Origem do QE (Quantitative Easing ou “Afrouxamento Monetário”) pré MMT

Segundo a BBC News (Published 22 October 2013), quando o Reino Unido embarcou na flexibilização quantitativa (QE) em março de 2009, após o colapso do Lehman Brothers, esperava-se o Banco da Inglaterra administrar um estímulo monetário igual a £ 50 bilhões, escreve Liam Halligan.

Nos quatro anos seguintes, essas “medidas extraordinárias” se estenderam um pouco mais, com o programa de compra de títulos do Banco Mundial chegando agora a £ 375 bilhões – quase oito vezes a estimativa original.

Desde o início da crise financeira até 2013, o balanço do Banco da Inglaterra quadruplicou. Mas de onde veio a frase “flexibilização quantitativa”?

Indiscutivelmente entre as políticas econômicas mais polêmicas dos últimos anos, a QE é certamente a mais impronunciável. Poucos analistas ocidentais sabem: esse nome desafiador se originou no Japão, o lar espiritual moderno da impressão de dinheiro.

Menos ainda sabem: o homem responsável por cunhar a frase vem da Alemanha. Ela, de todas as grandes economias ocidentais, tem provavelmente a aversão mais arraigada a imprimir dinheiro.

Em meados da década de 1990, o professor Richard Werner, um acadêmico alemão fluente em japonês, trabalhava como economista em Tóquio. A bolha imobiliária do Japão estourou e os preços das propriedades e das ações despencaram. O país estava travado em um debate sobre o uso de política monetária não convencional para apoiar os preços dos ativos e impulsionar a atividade comercial mais ampla.

O professor Werner enviou um artigo ao Nikkei, um importante jornal de negócios, defendendo um novo tipo de medida monetária radical.

Em vez de tentar mudar as taxas de juros, ele argumentou: o Banco Central do país, o Banco do Japão, deveria intervir diretamente para influenciar o tamanho da oferta de moeda, tomando medidas para encorajar os bancos comerciais a conceder mais crédito.

“Eu estava promovendo uma política que envolvia mais criação de crédito, em vez de alterar o preço do dinheiro”, disse o professor Werner.

“Então, quando escrevi meu artigo, os editores do jornal insistiram em uma frase de modo os leitores entenderem, portanto, adicionei o adjetivo japonês para quantidade à expressão padrão para estimulação monetária. ‘Flexibilização quantitativa‘ foi a tradução literal de volta para o inglês dessas duas palavras japonesas. “

O artigo do prof. Werner foi amplamente notado. Vários anos depois, de fato, o Banco do Japão decidiu implementar medidas monetárias extremas e adotou o nome japonês cunhada pelo economista alemão.

“Em 2001, o Banco Central japonês disse: ‘Agora estamos realmente fazendo isso'”, lembra ele.

“Para comunicar isso aos mercados globais, eles tiveram de dar um nome à política em inglês. Suponho que os tradutores tiveram um dia ruim ou estavam sob pressão de tempo. Normalmente, você tentaria criar algo um pouco mais fluente do que ‘ flexibilização quantitativa ‘, mas eles fizeram apenas uma tradução literal.”

Embora o Banco do Japão tenha adotado o nome preciso da política do professor Werner, ele foi um pouco menos preciso ao interpretar sua proposta real.

Incrivelmente, a versão japonesa do QE implementada foi uma política descartada pelo o professor Werner especificamente.

O argumento do professor Werner era: como mais de 95% da oferta monetária em uma economia moderna não é derivada de dinheiro ou reservas, mas de empréstimos de bancos privados, é essencial fazer os bancos emprestarem, quando não há demanda por crédito, devido às expectativas pessimistas de vendas e excesso de capacidade produtiva ociosa.

Por isso, ele instou o governo japonês a firmar acordos privados de longo prazo para tomar empréstimos de bancos comerciais, em vez de emitir dívida do governo.

