Efeito Lambrusco: Itália hoje = Brasil amanhã

O chamado Efeito Orloff — “Eu sou você amanhã” — alertava o consumidor sobre a importância de escolher certo a sua bebida e evitar a ressaca do dia seguinte. O slogan pegou e foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito: “efeito Orloff”. Ele se tornou corrente para fazer prognósticos e traçar analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a flutuação do dólar, planos econômicos tipo tentativas-e-erros.

É necessário atualizar o prognóstico para Efeito Lambrusco! O “centrão” (e o “emedebismo”) já transformou o Congresso Nacional em um regime semiparlamentarista desde o golpe contra o presidencialismo em abril de 2016. A Operação Lava-Jato terminou tal como a Operação Mãos-Limpas, inspiradora da feita aqui para aprisionar o candidato mais popular antes da eleição de 2018. Propiciou a eleição do populismo de direita, lá como cá!

Para ver nossa decadência, econômica, política e ética, basta ver a da Itália! Estamos em retrocesso como ela…

Mario Draghi, membro da casta dos sábios-tecnocratas, aceitou o pedido do presidente da Itália para tentar formar um governo de união nacional, em um momento que o país enfrenta a pandemia de covid-19 e sua pior crise econômica do pós-guerra. Apesar de ser respeitadíssimo pelos italianos, não está claro se o ex-presidente do Banco Central Europeu terá apoio político suficiente para obter maioria no Parlamento.

Por enquanto, Draghi recebeu o apoio do grupos de centro-esquerda: do Partido Democrático e do Itália Viva – este um pequeno partido liderado pelo ex-premiê Matteo Renzi. “Haverá um maioria para Draghi e será suprapartidária”, disse Daniela Sbrollini, parlamentar do Itália Viva.

Já os dois maiores partidos do país, a direitista Liga e o Movimento 5 Estrelas (M5S, populista de direita anti-establishment), não demonstraram muito entusiasmo com a indicação do ex- presidente do BCE. Eles estão mais preocupados em reforçar suas chances para a eleição parlamentar prevista para 2023. Mas, para obter a maioria parlamentar, Draghi precisará obter o apoio de ao menos um desses dois partidos.

Como presidente do Banco Central Europeu (BCE) de 2011 a 2019, Mario Draghi teve um papel decisivo em salvar a união monetária da Europa de uma crise da dívida soberana quase fatal e de uma emergência bancária. Ele mostrou habilidades políticas excepcionais ao persuadir alguns líderes da zona do euro, especialmente na Alemanha, de que medidas heterodoxas do BCE eram essenciais para o resgate. Draghi deixou o cargo com uma reputação mundial reluzente. Mas, se seus talentos serão suficientes para tirar a Itália de seus problemas atuais, é outra história.

O fato de presidente Sergio Mattarella ter se sentido compelido a pedir que Draghi assuma o cargo de primeiro-ministro é em si uma denúncia contra a classe política italiana. O governo de coalizão de Giuseppe Conte entrou em colapso em janeiro por causa de intrigas políticas em Roma, ligadas apenas tangencialmente ao desafio de controlar a pandemia de covid-19 e reviver a economia com a ajuda do fundo de recuperação de € 750 bilhões da União Europeia (UE).

Em uma crise grave, o sofrido povo italiano merecia coisa melhor de seus políticos, que se recusaram a assumir a responsabilidade por um problema que eles mesmos criaram. Em vez de se concentrar no interesse nacional, muitos políticos manobram para conseguir vantagens pessoais e partidárias com vistas às eleições parlamentares previstas para 2023.

Agora que aceitou a tarefa de arrumar a desordem deixada por partidos briguentos e egoístas, Draghi começará com alguns fatores a seu favor. Sua autoridade e experiência servirão como garantia aos mercados financeiros, à comunidade empresarial italiana e a grande parte da população de que uma mão firme está no comando.

Ele buscará redesenhar o plano de recuperação econômica da Itália de forma a obter a aprovação da Comissão Europeia, responsável por supervisionar como os governos da UE gastarão sua parte do fundo. Isso não é pouca coisa, já que a Itália deve receber cerca de € 200 bilhões, ou 10% de seu Produto Interno Bruto (PIB), em doações e empréstimos ao longo de cinco anos – o maior valor em termos absolutos entre os países da UE.

Mas o perigo para Draghi é que o cargo de premiê se revele tóxico. Pela Constituição da Itália, os premiês têm menos poder do que presidentes franceses, premiês alemães ou do Reino Unido, e são especialmente fracos se não tiverem um apoio sólido no Parlamento. Numa era de populismo e sem base partidária própria, Draghi um tecnocrata não eleito, estará vulnerável a críticas de que suas políticas não expressam a vontade popular.

Com eleições no horizonte, ele corre o risco de se tornar refém de partidos políticos antes de que seu governo tenha a chance de incorporar as reformas econômicas e administrativas de que a Itália tanto precisa há décadas. Foi o que ocorreu com Mario Monti, o ex-comissário da UE que se tornou premiê no auge da crise da zona do euro, em 2011. Ele tomou medidas urgentes, que estabilizaram a situação, mas depois tornou-se vítima de disputas partidárias.

A expectativa é que um governo comandado por Draghi introduza reformas destinadas a elevar a produtividade, melhorar os serviços públicos, simplificar o sistema judiciário e combater a corrupção. Mas o sucesso de tais medidas exige mais do que a liderança de um tecnocrata talentoso, em especial se ele for ficar apenas dois anos no cargo. Elas exigem coragem e compromisso de longo prazo dos políticos italianos de todo o espectro.

O que outros governos da UE temem é justamente a classe política da Itália não ter tais qualidades. E, se o novo governo fracassar em fazer o melhor uso possível do dinheiro da UE que ficará à sua disposição, as consequências para a Europa, assim como para a própria Itália, serão profundas.

Efeito Lambrusco: caso o presidente de cá fosse um pouco inteligente como o de lá, mas não é, ele rifaria o Guedes e colocaria o Roberto Campos Neto em seu lugar

1 thought on “Efeito Lambrusco: Itália hoje = Brasil amanhã

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    O Brasil, como a Itália, vive severa crise sanitária e econômica. Se o efeito Lambrusco se fez sentir na Lavajato como sucessora da Mãos Limpas italiana, o mesmo não se pode dizer do enfrentamento estatal da presente situação, deixando cá ressacas que lá se quer evitar.
    Na Bota, “a expectativa é que um governo comandado por Draghi introduza reformas destinadas a elevar a produtividade, melhorar os serviços públicos, simplificar o sistema judiciário e combater a corrupção”. Já no Brasil, o pacote legislativo governamental aponta para a redução do Estado, dos direitos sociais, do mercado interno e consequente crescimento da dependência externa.
    O professor conclui que “caso o presidente de cá fosse um pouco inteligente como o de lá, mas não é, ele rifaria o Guedes …”

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