Como os Estados se formaram

Tradução de: Charles Tilly. War Making and State Making as Organized Crime. In Ernesto Castañeda & Cathy Lisa Schneider. Collective Violence, Contentious Politics, and Social Change: A Charles Tilly Reader.New York, Routledge, 2017.

Essa análise, se correta, tem duas implicações fortes para o desenvolvimento dos Estados nacionais. Em primeiro lugar, a resistência popular à provocação da guerra e à construção do Estado fez a diferença. 

Quando as pessoas comuns resistiram vigorosamente, as autoridades fizeram concessões: garantias de direitos, instituições representativas, tribunais de apelação. Essas concessões, por sua vez, restringiram os caminhos posteriores da provocação da guerra de expansão e da construção do Estado. 

Certamente, as alianças com frações da classe dominante aumentaram muito os efeitos da ação popular. A ampla mobilização da pequena nobreza contra Carlos I ajudou a dar à Revolução Inglesa de 1640 um impacto muito maior, nas instituições políticas, em comparação a qualquer uma das múltiplas rebeliões durante a era Tudor.

Em segundo lugar, o equilíbrio relativo entre fazer guerra, proteção, extração e construção do Estado afetou significativamente a organização dos Estados emergentes das quatro atividades. Na medida em que a guerra continuou com relativamente pouca extração, proteção e construção do Estado, por exemplo, as forças militares acabaram desempenhando um papel maior e mais autônomo na política nacional. 

A Espanha é talvez o melhor exemplo europeu. Na medida em que a proteção, como em Veneza ou na Holanda, prevalecia sobre a criação de guerras, extrativismo e criação de Estado, as oligarquias das classes protegidas tendiam a dominar a política nacional subsequente. 

Da relativa predominância da construção do Estado surgiu a elaboração desproporcional do policiamento e da vigilância. Os Estados papais ilustram esse extremo. 

Antes do século XX, qualquer Estado incapaz de fazer um esforço considerável para fazer a guerra, provavelmente, desapareceria. 

À medida que o século XX avançava, no entanto, tornou-se cada vez mais comum um Estado emprestasse, concedesse ou vendesse meios para fazer guerra a outro. Nesses casos, o Estado destinatário poderia fazer um esforço desproporcional na extração, proteção e/ou criação do Estado e ainda assim sobreviver.

Este modelo simplificado, no entanto, negligencia as relações externas a moldarem cada Estado nacional. No início do processo, a distinção entre “Interno” e “externo” permaneceram tão obscuros quanto a distinção entre o poder do Estado e o poder dos senhores aliados do estado. 

Mais tarde, três influências interligadas conectaram qualquer estado nacional à rede europeia de Estados. 

Primeiro, havia os fluxos de recursos na forma de empréstimos e suprimentos, especialmente empréstimos e suprimentos dedicados à guerra. 

Em segundo lugar, havia a competição entre Estados pela hegemonia em territórios disputados, o que estimulava a feitura da guerra e apagava temporariamente as distinções entre feitura da guerra, construção do Estado e extração. 

Terceiro, houve a criação intermitente de coalizões de estados que combinaram temporariamente seus esforços para forçar um determinado Estado a uma certa forma e posição dentro da rede internacional. 

A coalizão para a guerra é um exemplo, mas a coalizão para a paz desempenhou um papel ainda mais crucial. A partir de 1648, senão antes, no fim das guerras, todos os Estados europeus eficazes se uniram temporariamente para negociar as fronteiras e governantes da beligerantes.

A partir daí, períodos de grande reorganização do sistema de estados europeu vieram em surtos, com o estabelecimento de guerras generalizadas. De cada grande guerra, em geral, emergiram menos Estados nacionais do que nela entraram.

1 thought on “Como os Estados se formaram

  1. Charles Tilly, em Coerção, Capital e Estados nacionais ou europeu??? – agora não lembro o título e está lá em cima da estante – trabalha a unificação dos territórios europeus em nome do poder e da defesa. Em aulas do Prof. J. L. Fiori, fui apresentada a ele e ao Braudel, e entendi a importância da disputa econômica e da disputa política, nisto que posteriormente chamaríamos de Europa. A Revolução Gloriosa e a Paz de Westfália fundam o sistema estatal europeu e consagram a guerra quase permanente como fator expansivo do capital e do poder político. Vale a pena ler. Beijo grande.

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