A versão de QE do Banco do Japão, em contraste, envolvia a criação de dinheiro do nada no Banco Central. Paradoxalmente, a versão japonesa do QE implementada foi a política descartada pelo professor Werner!

“Não é exatamente disso a proposição da minha política”, diz o professor Werner. “Em meu artigo original, argumentei especificamente contra a redução das taxas de juros ou a expansão das reservas do Banco Central. Esse era todo o meu ponto – as soluções tradicionais não funcionariam. Na verdade, foi um pouco perturbador.”

Então, em uma reviravolta adicional, o Banco da Inglaterra também mais tarde adotou o rótulo QE do prof. Werner – mas, novamente, para descrever uma política com a qual ele não concordou.

“Uma coisa foi quando o Banco do Japão fez isso, porque isso acabou no Japão e foi há algum tempo”, diz ele. “Mas assim que o Banco da Inglaterra também começou a usar a frase, pensei ‘Espera aí, tenho de me manifestar e deixar claro a definição original ser bem diferente!‘”

A interpretação do Banco da Inglaterra do QE também envolve a criação de créditos do Banco Central, como no Japão. Mas no Reino Unido, eles têm sido usados ​​para comprar títulos do governo de bancos comerciais, em vez de diretamente do governo. [No Brasil, o BCB recebe do TN e mantém “títulos livres” em sua carteira para fazer operações de mercado aberto (ou operações compromissadas) para a contração ou a injeção monetária.]

O professor Werner diz isso ser “um pouco melhor” em lugar do QE japonês, porque “pelo menos em teoria aumenta as reservas dos bancos comerciais“. Ele afirma, porém: “a melhor forma de impulsionar a economia é aumentando o crédito bancário”. Isso só pode ser garantido pelos governos ao tomarem empréstimos diretamente dos bancos.

“Isso cria um novo crédito”, diz o professor Werner. “A oferta monetária então se expande, as transações aumentam, há mais demanda, mais empregos, mais receitas fiscais e de repente você tem um círculo virtuoso.”

“Tanto no Japão quanto no Reino Unido, o QE não está funcionando”, disse em 2013, “porque não se concentra na parte mais importante da oferta de dinheiro”. Ela é originada nos empréstimos bancários. “O QE do Reino Unido faliu singularmente, pois o crédito bancário ainda está encolhendo.”

Quando confrontado com a alegação de alguns bancos britânicos de a demanda por crédito estar baixa, o professor Werner rejeita. “Estou bastante acostumado com esse argumento, porque os bancos no Japão o usaram por 20 anos”, diz ele. “Os bancos, é claro, se tornaram muito avessos ao risco, pois têm muitos ativos inadimplentes.”

O professor Werner também critica a estrutura bancária concentrada do Reino Unido – que, segundo ele, tornou a economia mais vulnerável. “O sistema bancário britânico é dominado por um pequeno número de grandes bancos. Tem apenas cinco bancos [big-five como no Brasil] controlando 90% dos depósitos“, diz ele.

Os grandes bancos querem emprestar para grandes empresas e fazer grandes negócios resultantes em grandes bônus para seus executivos. As pequenas empresas são muito incômodas e os bancos não estão absolutamente interessados ​​- embora as pequenas empresas precisem do crédito e sejam responsáveis ​​por 70% dos empregos no Reino Unido. essas pequenas empresas têm crédito racionado e isso é um problema. “

Na Alemanha, 70% dos depósitos são mantidos por 2.000 bancos“, diz o professor Werner. “Esses bancos alemães locais emprestam muito mais para pequenas e médias empresas e, quando a crise de crédito aconteceu, a maioria delas estava bem.”

Quando se trata de QE, embora suas recomendações de política tenham sido mal interpretadas no Japão, no Reino Unido e em outros lugares, o professor Werner mantém seu senso de humor natural sobre dar ao mundo uma frase tão difícil de dizer.

“De qualquer forma, tornou-se um nome familiar e eu deveria receber algum tipo de taxa, alguns royalties, por isso”, diz ele com um sorriso.

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