Más Condições Financeiras e Sociais no Brasil

Elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, o Índice de Condições Financeiras (ICF) já está em níveis bastante contracionistas. Quando o indicador está acima de zero, ele aponta para um aperto das condições financeiras. Abaixo de zero, indica alívio. O ICF acima de 1 ponto está em um nível contracionista. Isto dificulta a retomada da atividade.

O ICF agrega componentes de preços, como commodities e câmbio, de confiança dos agentes e variáveis de mercado, como índices nacionais e internacionais de bolsas, medidas de risco-país e o comportamento das taxas de juros. Com a piora nos preços dos ativos brasileiros, o indicador tem se mantido acima de 1 ponto.

Com outra metodologia, com base nos modelos do Banco Central, o Índice de Condições Financeiras elaborado pelo ASA Investments também está em um nível bastante contracionista. O indicador atingiu recentemente o maior nível desde março de 2020, quando eclodiu a crise da covid-19 e desenha um cenário como “o pior dos mundos” para o BC.

Está se aproximando da possibilidade de desancoragem das expectativas de inflação. O BCB tem em mãos inflação corrente elevada e dúvidas crescentes sobre a trajetória fiscal. O resultado é um claro aumento de juros.

Sem perspectiva de grande queda para os próximos meses em itens com forte influência nas altas recentes, como combustíveis e bens industriais, diversas casas revisaram projeções para 2021. Uma inflação de 4% no fim do ano parece, agora, o piso – e algumas estimativas rondam os 5%. A meta é de 3,75%, com 1,5 ponto percentual de tolerância.

A relação câmbio/juros afeta indiretamente, através de mecanismo de transmissão via inflação importada e inflação de combustíveis, a taxa de inflação.

O gráfico acima mostra o crescimento das reservas internacionais até o patamar atual após a grande crise financeira internacional de 2008. Mostra também os outros componentes de intervenções cambiais citados anteriormente, notadamente os swaps cambiais. A posição cambial líquida, a linha amarela do gráfico, é determinada basicamente pela diferença entre as reservas e os swaps cambiais. Ou seja, quando o BC vende dólares ao mercado, seja via diminuição das reservas ou aumento do estoque dos swaps cambiais, a posição cambial líquida é reduzida.

Segundo o BC, intervenções cambiais são justificadas apenas em momentos disruptivos de mercado, marcados por movimentos bruscos da taxa de câmbio causados por iliquidez ou outros fatores anormais. A escolha do instrumento da intervenção, venda de reservas ou de swaps cambiais, dependeria do tipo de anormalidade identificada pelo BC. Se há um aumento anormal da demanda por hedge cambial, sem necessidade de enviar recursos ao exterior, o BC prefere vender swaps cambiais, como ocorreu na reação ao Taper Tantrum, em 2013 (vide gráfico).

Já se ocorre um aumento anormal na demanda por dólar à vista (spot), o BC intervém via venda de reservas ou repos. Normalmente, a taxa de juros em dólar no Brasil, o cupom cambial, é o sinalizador da escassez de dólar no mercado à vista.

Jamais o BC, ou qualquer outro banco central que siga a sistemática de metas para inflação, admitiu ter intervindo em mercados cambiais para “segurar o dólar”. Isto é anátema para bancos centrais. Não obstante, é comum lermos análises que passam ao largo dessa constatação.

Recentemente, o BC interveio em momentos quandoos mercados cambiais aparentavam funcionar normalmente, inclusive com o real se apreciando frente ao dólar. Isto foi suficiente para alguns analistas afirmarem o BC estaria intervindo para segurar o câmbio, em momento quando a inflação volta a preocupar, impulsionada pelos preços em reais de commodities, cotadas em dólar, sobretudo os derivados de petróleo.

Influenciada pela pandemia, a crise do mercado de trabalho em 2020 foi tão intensa que quatro das cinco regiões brasileiras e 20 das 27 unidades da federação tiveram a pior taxa de desemprego da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Na média nacional, a taxa de 2020 (13,5%) também foi a pior já registrada pela pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na maioria dos Estados (15 dos 27) o nível de ocupação ficou abaixo dos 50%, especialmente no Norte e no Nordeste. Isso significa que menos da metade das pessoas em idade de trabalhar estava ocupada nesses locais.

Os dados mostram ainda os negros, historicamente com desemprego maior, foram mais impactados pela crise se comparados aos brancos, movimento semelhante ao ocorrido entre mulheres, se comparadas com os homens. No quarto trimestre de 2020, a taxa de desemprego das mulheres foi 37,8% maior que a dos homens. Os indicadores também apontam efeitos maior da crise entre os trabalhadores mais jovens – entre 18 e 24 anos – e entre os que têm escolaridade menor.

Quase todas as regiões do Brasil tiveram em 2020 a maior taxa anual de desemprego da série histórica, a única exceção foi o Norte. E essa foi a realidade também para as unidades da federação. As únicas sem expansão foram Amapá e Pará.

Foram 20 das 27 unidades da federação com recordes negativos e 23 das 27 com alta na taxa de desemprego em 2020, frente a 2019. Em São Paulo, com o maior contingente de trabalhadores do país, a taxa de desemprego avançou de 12,5% em 2019 para recorde de 13,9% em 2020. O estado teve, em média, 3,3 milhões de desempregados no ano passado. Já o Rio de Janeiro viu sua taxa de desemprego disparar de 14,7% para 17,4%, na mesma comparação, com média de 1,4 milhão de desempregados em 2020.

Na passagem do terceiro para o quarto trimestre, houve alguma reação no mercado, que sazonalmente tende a melhorar no fim do ano, mas pouco disseminada, já que ocorreu de forma significativa em apenas cinco das 27 unidades da federação.

Além de recordes negativos em diferentes regiões do país, o ano de 2020 também de aprofundamento de desigualdades já existentes no mercado de trabalho no que se refere a raça e gênero. O desemprego entre a população de cor parda ou preta é historicamente maior e esses grupos ainda tiveram piora mais intensa em 2020. Na população branca, a taxa subiu de 9,4% para 10,9% entre 2019 e 2020. O crescimento foi maior na população preta, de 14,7% para 17,3%, e na parda, de 13,7% para 15,4%.

O movimento foi semelhante ao observado entre as mulheres. Entre elas, o desemprego subiu de 14% em 2019 para 15,6% em 2020, enquanto a dos homens avançou de 10,1% para 11,7%.

A pandemia tem aprofundado essas desigualdades de raça e gênero no mercado de trabalho. Mulheres e negros estão em geral em ocupações mais fragilizadas, em relações de trabalho mais facilmente rompidas.

Entre as mulheres, a queda significativa da taxa de participação na força de trabalho, ou seja, as pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas ou procurando emprego, deixou claro o impacto da pandemia: de 53,1% em 2019 para 48% em 2020.

Pela primeira vez, desde os anos 90, temos uma taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho abaixo de 50%. Foi um retrocesso enorme para apenas um ano.

1 thought on “Más Condições Financeiras e Sociais no Brasil

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Desde o início do ano o ICF gravita em torno de 1,2, cerca de 10% mais contracionista que dezembro último.
    De se notar que a FGV calcula o indicador considerando o IPCA, do IBGE, como medida de inflação, e não o seu próprio Índice Geral de Preços de Mercado (IGPM), que acusa variação de preços de 28% em um ano.
    A medida essencial para mudar o quadro não é de cunho econômico, exatamente: vacinação em massa e imunização da população preservam a vida de quem produz, comercia e consome, ativando o crescimento brasileiro.

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