República das Milícias: dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro

Bruno Paes Manso, jornalista formado em Sociologia na USP e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, fez uma extensa pesquisa investigativa do crime organizado no Estado do Rio. “Tá tudo dominado!” Das comunidades pobres à alta cúpula dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Pior, do nível local ao nível federal!

Sendo assim, escreveu um livro de leitura imprescindível para entender o Brasil contemporâneo: “A República das Milícias: dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro” (São Paulo: Todavia; 2020. 1ª. edição, 304 páginas). Exemplifico com algumas passagens abaixo.

Não basta ter força e armas para exercer o poder; é preciso também legitimidade para ser aceito pelos moradores. Os paramilitares e seus parceiros, além de garantir a ordem, acumulam recursos financeiros e dinamizam a economia local.

A lavagem de dinheiro e empréstimos a juros viabilizam novos empreendimentos na comunidade. Os grileiros e proprietários abastados de casas de aluguel da mesma maneira acumulam renda. Acaba direcionada a mais investimentos em Rio das Pedras. 

O modelo de negócios miliciano se mostrou mais sustentável e gerador de riquezas em lugar do tráfico de drogas em outras comunidades, por criar uma economia interna dinâmica. Mas essa economia, por sua vez, depende da ausência das operações policiais cotidianas vigentes nos morros do Rio.

Um ex-chefe do tráfico me ajudou a visualizar essa diferença. Meu interlocutor comparou as receitas financeiras dos dois empreendimentos criminais.

Na comunidade antes comandada por ele, moravam cerca de 18 mil famílias. “Vamos supor”, ele disse, “serem cobrados dez reais por família de taxa de segurança, como fazem as milícias. Seriam 180 mil reais por mês.” 

Estabelecimentos comerciais pagavam mais, “as lojinhas, os bares, os cabeleireiros. Lá na favela, por baixo, são duzentos [empreendimentos]. A cinquenta reais por mês, mais 10 mil reais. E ainda dá pra lucrar com a venda de gás, água, gatonet, energia elétrica, transporte, terreno onde há espaço para vender ou alugar terra. 

Tudo isso deixa o cara milionário em dois meses”, ele calculou. O dinheiro, muitas vezes, é multiplicado pela prática da agiotagem. Esse “banqueiro dos pobres” faz o capital girar, aquece o mercado e o empreendimento local.

No caso do tráfico, segundo o ex-traficante, a situação é mais difícil por diferentes circunstâncias. A começar pelo custo alto do negócio. 

“O traficante paga 8 mil reais o quilo do crack no atacado para ganhar 3 mil por quilo no varejo. No caso de um pó bom, ele custa de 14 mil a 15 mil reais, pra ganhar 6 mil de lucro no varejo. Pra ganhar 60 mil de lucro, tem de vender pelo menos dez quilos.” 

Na estrutura de duas centenas de funcionários comandada por ele, afirmou ter faturado cerca de 400 mil a 500 mil reais por mês, com um lucro bruto de 150 mil a 200 mil reais. Essa receita, contudo, era usada para controlar as externalidades do comércio. Estas geravam despesas enormes. 

“Munição, armamento, arrego para policial, despesas com soldados, tudo isso faz parte. Na favela em guerra, o negócio não vai pra frente porque os custos são muito altos. Sobra pouco dinheiro para investir. Fiz dinheiro para muita gente, inclusive para a polícia. Mas não posso reclamar, porque esses arregos me mantiveram vivo. Porém, ninguém sai rico do varejo de drogas.”

Além da questão financeira, a parceria dos paramilitares com os policiais é outra grande vantagem do negócio. “Se eu sou milícia, vou com um carro carregado de fuzis, sou parado numa blitz, e basta dizer que sou da polícia para ser liberado. Não há flagrante. Isso dá grande vantagem. Os milicianos também não são caçados, como ocorre com os traficantes, e eles não se envolvem em guerras. Eles são aceitos e fazem parte do Estado. Acaba sobrando dinheiro para ser investido e multiplicar o dinheiro do crime”, analisou. 

O traficante, mesmo o com muito dinheiro, não consegue sair da favela e gastar, ele disse. “Fui pela primeira vez na vida numa churrascaria no mês passado. Dirigindo um carro com a minha própria carteira de habilitação. Pela primeira vez tenho conta em banco, após cumprir o que devia na Justiça. Não podia ser pai, esposo, não levava os filhos na escola, não ia à praia. Posso fazer isso agora porque abandonei o crime, mas não tenho dinheiro. Tenho, pela primeira vez, liberdade para ser outras coisas além de traficante.”

Apesar dos percalços, esse antigo gerente do Comando Vermelho (CV) aponta dois motivos para o negócio da venda de drogas continuar em alta no varejo. Primeiro, os lucros elevados obtidos pelos vendedores atacadistas. Eles abastecem os mercados consumidores e fazem a roda girar.

Esses empreendedores costuram redes de contatos a partir das fronteiras brasileiras com países como Bolívia, Paraguai, Peru e Colômbia, ganhando grande volume de dinheiro em cada venda realizada. Essa situação permite mais tempo para prever formas de esquentar o dinheiro, criar lojas e empreendimentos de fachada, criar um disfarce de empresário formal para ganhar mais poder.

Na língua do crime no Rio de Janeiro, os atacadistas são chamados de matutos. “O cara tem empreendimento no Paraná, por exemplo, atravessa cem quilos de pó. Gasta 100 mil, 200 mil reais e ganha mais de 1 milhão. Tem menos risco, menos custo e dá mais dinheiro. Caso o cara consiga colocar nas favelas, sempre vai ter quem queira comprar”, disse o ex-chefe varejista do CV. 

Em segundo lugar, conforme sua avaliação, o varejo segue a todo vapor porque o garoto do morro, imaturo, ainda se ilude com as promessas simbólicas da arma, carro, dinheiro e status associado ao traficante

“Depois ele percebe que esse status é ilusório. Passa um tempo, a ficha cai pra todo mundo. Se o Estado oferecesse anistia para os traficantes com vontade de abandonar o tráfico, aposto: a absoluta maioria ia aceitar sem pensar. Na maturidade, com filho, esposa, o cara cansa de ter inimigos e quer acima de tudo deixar os problemas pra trás.”

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