Origem das Milícias: Extorsão em Nome da Ordem e Progresso

Bruno Paes Manso (A República das Milícias: dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro” (São Paulo: Todavia; 2020. 1ª. edição, 304 páginas) continua sua narrativa sobre a origem das milícias. Na mesma década dos 70, durante a ditadura militar sem Estado de Direito e com banalização de torturas e assassinatos, esses grupos de extermínio (“matadores de aluguel”) se associaram a empresários e comerciantes para a venda de segurança, e por vezes também a policiais. Ganharam o nome de “Polícia Mineira”. O sociólogo José Cláudio de Souza Alves vê nesses grupos a origem das milícias. Veja sua entrevista abaixo.

Em São Paulo, nesse período, os matadores eram conhecidos como justiceiros ou “pés de pato”. Eles atuaram na capital e na região metropolitana. Chegaram a formar quase mil pequenos grupos de extermínio ao longo da década.

Os matadores de Rio das Pedras agiam com o mesmo espírito. Assim como na Baixada Fluminense e nas periferias de São Paulo, lá também se viam, fixadas nas paredes de estabelecimentos comerciais, listas com o nome das pessoas marcadas para morrer. Quem não obedecia acabava assassinado. 

Mesmo depois, quando a imprensa passou a usar o termo “milícias”, a população local continuou chamando os chefes de Rio das Pedras de “mineiros” [o correto seria “mineradores” porque garimpavam extorsões]. De todo modo, foi nessa região onde se originou um tipo de organização inédita. Ela configuraria o modelo depois conhecido como milícia.

E não foi à toa ele ter vingado — policiais moradores na região criaram a milícia de Rio das Pedras e estabeleceram as regras da economia informal dessas áreas. Ampliaram a fonte de receitas ilegais, a compra de armamentos e estabeleceram conexões políticas. Essa nova forma de dominação territorial transformou a geografia do crime no Rio, disputando o controle de comunidades com facções do tráfico.

O formato prosperou ao longo dos anos 1990, depois de conflitos pelo comando da associação de moradores do bairro. Octacílio tinha sido preso algumas vezes, acusado dos crimes cometidos na região, mas continuava em liberdade e mandando na área. Foi assassinado em 1989, em Jacarepaguá, no bairro do Anil. 

Nos anos que se seguiram, seu grupo permaneceu no poder, liderado por Dinda, sua mulher. Em 1995, Dinda foi assassinada na sede da Associação de Moradores, quando cadastrava candidatos à aquisição de lotes no bairro. A morte de Dinda marcou o fim da dinastia original.

Policiais assumiram o controle da associação de bairro. Ela já arrecadava mensalidades para mediar a compra de lotes e terrenos. Eles criaram novos negócios e passaram a influenciar não somente instituições políticas, mas também corporações policiais. Profissional e organizado, o grupo assumiu o papel de governo terceirizado de Rio das Pedras, cobrando taxas dos moradores pela gestão e segurança.

Nessa época, final dos anos 1990, o pequeno núcleo surgido com cerca de quatrocentas pessoas à margem de Rio das Pedras já possuía quase 40 mil habitantes. Comércios variados e casas com lajes sobrepostas marcavam a fisionomia da comunidade, dividida entre: 

  • a parte rica, o entorno do núcleo antigo, com lotes mais bem organizados, e 
  • a parte pobre, locais sujeitos a cheias e loteamentos feitos de maneira caótica, com espaços pequenos e sem ventilação, caso dos núcleos Areal II e Pantanal.

A presença de policiais nos novos grupos milicianos se revelou decisiva. Eles ganharam o respaldo dos batalhões e das delegacias locais. Maurição, um dos líderes, por exemplo, era do 18º. Batalhão.

Os paramilitares colaboravam com a polícia no combate ao tráfico. Ao mesmo tempo abriam oportunidades para a criação de negócios semelhantes em bairros vizinhos. Além de organizar as vans, tinham revendedoras de gás. O negócio era lucrativo porque o grupo impedia a entrada de concorrentes e obrigava os moradores a comprar seu botijão a preços acima do valor de mercado. 

Na CPI das Milícias, em 2008, um representante do sindicato das empresas distribuidoras de gás estimou: uma das empresas de Rio das Pedras chegava a vender cerca de 3 mil botijões por dia. Representava um faturamento mensal de 600 mil reais. 

Cobrava-se também pela instalação de sinais clandestinos de TV a cabo (de cinquenta a sessenta reais), internet(de dez a 35 reais), segurança de comércio (de trinta a trezentos reais) e de moradores (de quinze a setenta reais). O sargento Dalmir e o major Dilo também se tornaram sócios, na Areal Crédito Fomento Mercantil. Emprestava a juros aos comerciantes, entre outros empreendimentos.

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