Egresso da FGV-RJ: Presidente do IPEA Em Defesa da Vocação Agrária à Eugênio Gudin (1886-1986)

Não se escutava falar neste Von Doellinger desde a ditadura militar brasileira. Ele já era… nome certo para governo errado!

Com a volta da casta dos militares, sua mediocridade emergiu como presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Puxa-saco contumaz deles, só assim o oportunista se pronuncia no debate parcial do jornalismo econômico brasileiro, onde economistas social-desenvolvimentistas não são entrevistados como contraponto às asneiras.

Um dos integrantes da área econômica com mais afinidade com o ministro Paulo Guedes, Von Doellinger é defensor do neoliberalismo e da adoção de medidas fortes para resolver o problema fiscal brasileiro. A principal delas, segundo ele, é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Pacto Federativo, em suas linhas originais, da qual participou da elaboração e prevê medidas como redução de salários e desindexação, desvinculação e desobrigação das despesas públicas, os “3 Ds” sempre citados por Guedes.

O idiota sem consciência do mal feito à sua reputação e aos outros defendeu: “Nosso caminho não é indústria manufatureira, a não ser aquela ligada ao beneficiamento de produtos naturais”.

Para o mentecapto, o Brasil não vive uma segunda onda devido à nova cepa do covid-19, mas sim um “repique” temporário. Para ele, já seria previsível diante da “maluquice” do fim do ano, quando muita gente abandonou as restrições de contato. “Estamos chegamos aqui ao pico da irresponsabilidade que foi a maluquice no fim de ano”, disse Von Doellinger.

Privilegiando acima de tudo o ajuste fiscal, ele disse considerar temerária uma renovação do auxílio emergencial neste ano como vem defendendo parlamentares devido à situação fiscal frágil do governo brasileiro.

Retomando o conceito de “vantagens comparativas”, o presidente do Ipea defendeu o Brasil centrar foco em setores econômicos onde é mais competitivo, como produção de alimentos, mineral e energia e deixe de fomentar a indústria manufatureira, como a automotiva, mirando nos exemplos de Austrália, Chile e Canadá. Apresento abaixo algumas das idiotices da entrevista concedida a Edna Simão e Fabio Graner (Valor, 19/01/2021) e seu contraponto por parte de industriais.

“A gente tem que se conscientizar que o Brasil precisa apostar em suas vantagens comparativas, suas vantagens competitivas. Não somos bons em produzir material de transporte, não somos bons. Cito sempre o exemplo da Austrália, que tem algumas semelhanças interessantes com o Brasil. Há mais ou menos 15 anos, a Austrália tomou uma decisão fundamental, eles tinham montadoras, várias indústrias voltadas para substituição de importação, como o Brasil, e resolveram assim: nós não somos bons nisso, vamos acabar com esse negócio. Fecharam tudo que é montadora, praticamente aniquilaram a indústria de transformação como a gente conhece aqui no Brasil e em vários países. E resolveram fazer aquilo em que tinham vantagens comparativas e competitivas. Tiraram o sistema de substituição de importações, deram uma guinada total e hoje são grande potência no agro, na mineração, nos serviços e tecnologia. Não produzem mais carro nenhum, não produzem equipamento pesado nenhum, exceto aqueles diretamente ligados às cadeias do agro e da mineração.

Nós temos nossas vantagens comparativas. Nosso agro é forte, é quem está sobrevivendo e sustentando minimamente nossa economia, até com pouca ajuda do governo. Está sobrevivendo, produzindo, importando, competindo, fazendo o seu trabalho e acrescentando um pouco de crescimento para minimizar nosso abismo produtivo. Nosso caminho não é indústria manufatureira, a não ser aquela ligada ao beneficiamento de produtos naturais, minérios.

Hoje temos vantagens comparativas naturais de recursos em áreas cultivadas. Nós temos abundância de áreas a ser cultivadas, temos agro muito forte, temos mineração, energia, podemos ser grandes exportadores. Podemos também investir e melhorar nossa produtividade, sem dúvida; reduzir o custo Brasil, sem dúvida; temos dever de casa muito grande. Mas acho que temos que investir em nossas vantagens comparativas.

O mínimo que temos positivo está no agro, no setor mineral e em energia. São nossas vantagens comparativas. Não quer dizer que teremos que fechar tudo que é indústria, como fez a Austrália, mas de qualquer maneira o caminho a seguir é naquilo que tem realmente condições de competir porque a competição vai ser cada vez mais acirrada.

Nós estamos vivendo uma época anormal pela pandemia, mas de alguma maneira as coisas vão voltar ao curso normal, e aí valem as regras tradicionais de competitividade, eficiência, produtividade, inovação tecnológica. Nós temos que procurar selecionar e aplicar onde a gente tem realmente mais possibilidades. Não pode ficar distribuindo munição, atirando para tudo quanto é lado.

