Proteção: faca de dois gumes

Tradução de: Charles Tilly. War Making and State Making as Organized Crime. In Ernesto Castañeda & Cathy Lisa Schneider. Collective Violence, Contentious Politics, and Social Change: A Charles Tilly Reader.New York, Routledge, 2017.

Na linguagem americana contemporânea, a palavra “proteção” soa em dois tons contrastantes. Um é reconfortante, o outro é sinistro. 

Com um tom amigável, a “proteção” evoca imagens do abrigo contra o perigo, fornecido por um amigo poderoso, uma espécie de grande apólice de seguro ou um telhado robusto. 

Com um tom agressivo, evoca a algazarra quando uma milícia forte, no local, força os mercadores e os cidadãos a pagar tributo extra para evitar danos. Esses danos o próprio corpo armado por agentes do Estado ameaça provocar.

A diferença, com certeza, é uma questão de grau: um padre ao clamar sobre o inferno e a condenação eterna, provavelmente, coletará contribuições de seus paroquianos apenas na medida em que eles acreditarem em suas previsões de enxofre para infiéis. O mafioso de bairro popular pode realmente ser, como ele afirma ser, a melhor garantia para a operação de um bordel ou mesmo um ponto de venda de drogas livre de qualquer interferência policial.

A imagem da palavra “proteção”, trazida à mente, depende principalmente, de nossa avaliação da realidade e da externalidade da ameaça. 

Alguém ao produzir ao mesmo tempo o perigo e, a um preço cobrado, o escudo contra ele, é um bandido.

Alguém com promessa de fornecer um escudo necessário, mas com pouco controle sobre a aparição do perigo, se qualifica como um protetor legítimo, especialmente, se seu preço não for mais alto, isto é, acima dos custos impostos por seus concorrentes. 

Alguém fornecedor de blindagem confiável e de baixo custo, tanto contra gângsteres locais, quanto contra saqueadores vindos de fora da comunidade, faz a melhor oferta de todas.

Apologistas de determinados governos locais – e do governo federal em geral – comumente argumentam, precisamente, eles oferecerem proteção contra a violência local e externa. Eles afirmam: os preços cobrados sob forma de impostos mal cobrem os custos de proteção

Eles chamam as pessoas reclamantes do preço da proteção de “anarquistas”, “subversivos” ou ambos ao mesmo tempo. Mas considere a definição de um gângster como alguém criador de uma ameaça e cobrador por sua redução. 

A provisão de proteção do governo, por este padrão, frequentemente se qualifica como extorsão. Na medida em que as ameaças contra as quais um determinado o governo protege seus cidadãos são imaginários ou são consequências de suas próprias atividades, o governo organizou um esquema de proteção.

Extorsivo se refere à extorsão, ao uso da violência ou da ameaça para obter algo de alguém, especialmente dinheiro. É abusivo por seu preço ser mais alto em relação aos demais de potenciais ameaças. Tem valor exorbitante em relação as possibilidades dos consumidores.

Uma vez que os próprios agentes do Estado comumente simulam, estimulam ou mesmo fabricam ameaças de guerra de facções, e como as atividades repressivas e extrativistas dos paramilitares muitas vezes constituem as maiores ameaças atuais aos meios de subsistência de seus próprios cidadãos, muitos governos operam essencialmente da mesma forma como os demais extorsionários. É claro haver uma diferença: os gângsteres, pela definição convencional, operam sem a santidade dos governos.

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