Game Stop or Game Over? Posição Comprada combinada em Rede Social

O fenômeno da valorização da GameStop surpreendeu Wall Street após uma ação orquestrada de pequenos investidores. Ele traz grandes reflexões sobre os preços dos ativos no mercado financeiro, segundo Gabriel Galípolo, professor da PUC-SP e presidente do Banco Fator.

“É quase um ramo amador de uma análise de psicologia de massas. Às vezes, tem de estar menos atento ao que realmente são os números da empresa, e nesse caso foi clássico”, diz.

Alguns interpretaram o caso GameStop com uma visão romântica dos pequenos investidores contra os grandes. Pessoas se juntaram para provocar a valorização ou a defesa do preço de um ativo. Isso é verdade. Existe um sentimento de desintermediação em várias esferas das nossas vidas.

Antigamente, para ser um portador de uma notícia ou de uma opinião, você precisava ser uma pessoa especializada ou trabalhar em um grande canal de comunicação. As redes sociais permitiram dar voz a muitas pessoas. Isso tem lado bom e ruim. Está chegando no mercado financeiro.

Antes, esses processos de mobilização de recursos para um lado ou outro eram feitos por grandes gestores, por quem tem poder de controle sobre grandes volumes. As redes sociais, ao conferir esse poder, permitem manipular O Mercado sem ser uma grande instituição financeira.

Mas também é preciso pesquisar se foram só pequenos investidores estavam lá. Foi um movimento de massa, mas também havia investidores não tão pequenos. Eles entraram na onda “comprada” e se beneficiaram da valorização.

Que reflexão esse fenômeno traz sobre os preços? Por ter sido feito de uma forma pública, porque envolveu uma rede social, desperta na maioria das pessoas essa percepção de os preços dos ativos na economia serem formados muito mais por processos de convicção, crenças, convenções formadas.

Gera um certo desconforto, porque a Ciência Econômica gosta de se colocar na posição de Ciência Exata, supondo os preços serem resultado de metodologias complexas e números calculados, como resultante de uma conta. Mas O Mercado é diferente.

Na Matemática, se você fizer as contas, vai chegar no número, mas, para O Mercado existir, obrigatoriamente, precisa haver duas pessoas com visões distintas da mesma coisa. Para um mesmo conjunto de informações disponível, alguém precisar achar “o preço daquele ativo vai subir” e outro precisa achar “vai cair”. Só assim tem compra e venda.

O Mercado só existe porque há visões dissonantes, ou opostas, sobre o mesmo ativo. Não é o resultado de uma dedução lógica com uma única resposta. Só que isso chega ao ponto do movimento do ser humano em sociedade: se as pessoas acreditam que algo existe e se comportam como tal, aquilo existe, passa a ter uma influência e acontecer como se existisse.

É quase um ramo amador de uma análise de psicologia de massas. Às vezes, tem de estar menos atento ao que realmente são os números da empresa, e nesse caso foi clássico, e mais atento ao que as pessoas estão olhando e deduzindo sobre aquela empresa.

É curioso, porque às vezes você pode ter uma grande sacada, que ninguém viu, mas no mercado financeiro não é um grande negócio, porque se você estiver sozinho naquela visão, provavelmente, vai ficar em situação fragilizada.

A regulação falhou? Os fundos fizeram o chamado de shortear. É permitido. O que é discutível é o novo. A maior parte da regulação se dá muito mais para tentar evitar as grandes instituições fazerem esses movimentos de valorização para se beneficiar.

A regulação sobre o investidor pessoa física terá de avançar. Não há mais só o investidor institucional, isto é, uma instituição financeira, um gestor. Agora são vários investidores capazes de se unirem para fazer manipulação altista/baixista através da tecnologia.

A regulação no Brasil é mais rígida e mais avançada em comparação à dos EUA. Mas é uma situação sui generis. Se um grupo de Telegram com 12 mil pessoas se junta para formar preço, como você vai fazer? Abrir processo contra todos? Vai se ter de pensar como a regulação vai avançar sobre isso, mas é um tema que está acontecendo em vários ramos da vida.

O interessante de isso estar acontecendo no mercado financeiro é essa exposição de os preços, muitas vezes, serem formados de maneira absolutamente descolada dos chamados fundamentos econômicos. Eles são formados por convenções sociais, por convicções abraçadas.

