Criação de Guerra e Criação de Estado como Crime Organizado

Tradução de: Charles Tilly. War Making and State Making as Organized Crime. In Ernesto Castañeda & Cathy Lisa Schneider. Collective Violence, Contentious Politics, and Social Change: A Charles Tilly Reader.New York, Routledge, 2017.

Se os esquemas de proteção representam o crime organizado em sua forma mais suave, então, a construção da guerra e a construção do Estado – a quintessência dos esquemas de proteção com a vantagem da legitimidade – são nossos maiores exemplos de crime organizado.

Sem rotular todos os generais e estadistas de assassinos ou ladrões, Charles Tilly quer enfatizar o valor dessa analogia. Pelo menos para a experiência europeia dos últimos séculos, um retrato dos fazedores de guerra e fazedores do Estado como empresários coercivos e egoístas tem uma semelhança muito maior com os fatos em lugar de suas principais alternativas: 

  1. a ideia de um contrato social, 
  2. a ideia de um mercado aberto, no qual operadores de Exércitos e Estados oferecem serviços a consumidores dispostos a usá-los, 
  3. a ideia de uma sociedade, cujas normas e expectativas compartilhadas exigem um certo tipo de governo.

As reflexões de Charles Tilly meramente ilustram a analogia da construção da guerra e do Estado com o crime organizado a partir de algumas centenas de anos de experiência europeia e oferecem argumentos provisórios sobre os princípios de mudança e variação subjacentes à experiência. Suas reflexões surgem de preocupações contemporâneas: 

  1. as preocupações com a crescente destruição da guerra, 
  2. o papel crescente das grandes potências como fornecedores de armas e organização militar para países pobres e 
  3. a crescente importância do regime militar nesses mesmos países. 

Elas nascem da esperança de a experiência europeia, bem entendida, nos ajudar a compreender o que está acontecendo hoje, talvez até mesmo a fazer algo a respeito.

O Terceiro Mundo do século XX não se parecia muito com a Europa do século XVI ou XVII. De maneira nenhuma podemos ler o futuro dos países do Terceiro Mundo a partir do passado de países da Europa. 

No entanto, uma exploração cuidadosa da experiência europeia nos servirá bem. Isso nos mostrará: a exploração coercitiva desempenhou um papel importante na criação dos Estados europeus. Isso vai nos mostrar também a resistência popular à exploração coercitiva forçou os possíveis detentores do poder a conceder proteção e restrições à sua própria ação. Isso nos ajudará, portanto, a eliminar comparações implícitas incorretas entre o Terceiro Mundo de hoje e a Europa de ontem.

Este ensaio, então, diz respeito ao lugar dos meios organizados de violência no crescimento e na mudança daquelas formas peculiares de governo chamados de Estados Nacionais: organizações relativamente centralizadas e diferenciadas, cujos funcionários mais ou menos reivindicam o controle sobre os principais meios de violência, usados por uma população habitante em um grande território contíguo.

A guerra cria Estados, Charles Tilly adota essa hipótese. Banditismo, pirataria, rivalidade entre gangues, policiamento e criação de guerras pertencem ao mesmo continuum – outra hipótese também reivindicada por Tilly. 

Durante o período historicamente limitado quando os Estados Nacionais estavam se tornando as organizações dominantes nos países ocidentais, Charles Tilly também afirma: o capitalismo mercantil e a construção do Estado se reforçaram mutuamente.

Nos próximos posts, em série, farei a tradução completa do artigo de Charles Tilly.

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