Quatro Visões do Estado e da Economia

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), situa o problema das finanças de acordo com cada especificidade nacional.

A literatura contemporânea contém quatro linhas de argumentação, cada uma com uma ênfase distinta, na tentativa de explicar como o governo e os negócios se relacionam entre si

  1. a primeira linha de argumento enfatiza a natureza do problema econômico a ser resolvido por um país
  2. a segunda destaca os interesses dos grupos políticos detentores do poder;
  3. o terceiro enfatiza os arranjos institucionais da política e da administração pública; e 
  4. o quarto enfatiza as ideologias e a visão de mundo dos políticos, burocratas e empresários sobre os papéis da indústria e do Estado

Alguns estudiosos propõem uma quinta abordagem. Ela enfatiza a tradição histórica como uma linha distinta de argumento. Na verdade, no entanto, uma tradição histórica de relações particulares entre governo e negócios, como o legado francês de intervenção estatal, deve ser sustentada por uma continuidade dos interesses, instituições, ou ideologias daqueles governantes ao longo do tempo. Tradição histórica não é uma essência mística e não pode constituir uma categoria separada de explicação.

As três primeiras explicações foram consideradas nos estudos de caso, realizados anteriormente, e são incorporados na seguinte análise do comportamento do Estado.

Zysman deixa de lado a quarta categoria, ideologias e visões de mundo, por razões explicadas brevemente neste ponto. Ideologias fornecem mapas daquilo possível e adequado na vida política. Elas constituem visões de mundo e lentes através das quais a experiência é ordenada. Burocratas nos Estados com tentativas de forçar o desenvolvimento de suas economias terão ideologias e visões de mundo diferentes das dos burocratas em Estados longe da economia. 

O excelente livro de John Armstrong, The European Administrative Elite, retrata essa variação na Europa e demonstra como os valores se tornam enraizados nos procedimentos de recrutamento e socialização de uma burocracia. Sem dúvida, as visões de mundo existentes tendem a reforçar os procedimentos e as burocracias expressam os valores culturais das sociedades das quais elas emergem. No entanto, quando as organizações e procedimentos mudam, a atitude de quem trabalha neles também muda.

Nossos esforços para controlar nossas circunstâncias moldam nossas ideias, mas as ideias mantidas a qualquer momento têm o molde de como vemos essas circunstâncias e a gama de ações aberta para nós. Este delicado equilíbrio entre ideias e condições materiais, no entanto, simplesmente não precisam ser consideradas separadamente. 

Se as visões de mundo contribuem para a continuidade da institucionalidade e dos arranjos na política e na burocracia, eles são, portanto, incluídos na análise das instituições. 

Explicação pela Natureza do Problema Econômico

A primeira linha de argumentação de John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), é as diferenças nos problemas econômicos confrontados por uma Nação explicarem variações no papel do Estado dentro da economia dessa nação. Em outras palavras, para determinar a forma das relações do governo com a indústria, devemos perguntar quais os problemas de mercado são enfrentados pelas empresas e a Nação. 

Esses problemas, de acordo com esta linha de argumentação, determina as tarefas econômicas assumidas pelo Estado. Ele deve empreender e dar conta dessas tarefas. Por sua vez, ditam também os arranjos políticos a serem construídos para realizá-los.

Mas como podemos explicar o fato de que quando a hegemonia econômica da Grã-Bretanha deu lugar ao declínio e o Japão passou do atraso para um lugar de liderança na competição industrial internacional, se nenhum desses países experimentou uma dramática reviravolta institucional. Na verdade, a Grã-Bretanha de 1950 tem mais semelhança com a Grã-Bretanha de 1980 se comparado com o Japão de qualquer ano. uma situação que parece indicar o legado institucional e político superar os problemas econômicos na definição das relações do governo com a indústria.

No entanto, podemos manter o foco nas circunstâncias econômicas se argumentamos a forma como o problema da industrialização é resolvido estabelece, em cada país, um fundamento institucional capaz de estruturar a maneira como todos os problemas subsequentes serão resolvidos. 

Alexandre Gerschenkron desenvolveu a formulação mais conhecida desta posição. Ele propõe o momento histórico da industrialização de um país define as tarefas econômicas para a sociedade realizar e as políticas a se revelarem soluções viáveis. 

O lugar de um país na sequência histórica da industrialização estabelece duas dimensões de sua situação. Em primeiro lugar, o momento da industrialização determina quais indústrias devem servir como motor de crescimento do país e a natureza desse motor de crescimento, por sua vez, determina o aspecto social, técnico, e recursos financeiros a ser mobilizados para a industrialização ser bem-sucedida.