Os fundos se submeteram a um nível de risco exagerado? É sempre uma aposta sobre o futuro. Os fundos fizeram a conta, olharam para a GameStop, viram era uma empresa com tendência firme de perda financeira — e a chance de ela subir era baixa. A aposta em sua baixa tinha uma chance alta de acertar ou de perder pouco. Mas, por um movimento das pessoas, a empresa teve uma valorização inacreditável.

Tem alguma analogia com o subprime, i.é, crise de 2008? Não. É diferente. Ali se estava concedendo crédito para as pessoas sem condição de pagar e depois se empacotavam esses créditos em produtos financeiros com demanda externa.

O que pode ter em comum é a lógica das convicções: se as pessoas têm controle sobre os recursos financeiros convencionarem “aquilo vai bem”, vai continuar encontrando demanda e subindo. Mas lá tinha um caráter institucional, com grandes bancos e agências de rating sancionando.

Pensando retrospectivamente, o movimento Ocupe Wall Street menosprezou um truque. Os protestos no sul de Manhattan aborreceram alguns dos altos dirigentes de bancos obrigados por ali passavam. As tendas agrupadas à porta da Bolsa de Londres atravancavam uma rápida ida à Starbucks. Mas os acontecimentos da última semana mostram: a maneira de perturbar realmente as elites financeiras é fazer isso a partir de dentro.

Para a rarefeita comunidade de gestores de fundos hedge e investidores profissionais, o problema, naturalmente, é o fato de o grande público ter entrado na bolsa. Em peso significativo e de maneira organizada!

A alta espetacular das ações da GameStop, uma claudicante fornecedora física de consoles e videogames, é o mais dramático, mas certamente não o único exemplo do poder desse grupo de turbinar ações, muitas vezes para níveis sem conexão com a realidade.

Em 2020, a democratização das finanças floresceu. Em tese, isso deveria ser o tipo da coisa a ser aplaudida pelo setor financeiro de atacado. Muitas sessões do Fórum Econômico Mundial de Davos quebraram a cabeça em torno de como ajudar os menos afortunados a usufruir das dádivas dos mercados financeiros.

Mas os recém-chegados evitaram boa parte do “establishment” financeiro, em especial os profissionais altamente qualificados, elegantemente vestidos. Eles ganham uma comissão por acondicionar produtos em fundos. Em vez disso, uma guerra de preços reduziu o custo das transações de varejo virtualmente a zero.

As pessoas estavam entediadas, em casa, sem nada para fazer, frequentemente sem trabalho, e com poucas coisas onde gastar seu dinheiro adicional. Apostar por conta própria na bolsa de valores era uma maneira sensata de passar o dia. É preciso não ter coração para desprezar o sucesso de muitos desses amadores, gozado no ano passado, em uma alta das ações capaz de desconcertar muitos veteranos de O Mercado.

Inevitavelmente, no entanto, haverá prejuízos dolorosos para alguns investidores ingênuos quando a bolha murchar. Trata-se de um jogo de alto risco: muitos dos que se derem mal serão os menos capazes de arcar com o custo disso. Mas isso não envolve apenas a saúde financeira deles. Isso se tornou uma força desestabilizadora nos mercados mundiais.

Três coisas nos trouxeram até aqui.

A primeira é o fascínio intenso aparente por determinadas ações isoladas. Um sinal inicial disso ocorreu com a locadora de automóveis Hertz – suas ações deram um salto de 800% em determinado momento de junho passado após a empresa ter pedido recuperação judicial.

A segunda é não terem sido apenas as transações com ações ter ficado à disposição das massas; as transações com opções também. Grandes números de apostas minúsculas na direção futura das ações inundam atualmente um mercado onde há muito tempo era seara exclusiva de profissionais, o que potencializa o impacto do mercado.

Terceira coisa, e a mais desestabilizadora de todas: esses apostadores são organizados, por meio de variados fóruns de discussão, o principal dos quais é o r/wallstreetbets da Reddit. Ele tem 3,1 milhões de usuários, ou, como gostam de se autodenominar, de “degenerados”.

A alta espetacular das ações da GameStop, uma claudicante fornecedora física de consoles e videogames, é o mais dramático, mas certamente não o único exemplo do poder desse grupo de turbinar ações, muitas vezes para níveis considerados por alguns profissionais como sem conexão com a realidade.

