O Coração e A Razão (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Meu estimado mestre, Luiz Gonzaga Belluzzo, Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreveu uma deliciosa crônica com sua vasta cultura e fina verve, além de ironia, sobre alguns personagens midiáticos — e a risível persona non grata do ministro da Economia.

Leio na “Folha de S. Paulo”: na posteridade do debate promovido pelo Valor, a economista Monica De Bolle foi às redes sociais para se queixar do machismo de Arminio Fraga.

A faísca, informa a Folha, foi o ex-presidente do Banco Central classificar um discurso de De Bolle como sendo do “coração”. “É fácil fazer esse discurso e ele mexe no coração da gente. Só acho que é preciso certo cuidado”, afirmou Arminio após uma longa fala da professora da Universidade Johns Hopkins.

Monica defendia auxílio emergencial sem condicionalidades e criticava o esvaziamento do debate sobre responsabilidade fiscal. Segundo ela, a discussão de política orçamentária não coloca a sociedade e a campanha de vacinação como elementos centrais e tem sido usada para a “relativização das mortes”.

Diante do episódio, acudiu-me relembrar o filme “As Confissões”, de Roberto Andò. A atriz, que encarna a ministra das Finanças do Canadá, reproduz uma piada contada por outro personagem, o diretor-gerente do FMI, apelidado Daniel Roché: “Um candidato a transplante de coração recusa uma oferta de órgão retirado de um menino: não quero, é muito jovem. Em seguida, os médicos oferecem o coração de um gestor de hedge fund. Ele recusa porque o tipo não tem coração. Os médicos insistem: aceite o coração de um banqueiro central. Ele aceita porque esse coração nunca foi usado”.

As desavenças com o coração também frequentam as sabedorias de Paulo Guedes. O Estadão de 11 de fevereiro da 2019 registra a entrevista concedida ao Financial Times pelo ministro da Economia. O jornal britânico relata que ele toca um dedo em sua têmpora. “As pessoas da esquerda têm cabeças ‘fracas’ e bom coração”, diz ele. “As pessoas da direita têm cabeças fortes e…” Ele procura a frase correta. “Corações não tão bons”.

Em depoimento no Congresso em 30 de junho de 2020, Paulo Guedes sapecou: “Você se torna um liberal ao longo de muitas décadas. Fazer um socialista leva 5 minutos porque ter um bom coração, querer ajudar os outros, isso tá nas grandes religiões, isso tá na solidariedade, na fraternidade, nós nascemos assim”.

Depois da crise financeira de 2008, Willem Buiter, ex-economista-chefe do Citigroup, hoje professor visitante na Universidade de Columbia, manifestou sua discordância com as ‘cabeças fortes’ de Paulo Guedes. Buiter apontou as armas da crítica na direção dos idealizadores e operadores dos sistemas financeiros “intrinsecamente disfuncionais, ineficientes, injustos e regressivos, vulneráveis a episódios de colapso”, um exemplo de “capitalismo de compadres”, sem paralelo na história econômica do Ocidente.

“É uma questão interessante, para a qual não tenho resposta… Não sei se os que presidiram e contribuíram para a criação e operação [desse sistema] eram ignorantes, cognitivamente e culturalmente capturados ou, talvez, capturados de forma mais direta e convencional pelos interesses financeiros”.

Imagino que na Universidade de Chicago de Paulo Guedes o curso de História do Pensamento Econômico tenha contemplado a leitura da Fábula das Abelhas de Bernard de Mandeville. Já na aurora do século XVIII, o autor desconfiava dos enganos do coração e levou a extremos a moral individualista, racionalista, utilitarista do liberalismo. Vícios privados se transmutam em virtudes públicas.

Mandeville conta a história de uma colmeia próspera e progressista, ambiente em que prevaleciam os vícios egoístas de todos as habitantes. Esse comportamento de coração duro foi interceptado, em certo momento, pela nostalgia da moral cristã, a nostalgia dos bons sentimentos. As abelhas resolveram retroceder, voltar às práticas do coração. A prosperidade se converteu em decadência.

Jeremy Bentham prosseguiu na faina Iluminista de desvencilhar o homem ocidental do Império da Crença para entregá-lo ao Reino do Cálculo. Em seu avanço, o racionalismo Iluminista rasgou a cortina da Ordem Revelada que enclausurava os homens e mulheres nas crenças e sentimentos no propósito de emparedá-los nos calabouços do Cálculo.

No livro “As paixões e os Interesses”, Albert Hirschman discorre criticamente a respeito da contraposição entre as paixões nefastas e viciosas do Ancien Régime e os interesses racionais mediados pelas trocas da sociedade mercantil. As paixões eram necessariamente violentas, pois realizavam seus propósitos diretamente no corpo e no espírito do semelhante. Entre esses desatinos estavam os prazeres da luxúria, o ódio descarregado sobre o corpo de outro, a paixão patriótica que levava à guerra.

Friedrich Hayek desdenha os corações confrangidos pela desdita do próximo. Em seu livro “The Road to Serfdom”, Hayek exalta o empreendedor, o indivíduo independente “empenhado em definir e redefinir seu plano de vida, enquanto os trabalhadores cuidam, em grande medida, de se adaptar a uma situação dada”. Hayek considera a concorrência como a única forma social que estimula a inovação inédita sem a ingerência coercitiva e arbitrária da autoridade. As políticas de combate à desigualdade abafam o impulso inovador dos indivíduos.

As manifestações de Arminio, Paulo Guedes e do guru Hayek sugerem uma rápida incursão às páginas do livro “A Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer. Aí, os autores palmilham os caminhos que levaram o projeto das Luzes a se precipitar nos braços do mito. A recaída do Esclarecimento na mitologia, diz ele, não deve ser buscada tanto nas ideologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas, mas no próprio Esclarecimento paralisado pelo temor da verdade.

“Paralisadas pelo temor da verdade”, as teorias econômicas liberais e suas políticas permanecem espremidas entre a mitologia do equilíbrio e os manuais de instrução das arrumadeiras ou de alfaiates especializados em ajustar fatiotas. A Economia confirma e reafirma Adorno e Horkheimer: “No trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade”. Viva o Teto de Gastos.

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