É algo que tenho opinião por ter visto ainda em outros países. Acho que não vale a pena insistir em subsidiar atividades que não dão retorno. Essa é a grande lição da história que a gente precisa assimilar, acho que aos trancos e barrancos a gente acaba chegando lá.”

A fala do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Von Doellinger, na qual defendeu que o Brasil deixe de apoiar a indústria e coloque foco em suas vantagens comparativas, como agronegócio e a mineração, provocou mal-estar e forte reação no setor industrial. A visão é que o Brasil não pode ser comparado com países com população muito menor, como Austrália, e precisa, sim, desenvolver a indústria como fonte de geração de empregos e de aumento da renda.

“Essa posição demonstra que o presidente do Ipea, lamentavelmente, não tem a mínima noção da importância da indústria para a produtividade e o desenvolvimento dos demais setores da economia”, disse ao Valor, em nota, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, falando também pelas 70 associações do Fórum Nacional da Indústria.

“Não estou subestimando a importância dos setores agrícola e mineral. Mas o fato é que o Brasil se transformaria em uma roça, a fazenda do mundo, exportando apenas commodities e matérias-primas, assim como empregos de qualidade, para as economias mais desenvolvidas”, diz.

A CNI destaca que apenas a indústria manufatureira nacional é responsável por 25% da arrecadação federal. Responde por 50,6% das exportações e por 65% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. E cada R$ 1 produzido na indústria de transformação gera R$ 2,40 na economia nacional. Na agricultura é R$ 1,66, e, no comércio e serviços, R$ 1,49.

Para o diretor da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) André Cordeiro, o raciocínio de Doellinger repete a lógica da medida tomada pela rainha Maria I, há mais de dois séculos, quando proibiu fábricas e manufaturas no Brasil. “Isso não deu certo. A indústria que é capaz de gerar maior renda e bem-estar para a população. O Brasil não pode se dar ao luxo de concentrar atividades. Não pode prescindir de uma indústria grande e de base tecnológica”, diz Cordeiro.

Ele afirma ainda que o problema do Brasil é seu elevado custo para se produzir, em termos tributários e de outras obrigações. Nesse sentido, explica, não poderia nem ser considerado alto o volume de mais de R$ 300 bilhões em gastos tributários, um quinto do chamado “custo Brasil”. “Nossa indústria é competitiva e eficiente. Nossos grandes problemas são logística, custo de capital alto, falta de segurança jurídica e uma carga tributária elevada”, salientou.

O presidente-executivo da Associação das Indústrias de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, demonstrou muita contrariedade com as declarações. Para ele, o raciocínio de Doellinger é como se estivesse dizendo que a montadora Ford fez bem em sair do Brasil.

“É impressionante em um país com indústria ampla e diversificada ouvir algo assim. É uma desconexão com a realidade brutal. No fim das contas, a gente não é necessariamente competitivo porque temos o governo mais caro do mundo”, afirmou, referindo-se a questões como custo tributário, energético e logístico. “A gente não está pedindo proteção. A nossa carga tributária é muito mais alta que as de serviços e agro, é uma questão de reforma tributária.”

O vice-presidente da Fiesp e presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho, também atacou a fala de Doellinger. “É lamentável que ele tenha este conceito equivocado do papel da indústria”, disse, atacando a comparação com a Austrália. “Os países que tiveram uma participação expressiva da indústria no PIB chegaram muito mais rápido ao grau de desenvolvimento”, acrescentou. E disse que a indústria brasileira ajudou a desenvolver a agricultura.

Para o consultor Welber Barral, da BMJ Consultores Associados, em teoria, o Brasil tem de aproveitar suas vantagens comparativas, porém, com mais de 200 milhões de pessoas teria dificuldade para criar renda e emprego só com a produção agrícola, que remunera pouco o trabalhador e passa por processo de mecanização. E o setor de serviços não é desenvolvido o suficiente para absorver os trabalhadores. “Na prática, o risco de problemas sociais é muito alto,”

Lembrou que os EUA são grandes exportadores de commodities, com serviços desenvolvidos e não abriram mão da indústria. Ressaltou que o setor é penalizado pelo sistema tributário desde 1988, enquanto agricultura exportadora e mineração pagam pouco e serviços têm regimes especiais. “O Brasil tem muito a dar em competitividade para a indústria, principalmente com a reforma tributária.”

Para o professor da UnB José Oreiro, Doellinger fala como se a indústria fosse “algo que está acima da capacidade cognitiva dos brasileiros”. “Esse é um argumento ridículo e totalmente contrário à evidência empírica disponível. Entre 1930 e 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média de 8% ao ano puxado pelo crescimento do setor manufatureiro”, disse. “Vantagens competitivas não são um dado da ‘natureza’; mas são construídas ao longo do tempo”, completou.

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