“O maior fundo do mundo agora é o wallstreetbets, em termos de sua capacidade de impulsionar os mercados”, disse um desnorteado administrador de fundo hedge. “Eles são superconfiantes e usam alavancagem. São os grandes bam-bam-bans do pedaço”.

Esse não é o tipo de democratização do setor financeiro que o fino grupo de Davos discutia tomando água com gás a temperatura ambiente. Os profissionais ainda não se refizeram do que é visto por alguns como comportamento predatório.

Eles destacam: se eles se coordenassem por meio de mensagens de bate-papo pela Bloomberg da mesma maneira feita pelos amadores, ao se organizarem para negociar determinadas ações, poderiam ser alvo de medidas dos órgãos reguladores. E vendedores a descoberto profissionais sabem agora serem tidos como os principais adversários.

“O mais recente resultado da ‘gamificação’ (ou transformação em jogo) das bolsas é a caça a quem vende a descoberto”, disse Carson Block, um dos maiores nomes entre eles. “Não tem mistério: reduza enormemente suas posições vendidas, caso contrário, corre o risco de deixar de operar”.

Block está certo de levar o exército montado às pressas da Reddit a sério. Ele está autenticamente caçando transações instantâneas de fundos hedge.

Foi postado um vídeo na Reddit três meses atrás com o argumento de a Melvin Capital ter sido “gananciosa demais” em sua aposta contra a GameStop — e ele delineava como revidar. Em outro vídeo, diálogo sobreposto a uma cena arrepiante de “Coringa” retrata um investidor amador declarando as estratégias agressivas de transações com ações é o que acontece “quando você vai contra toda uma geração criada durante uma recessão interminável com um aplicativo que permite que você aposte em uma tentativa de nunca ter de se preocupar mais com o dinheiro do aluguel”.

Sem dúvida, os órgãos reguladores vão examinar em breve, detalhadamente, toda a questão. Mas os “degenerados” continuarão a ser uma força. Apertem os cintos, porque isso não parece ser uma coisa passageira. 

O ineditismo do caso GameStop nos EUA serve como um sinal de alerta para os reguladores em todo o mundo, incluindo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia brasileira acompanha o caso para entender o fenômeno americano e seus desdobramentos, até mesmo para lidar com possíveis situações locais, como o movimento de investidores do IRB.

Especialistas e reguladores buscam entender se seria um caso de manipulação a articulação de investidores de varejo na rede social Reddit. Além de ser uma investigação a demandar tempo, trata-se de uma infração de mercado historicamente difícil de ser comprovada. No caso da GameStop, poderia ser possível entender: o ardil estaria no fato de a ação ter sido orquestrada, induzindo pessoas para afetar o valor do ativo.

Este caso poderá testar os limites das modalidades de abuso de mercado. Chama atenção o caráter emulativo do noticiado. Pelo visto na mídia, essas operações talvez estejam sendo feitas com o intuito principal de causar dano aos investidores vendidos no papel. Isso já não seria suficiente para caraterizar o abuso?

No Brasil, um grupo de investidores convocou uma compra coletiva de papéis do IRB, em uma tentativa de replicar o efeito GameStop. Como é praxe nestes casos, a CVM e a B3 discutem o assunto. Parte do mercado aguarda um posicionamento da bolsa e do regulador. Procurada sobre o caso IRB, a CVM disse: possíveis casos concretos serão avaliados individualmente.

Os mais de 30 mil investidores brasileiros reunidos no Telegram e, inspirados no varejo americano, pretendiam fazer a ação do IRB subir para atrapalhar a vida de grandes investidores. Eles devem pensar duas vezes se isso vale mesmo a pena, avaliam especialistas.

Corretora freia apostas de pequeno investidor na GameStop

As corretoras on-line estão impondo restrições às apostas dos pequenos investidores em algumas ações populares, mas altamente voláteis. É um esforço para proteger clientes e preservar sua própria estabilidade durante um aumento do volume de negócios.

