.

Related

References

Baldwin, R (2019), The Globotics Upheaval: Globalization, Robotics and the Future of Work, Princeton University Press.

Bartels, C, F Kersting and N Wolf (2020), “Testing Marx: Inequality, Concentration and Political Polarization in late 19th Century Germany”, German Institute for Economic Research.

Davies, J, R Lluberas and A Shorrocks (2012), Credit Suisse Global Wealth Report 2012.

Fochesato, M and S Bowles (2015), “Nordic exceptionalism? Social democratic egalitarianism in world-historic perspective”, Journal of Public Economics 127: 30-44.

Gómes Léon, M and H J de Jong (2018), “Inequality in turbulent times: income distribution in Germany and Britain, 1900–50”, Economic History Review. 

Iacono, R and E Palagi (2020), “Still the Lands of Equality? On the Heterogeneity of Individual Factor Income Shares in the Nordics”, LIS working papers series 791.

Marin, D (2014), “Globalization and the Rise of the Robots”, Vox.EU.org, 15 November.

Marx, K (1992 [1867]), Capital: A Critique of Political Economy 1, translated by B Fowkes, London: Penguin Classics. 

Marx, K (1993 [1885]), Capital: A Critique of Political Economy 3, translated by D Fernbach, London: Penguin Classics.

Milanovic, B (2017a), “Increasing Capital Income Share and its Effect on Personal Income Inequality”, in H Boushey, J Bradford DeLong and M Steinbaum (eds) After Piketty. The Agenda for Economics and Inequality. Cambridge, MA: Harvard University Press. 

Milanovic, B (2017b), “Rising Capital Share and Transmission Into Higher Interpersonal Inequality”, Vox.EU.org, 16 May. 

Milanovic, B (2019), Capitalism, Alone, Cambridge MA: Harvard University Press.

Moene, K O and M Wallerstein (2003), “Social democracy as a development strategy”, Department of Economics, University of Oslo 35/2003.

Moene, K O (2016), “The Social Upper Class under Social Democracy”, Nordic Economic Policy Review 2: 245–261.

Ricardo, D (2004 [1817]), The Principles of Political Economy and Taxation, London: Dover publications.  

Ranaldi, M (2020), “Income Composition Inequality”, Stone Center Working Paper Series 7.

Ranaldi, M and B Milanovic (2020), “Capitalist Systems and Income Inequality”, Stone Center Working Paper Series 25.

Piketty, T (2014), Capital in the Twenty-First Century, translate by A Goldhammer, Cambridge, MA: Harvard University Press.

2 thoughts on “Variedades de Capitalismo e Desigualdade de Renda

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Para incrementar o capital, a par da pesquisa científica, é preciso produzir mais e mais eficientes meios de produção. Ou seja, trabalhar. Se a titularidade do resultado da produção que não será imediatamente consumido – bens de capital, no linguajar capitalista – será privada ou social é o que determina o tipo de relações de produção entre os indivíduos.
    Dessa forma, quanto menor o IFC, mais próximo das relações socialistas e vice-e-versa.
    A redução da desigualdade renda ao nível da necessidade individual depende, em primeiro lugar, da abundância de meios de produção e consumo e, principalmente, da consciência dos produtores.

  2. Importante abordagem não usual sobre desigualdade. Há muito a refletir sobre o artigo de Fernando Nogueira da Costa

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