Assim, quando a Grã-Bretanha se industrializou, os têxteis foram os principais indústriaa. Uma vez que apenas recursos limitados foram necessários para iniciar uma empresa têxtil, o empresário individual poderia mobilizar os fundos, a força de trabalho e a tecnologia. 

Quando Alemanha se tornou industrializada, na última parte do século XIX, no entanto, o aço tornou-se uma parte crucial da base industrial. Uma vez que a produção de aço necessária exige grandes somas de dinheiro, força de trabalho em massa e cada vez mais conhecimento científico e técnico especializado, era quase essencial o governo e as instituições financeiras participarem ativamente do processo.

Em segundo lugar, Gerschenkron aponta os primeiros países a se industrializarem terão uma vantagem competitiva no comércio e poder militar sobre aqueles a chegar mais tarde na sequência da industrialização. Consequentemente, a industrialização tardia deve se mover rapidamente para acumular forças substanciais. 

Os governos serão pressionados a acelerar este desenvolvimento pelas seguintes causas, tanto por sua preocupação com a segurança militar, quanto pela promessa de lucros para empresários. Eles vão atribuir alta prioridade aos produtos militares da indústria e mobilizar seus produtores para fornecê-los.

Assim, enquanto os empresários individuais eram suficientes para a industrialização inicial, bancos e governos desempenharam um papel direto mais amplo papel no desenvolvimento dos seguidores com capitalismo tardio – França, Alemanha e Rússia.

Na Grã-Bretanha, por exemplo, as ferrovias eram financiadas de forma privada por lucros de investimentos industriais anteriores. Um lento desenvolvimento ferroviário, pouco a pouco e de maneira fragmentada, poderia ser tolerado. 

Na Alemanha e França, no entanto, governos e bancos foram atraídos para ajudar a aumentar os fundos e mobilizar a obra de construção do transporte ferroviário. Por esta lógica, as relações atuais entre as empresas e o Estado em um início de processo industrial, como o ocorrido originalmente na Grã-Bretanha, são dramaticamente diferentes daqueles ocorridas em um retardatário, como o Japão, devido às diferentes maneiras como cada país resolveu os problemas da fase inicial de industrialização.

Gerschenkron, considerando o momento do desenvolvimento industrial, pretende explicar por qual razão diferentes instituições – Estados, bancos e empresários – serviram para organizar o processo de industrialização.

Outros estudiosos, seguindo uma linha de análise semelhante, destacaram os arranjos políticos da variável dependente. Latino-americanistas, em um esforço para explicar o surgimento de regimes autoritários tecnoburocratas, no Brasil e em outros lugares, argumentaram os diferentes problemas econômicos representarem diferentes tarefas políticas. Eles procuram dar conta das mudanças no regime político, traçando mudanças nos problemas econômicos. O regime político, ao invés do agente empreendedor da industrialização, é a variável a ser explicada, mas a lógica do argumento é semelhante.

A economia, tanto interna quanto externa, sem dúvida restringe as escolhas de negócios e governo, delimitando uma gama de estratégias para cada objetivo. No entanto, a menos que acreditemos cada situação poder ser percebida de apenas uma maneira e pode gerar apenas uma solução, não podemos argumentar os problemas econômicos sempre definirem as metas perseguidas ou as estratégias adotadas. 

Os objetivos e estratégias do Estado é decidido por conflitos políticos domésticos. Por exemplo, na primeira parte do século XX, a França ficou atrás da Alemanha em crescimento industrial, mas o Estado francês não liderou a cruzada para uma rápida ruptura com um passado agrícola. Essa mudança na política veio somente após a Segunda Guerra Mundial. O problema econômico não provocou as coalizões políticas ou os arranjos institucionais específicos necessários para o crescimento liderado pelo Estado. 

Na verdade, é uma fraqueza do argumento de Gerschenkron ele não considerar as administrações dos Estados, em vários casos, diferiram dramaticamente por razões totalmente independentes do problema da industrialização. A autonomia da sociedade inglesa em relação à Monarquia permitiu a explosão empresarial capaz de a conduzir à Revolução Industrial, enquanto o poder do entrincheirado das tecnoburocracias do Estado no continente tornaram possíveis as estratégias de recuperação pós-guerra.

É difícil imaginar como cada sequência nacional poderia ter sido diferente. A resposta política a uma situação econômica sempre tem uma explicação.

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