Os novos limites às negociações de ações incluem a GameStop e a AMC. Sugerem muitas das maiores corretoras e aplicativos de negócios com ações para pequenos investidores começaram a ranger sob a pressão de uma batalha entre “day traders” e “short-sellers” (vendedores a descoberto) profissionais. Resultou em volumes recordes de negócios nos EUA. Na quarta, mais de 24 bilhões de ações mudaram de mãos e 57 milhões de opções de ações foram negociadas, também um recorde em um único dia, com investidores disputando papéis de empresas como Nokia, GameStop e Palantir.

Esse é um jogo extremo que fugiu de controle… A melhor defesa é simplesmente negociar tamanho”, disse Tom Sosnoff, presidente adjunto da bolsa de varejo Tastytrade, que concordou em ser comprada pelo IG Group do Reino Unido.

A Interactive Brokers tem mais de 1 milhão de clientes. Restringiu novos negócios dos investidores com as ações da GameStop e elevou as exigências de margem para a compra de opções sobre várias ações, incluindo as da AMC e BlackBerry.

“Estamos discutindo sobre como gerenciar nossos riscos como corretores. Precisamos estar cientes do risco de nossos clientes, especialmente aqueles que estão usando margem”, disse Steve Sosnick, extrategista-chefe da Interactive Brokers. “Estamos conversando sobre isso no momento.”

O aplicativo Robinhood, sinônimo da ascensão dos pequenos operadores, dobrou o volume de dinheiro que os clientes precisam desembolsar para ampliar seus negócios com a GameStop, AMC, Bed Bath & Beyond e Koss. Ele também proibiu os investidores de assumirem novas posições em um pequeno grupo de ações. Numa postagem de blog na quinta-feira, a companhia direcionou clientes para seus materiais educacionais sobre investimentos e compreensão da volatilidade do mercado.

O IG Group também elevou as exigências de margem para as ações da GameStop. A corretora eToro notificou os clientes, depois do fechamento do mercado na quarta- feira, de que não aceitará ordens de negócios com ações da companhia de jogos, entre outras ações que ela considera de “baixa liquidez”, enquanto a TD Ameritrade e sua nova controladora, a Charles Schwab, impuseram restrições a novas compras de ações da GameStop e da AMC, além de aumentar as exigências de margem para certos negócios. A decisão reflete uma “grande cautela”, segundo as companhias.

“Não é incomum restringir algumas transações com certas ações com o intuito de ajudar a amenizar os riscos para os nossos clientes”, disse a Schwab.

Alguns pequenos investidores reagiram com raiva. “O tempo inteiro a coisa foi feita para terminar assim. Eles podem mudar as regras a qualquer momento que quiserem. Eles nunca perdem”, disse um usuário do fórum de discussões RedditTrading.

As plataformas exortaram seus usuários a serem cautelosos. “Estando ou não em uma bolha, estamos pedindo aos nossos usuários que se atenham ao básico nos investimentos: diversifiquem, evitem a alavancagem e somente apliquem em mercados e instrumentos com quais eles estão familiarizados”, disse Gil Shapira, diretor de investimentos da eToro.

Mas o entusiasmo dos pequenos investidores não dá sinal de diminuir. No dia 27, a Robinhood registrou o seu maior número histórico de downloads de seu aplicativo na loja iOS nos EUA, com 120.000 novos downloads, segundo a empresa de monitoramento de dados AppTopia. “Simplesmente não sabemos quando isso vai acabar”, disse Rich Repetto, analista da Piper Sandler. Os volumes poderão cair, mas “também sentimos que as comissões zero chegaram para ficar e parece que uma geração inteira foi apresentada aos negócios com ações”, acrescentou ele.

Em evento até então impensável no mercado, mais de 2 milhões de pessoas físicas nos EUA, num grupo do site de discussão Reddit, fizeram posições “compradas” (apostando na alta) de ações da GameStop, uma rede de lojas que vende jogos para computador. A empresa foi afetada pela pandemia, e havia grandes investidores “vendidos” (apostando na queda) das ações. Esse movimento começou aparentemente espontaneamente e se assemelhou à uma declaração de guerra. Os pequenos investidores compraram as ações e deixaram os grandes em situação delicada – uma gestora, a Melvin, precisou de aporte de US$ 2,75 bilhões de recursos para cobrir as perdas. Ninguém imaginava que eles teriam essa força toda.

