Fundação dos EUA: 1619 X 1776

Edward Luce (Financial Times 29/01/2021) avalia: poucas horas após se tornar presidente dos EUA, Joe Biden desfez a Comissão 1776, criada por Donald Trump. Raras vezes um decreto de anulação foi tão justificado.

Trump lançou a entidade – cujo nome remetia ao ano da independência americana – pouco antes da eleição, numa tentativa de, em meio à pandemia que ele não conseguiu conter, desviar a atenção dos eleitores para as guerras culturais dos EUA. O objetivo declarado de Trump era promover o ensino do “milagre da história americana”. O objetivo real era alimentar o furor contra o foco da esquerda no legado da propriedade de escravos.

Ele acreditava que, se a eleição fosse mais centrada nos protestos do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) do que na pandemia, ele poderia ter alguma chance de vencer. A manobra fracassou.

Os EUA agora têm um presidente cuja prioridade é vencer a pandemia. Mas a injustiça racial está no cerne de como Biden vê a covid-19. Isso pode tentá-lo a complementar a abolição da Comissão 1776, chamada por ele de “ofensiva, contrária aos fatos”, com o endosso ao que é visto como seu oposto, o Projeto 1619. Trata-se de uma série de artigos que rendeu ao “The New York Times” um prêmio Pulitzer e argumenta que os historiadores deveriam datar a fundação dos EUA a partir do ano da chegada dos primeiros escravos.

São narrativas inconciliáveis. Uma vê os EUA como essencialmente bons; a outra, em boa parte, como maus. A escolha consiste entre ver a história como coberta de glória ou de sangue. Não se trata de questão acadêmica. Quando os países rediscutem o passado, debatem quem é o dono do amanhã. Como a Índia e outros países podem atestar, guerras sobre a história muitas vezes tornam-se letais.

Não resta muita dúvida de que o relato da história dos EUA pela Comissão 1776 visa encobrir erros do passado. Em relatório publicado no Dia de Martin Luther King, dois dias antes de Trump sair do cargo, a comissão descreveu os fundadores da nação como indivíduos impecáveis, que redigiram uma Constituição irrepreensível. O relatório de 41 páginas, escrito quase só por pessoas que não são historiadores, não continha notas de rodapé. Atribuia a origem filosófica da “política identitária” de esquerda a John Calhoun, senador dono de escravos de meados do século 19. Sua lista de ameaças à democracia liga o movimento progressista dos EUA do início do século 20 ao fascismo italiano. Do ponto de vista acadêmico, parece piada.

Já o Projeto 1619 é um esforço para reavaliar a história dos EUA, que desencadeou debates entre historiadores. Mas sua explicação da guerra de independência continha erros factuais e apresentava o argumento altamente controverso de que a guerra foi causada pelos planos britânicos de abolir a escravidão. Ainda assim, o argumento básico do projeto, de que a escravidão está entrelaçada com a história dos EUA e que seu legado continua até hoje, é difícil de negar.

Os conservadores veem a narrativa de 1619 como uma ameaça à crença no excepcionalismo dos EUA. A trajetória demográfica do país é imparável – em um quarto de século, as várias minorias serão maioria nos EUA. Não há nada que os republicanos possam fazer. Mas eles podem recorrer ao profundo patriotismo do eleitorado se os democratas derem passos em falso.

Daqui a cinco anos, os EUA comemorarão os 250 anos da declaração de independência. É provável que a comemoração de 1776 se torne algo tão efervescente quanto celebrar Cristóvão Colombo. Muitos hoje se referem ao dia que leva o nome do explorador como o Dia dos Povos Indígenas, devido aos efeitos catastróficos da chegada dos europeus nas Américas.

Até 2026, será que a esquerda americana vai renomear o Dia da Independência como Dia da Escravidão? Só falar disso já expõe o potencial incendiário desse debate. Por isso Biden deve evitá-lo. E por outros dois motivos. O primeiro é que ele está ocupado em governar. Em seus primeiros cem dias, ele quer avanços em quatro emergências que se sobrepõem: a pandemia, a crise econômica, o aquecimento climático e a injustiça racial. Trump confundiu governar com fazer “política de gestos” – atitudes chamativas, mas de pouco efeito prático. O melhor que Biden pode fazer para as minorias, especialmente os afro-americanos, é avançar na segurança econômica e na reforma da justiça penal.

O segundo motivo é que Biden não é historiador. Alguns sugerem que ele deveria criar uma comissão presidencial sobre a história dos EUA. O melhor é deixar esse debate para os outros. Se há algo em que o pessoal do 1776 e do 1619 concordam é que o governo não está bem equipado para estudar história. E menos ainda para ensiná-la.

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