“Pobre de Direita” (38% de Apoio ao Capitão-Miliciano) e a Esquerda Perplexa

Marcos Verlaine é jornalista, analista político e assessor parlamentar licenciado do DIAP. Escreveu brevíssimo artigo, publicado no Jornal GGN (16/01/2021), tentando lançar luz sobre a incompreensão da militância de esquerda, perplexa diante do atual debate político, nas redes e nas ruas. Portanto, ele a desalenta, seja com inconformismo, seja com revolta, a respeito do chamado “pobre de direita”.

Este debate sobre a questão das ideologias está cada vez mais obscuro e cheio de preconceitos nas redes sociais. Não deveria, pois a internet transborda com boas e alentadas informações sobre as chamadas “ideologias”: esquerda, direita e centro.

Sobre o que diferencia a esquerda da direita, Verlaine recomenda a leitura do breve, mas esclarecedor artigo do jornalista Ricardo Cappelli (postado neste blog): “A esquerda morreu?” 

Quem desejar aprofundar um pouco mais sobre o assunto, deve fazer a leitura do livro Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política, de Norberto Bobbio. Artigo-resenha em:  https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/02/27/direita-e-esquerda-razoes-e-significados-de-uma-distincao-politica/

“A militância de esquerda está perplexa, no debate político, nas redes e nas ruas. Depara-se entre o inconformismo ou a revolta contra o chamado “pobre de direita”. Há “lacrações” pseudo-esquerdistas.” 

Uma pessoa pobre tem de ser necessariamente de esquerda? Qual é o pré-requisito para sê-lo? Por quê?

Segundo Verlaine, não é a condição social ou econômica o determinante da tomada de posição política ou da consciência político-ideológica e social. Há muita abstração nessa “exigência” da militância de esquerda contra os mais pobres.

O fator determinante é a formação da consciência social. “Ela não se dá imediatamente pelas experiências vividas. Essa formação requer estudo e reflexão. Requer mediações. Do contrário, as favelas e periferias estariam cheias de esquerdistas!”

Desse modo, diante da realidade brasileira, é mais fácil ou imediato uma pessoa pobre ser de direita. Mesmo sendo uma pessoa pobre, sem posses, ela pode defender interesses diametralmente opostos aos seus: crentes, moralistas, justiceiros

Não à toa houve a eleição de Bolsonaro, quando quase 58 milhões de brasileiros o escolheram presidente da República em 2018. Foi tanto a facada uma justificativa esperada para ele não comparecer aos debates – e demonstrar sua óbvia ignorância – quanto uma chamada para a solidariedade com “o coitadinho”, projetado pela mídia e rede de ódio. 

Isto fora o fato de o antipetismo, em longa campanha midiática, desde meados de 2013, ter conseguido impregnar nas mentes de 56% do eleitorado votar contra “os bandidos” (sic). A aversão ao ataque à propriedade privada supera a aversão à violência contra “ladrões” (sic)!

Por que é mais fácil, mesmo sendo uma pessoa pobre, ser de “direita”?

Verlaine apela a Marx: “as ideias dominantes em determinada época nunca passaram das ideias da classe dominante”. Isto explicaria, para quem concordar com essa tese marxista, porque, em geral, os pobres são majoritariamente de “direita”, ainda quando sequer essa maioria dominar ou compreender esse conceito: “direita”.

Como os detentores do poder econômico também deteriam os meios de difusão de massa, esses difundiriam, massiva e diuturnamente, suas ideias dominantes. Fazem isso, cotidianamente, por meio da chamada indústria cultural. Reproduz aos borbotões as ideias da classe dominante. Seria o argumento “fora a Globo!”, quando a Record e a SBT são muito piores!

Por isso, não seria antinatural alguém ser pobre e ignorante ao se posicionar à direita do espectro político. Seria preciso uma educação formal contra isso. 

Os meios de comunicação pregam esses valores individualistas e alienantes no dia a dia. Desse modo, massificariam as “ideias dominantes da classe dominante”. Então, por qual razão alguém pobre e sem educação de excelência não poderia/deveria ser ou votar na direita?

Para Verlaine, “não cabe à esquerda essa estupefação ou preconceito em relação a isso”. Esse espanto nada mais seria senão uma espécie de consciência ingênua da esquerda

Ela imagina ser possível aprender e/ou apreender algo sobre determinado objeto, no caso, o chamado “ser político”, sem mediações. Ora, é possível sem estudo (ou com má educação) sobre esse determinado posicionamento ideológico, optar de maneira consciente?

“Aquisição de consciência de classe e/ou social é resultado ou produto de estudo e reflexão. Não existe conhecimento sem mediação. Ou dito de outro modo: todo conhecimento é mediado”.

O pobre não se rebela por ser pobre. Pobre não tem necessariamente de votar na esquerda porque é pobre. Esse raciocínio é ingênuo. 

Os pobres só irão se rebelar e/ou votar conscientemente – ou até mesmo tomar o “céu de assalto” (sic) – se houver uma consciência e compreensão sobre a estrutura social perversa reinante sobre si. E ser possível a alterar para si.

“A esquerda está perdendo no campo da batalha das ideias, porque não está conseguindo se contrapor às ideias predominantes da classe dominante. Para mudar a realidade é preciso compreendê-la”.

O apoio de 38% de “idiotas” a Bolsonaro já pauta o debate político sobre a próxima eleição de 2022. Se entendessem o conceito científico de “idiota” – quem não tem consciência do mal feito a si e aos outros – e o histórico – quem abomina a “coisa pública” ao ter foco apenas sobre a coisa pessoal, quando não for “cosa mostra”, estariam mais estratégicos na luta social, econômica e política.

Por fim, lembra Verlaine: “é importante não esquecer: mais de 2/3 desses quase 58 milhões de votos obtidos pelo atual presidente da República outrora foram depositados em Lula (2003-2010) e, depois, em Dilma (2011-2016)”.

Com essa lembrança ele falseia a própria hipótese: se é idiota quem vota contra mim e é inteligente/educado/consciente quem vota em mim, essa atitude não deveria se alterar a cada quatro anos!

Em sistema complexo, com múltiplos componentes interativos, não é possível adotar um reducionismo binário: a ignorância ou a educação. O terceiro incluído (entre outros fatores) sugere a religião (evangélicos crentes) e o econômico (base da bancada ruralista do Sul e Centro-Oeste) talvez superarem o social (pobreza do Nordeste) na determinação das decisões políticas. Isto sem considerar o acaso ou o circunstancial…

Um grande desafio é ponderar cada fator determinante do futuro. Será possível pesar todas as variáveis?

1 thought on ““Pobre de Direita” (38% de Apoio ao Capitão-Miliciano) e a Esquerda Perplexa

  1. O FHC ganhou as eleiçoes por causa da inflação e o Bozo pela segurança.
    Enquanto não percebermos isso vamos continuar perdendo. Todo pobre e/ou trabalhador pobre e classe media coloca a segurança em primeiro lugar. Que adianta suade, educação se ele não consegue chegar lá pois é assaltado/morto antes ?

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