Algumas características do mercado americano viabilizaram essa situação. Lá existem várias bolsas e plataformas de negociação, e empresas separadas que fazem a liquidação dos negócios. No modelo brasileiro, a B3 é verticalizada, concentra negociação, liquidação e custódia. Assim, ela consegue enxergar todos os participantes de mercado e as posições das corretoras, de investidores individuais e daqueles reunidos em grupos.

E, diferentemente do mercado americano, a B3 impõe limitações para posições de investidores com pretensão de armar posições “vendidas” ou “compradas”. A bolsa limita a 20% dos papéis em circulação no mercado (“free float”) para operações de aluguel de ações, parte fundamental para montar uma posição “vendida”. Há ainda uma limitação de 5% por investidor.

No mercado americano, não há qualquer limitação para aluguel de ações. Segundo informações vindas de lá, a posição “vendida” em GameStop era de 125% do “free float”. Como era muito grande e alavancada, a movimentação de alta inicial provocada pelos milhares de investidores de varejo americano foi super-alimentada pelo desarme das posições de quem estava vendido — e teve de, às pressas, comprar ações no mercado.

Aqui, como a bolsa monitora diariamente se os investidores estão dentro dos limites estabelecidos de aluguel, e exige soluções para eventuais desenquadramentos, na prática, esse investidor eventualmente colocado em “corner”, sem condições de continuar apostando na queda das ações, não vai ficar nessa posição “ad infinitum”. Além disso, a exposição dele é muitas vezes menor.

Olhando para a outra ponta da operação, do lado de quem eventualmente quiser fazer o preço de uma ação subir, ele pode, em tese, fazer isso de duas formas. Uma delas é comprar ações no mercado à vista. Mas ele precisará ter não apenas ter dinheiro em mãos, mas comprometer grande quantidade de recursos. Há mensagens de investidores do IRB tentando combinar a compra desses papéis para segurá-los em carteira, orientando que fizer isso a não disponibilizá-los para aluguel.

Mas quem faz essa atuação, na maioria dos casos, atua no mercado de derivativos. A operação que costuma ser feita para “puxar” o preço de uma ação é a compra de uma “opção de compra” do papel – ele gasta apenas o prêmio e pode se alavancar.

Nesse caso, quem vendeu essa “opção de compra” ficou “vendido” na ação e essa pessoa tem de ir ao mercado à vista comprar ações para zerar o seu risco. É essa operação, chamada “gamma squeeze”. Os americanos a fizeram em GameStop. Mas, novamente, a B3 tem limitações, nos mesmos percentuais, para esse tipo de atuação nas opções.

De acordo com fontes, a bolsa costuma acompanhar eventuais excessos nessas estratégias muito de perto. “Se alguém sai da linha, ou aparentemente está com muito fôlego para montar posição, é comum a bolsa ligar para a corretora para entender o que está acontecendo”, diz uma fonte. Procurada, a B3 não deu entrevista.

Aqui, na avaliação do mercado é muito mais difícil colocar um investidor “vendido” em IRB nesse “córner”. Conforme a B3, o total de posições alugadas em ações do IRB é próximo a 9% do “free float”, o que equivaleria a cerca de R$ 850 milhões, considerando que ela está pulverizada no mercado.

“Não garanto que situação semelhante nunca vai acontecer aqui, porque o pessoal é muito criativo. Mas é fato que esses limites da bolsa mitigam esse tipo de risco”, afirma um gestor. “Pode até ser que dependendo da exposição e do tamanho de algum investidor, ele sinta alguma pressão. Mas nada comparável a GameStop”, diz.

“Quando há 125% de posição ‘vendida’ em relação ao ‘free float’ é muito mais fácil fazer o que os americanos fizeram do que se for apenas 20%. Sem os grandes pressionados a ponto de precisar comprar o papel a qualquer preço, o pessoal do varejo poderá ficar numa situação de não ter saída do papel e, sem fôlego, vão precisar vender antes que a turma do ‘short’ precise comprar”, avaliou um especialista. O risco para o pequeno investidor pode ser grande.

Um gestor comenta que a estratégia das redes sociais já está conhecida. “Quem você acha que vai encontrar um jeito melhor para ganhar dinheiro? Os profissionais, que já sabem dos planos, ou a turma das redes?”, questionou.

O IRB foi escolhido porque no início do ano passado, a gestora de recursos Squadra se declarou “vendida” – e se mantém assim até hoje – nos papéis, questionando vários pontos dos resultados da empresa. Isso detonou uma série de eventos que levaram à troca de toda a gestão do ressegurador, à republicação de balanços e uma queda nas ações em 2020 de 79%.

A empresa ainda está se acertando – há analistas que apontam a casa de R$ 4 como preço-alvo das ações – nos grupos de investidores, no Telegram, falou-se em levar o papel a R$ 40. Ontem, a ação do IRB subiu 17,8% para R$ 7,67; e girou R$ 1,4 bilhão, mais de três vezes a média diária em 12 meses.

Lá fora, a movimentação em GameStop veio junto com um desabafo dos pequenos investidores contra as grandes gestoras, que passariam a imagem de que o mercado de ações é difícil e para profissionais apenas. E esse investidor das plataformas, que está em casa na pandemia entende que tem capacidade de operar sozinho, sem pagar taxas de administração.

No meio das discussões nos fóruns de internet um deles cita exatamente que passou a ter mais tempo para analisar seus investimento por conta da pandemia.

Reportagens na imprensa americana já citaram alguma migração para o mercado de ações daqueles que estavam acostumados a apostar nos cassinos ou nas corridas. “Parece que foi isso. Viram alguém apostando na baixa e fizeram a aposta contrária”, comenta um gestor, destacando que por fundamentos, seria difícil justificar como em poucos dias uma ação sobe 700%.

“Um movimento desses gera uma bolha, artificial. E uma dada hora o mercado volta e ela vai estourar. Aí eu duvido que quem perderá dinheiro serão os idealizadores do movimento”, diz Otavio Yazbek, ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Esses investidores, se caracterizado, pelas conversas nos grupos que se uniram para intencionalmente inflar os preços da ação, podem ser acusados pela autarquia de manipular e criar condições artificiais de negociação, o que é crime. “Não temos déficit de regras pra lidar com o assunto. Do jeito que foi feito, com várias pessoas se articulando em torno de um objetivo comum, pode ser manipulação ou condições artificiais, conforme a Instrução 8 da CVM. O problema maior é o enforcement disso. Como fazer um processo com tanta gente?

No mercado americano também não se sabe como essa bolha vai desinflar e como ela afetará os investidores. E há um debate sobre como regulador vai enxergar o que aconteceu, embora também sobressaiam as teses de manipulação. Mas também um questionamento sobre onde está a diferença entre manipulação e decisão de operar com base em palpites, que foram divulgados na rede. “Para mim, entra no exercício do direito à liberdade de expressão e direito de fazer o que quiser com o que é de cada um. Porque eles estão realmente comprando”, observa um especialista em mercado de capitais. Ele destaca que a Instrução 8 da CVM fala em manobra “fraudulenta”, não apenas “manobra”. “Se eles compraram, as operações não tiveram nada de simuladas, supondo que não tenha havido conluio com as pontas vendedoras”, diz.

As redes sociais vêm permitindo massiva mobilização de pessoas, mas esse ativismo social não pode ser confundido e exercido de forma a causar alterações artificiais nos mercados de valores mobiliários.

Os mercados são formados a partir do impacto de diversas expectativas e eventos que carreguem conotação econômica e as suas regulações foram construídas para preservar a livre movimentação conforme essas forças propulsoras. Movimentos organizados para alterar artificialmente o valor de ativos não são permitidos pela legislação e podem configurar crime. Não é uma boa opção do investidor aderir a essa “onda”.

 

1 thought on “Game Stop or Game Over? Posição Comprada combinada em Rede Social

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Os ativos financeiros são riqueza abstrata, que encontram valor na crença das pessoas sobre a sua materialidade – bens de produção, conforto ou consumo equivalentes ao dinheiro. Encontrando quem queira, involuntariamente, perder dinheiro, os donos do mercado vão concentrando a riqueza disponível e os meios para amplia-la.
    A matéria trata da pretensa popularização da manipulação de “informações” por influencers das redes sociais, com peso ou não para amealhar fortunas pela indução de incautos.
    Faz lembrar do Sergio Mota, aquele ministro do FHC que, na pasta da energia, anunciava marchas e contramarchas das iniciativas da pasta e sempre se posicionava ao contrário do que dizia na TV e nos jornais.

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