Administração de Recursos de Terceiros: Big-Five X Fintechs

Adriana Cotias (Valor, 11/03/2021) informa: com volumes vultosos em fundos de renda fixa, os grandes bancos têm progressivamente cedido espaço para as gestoras de recursos independentes. No top 5 do setor bancário, Itaú e Bradesco são os que mais têm perdido dinheiro e participação de mercado. Segundo dados da Morningstar, R$ 107,4 bilhões deixaram as duas instituições em 12 meses encerrados em fevereiro.

O Santander atraiu dinheiro novo, mas perdeu market share. Banco do Brasil, líder no ranking, e Caixa também tiveram captação positiva, e algum incremento no bolo – ambos foram o meio para o recebimento do auxílio emergencial e a parcela de seguro desemprego relativa à suspensão de contratos de trabalho e redução de salário durante a pandemia de covid-19.

No conjunto, os cinco maiores bancos tinham no fim de fevereiro 63,74% de market share, ante 66,32% de 12 meses atrás. Em 2019, a fatia dos cinco maiores do varejo bancário era superior a 70%. O bolo das gestoras abaixo desse pelotão de frente passou, consequentemente, de 33,68% para 36,26% entre 2020 e 2021. A base da Morningstar exclui fundos de fundos e os fundos em cotas, que efetivamente vão para a distribuição, considerando apenas a carteira principal (master) para evitar dupla contagem. O filtro é feito na classe de fundos líquidos domésticos, regidos pela instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários.

Ao perceber que o dinheiro rende praticamente nada em aplicações conservadoras, com Selic baixa, custos altos e o ganho real corroído pela inflação, o investidor tem testado alternativas fora dos bancões. Segundos representantes do setor, o comportamento comum é levar parte do dos recursos para as plataformas digitais que na sua grade privilegiam fundos de assets especializadas em carteiras de maior risco. Essa transição tem dado oportunidade para gestoras novatas, com nomes experientes por trás, testar essas oportunidades.

Na safra atual há nomes como a Genoa Capital e a Asset1, criadas por ex-gestores do Itaú Unibanco. Rubens Henriques, que foi CEO da Itaú Asset, também está em vias de colocar de pé seu novo projeto, que tem o BTG Pactual como minoritário. Recentemente, Miguel Ferreira, ex-CEO da asset do Santander, abriu as portas da Bocaina e João Braga, ex-XP, as da Encore em sociedade com a antiga casa.

A Grimper Capital, do ex-Credit Suisse Sylvio Castro, chegou em novembro. Outra estreante é a Meraki, liderada por Roberto Reis, com passagem por Bradesco e Santander Asset, Luiz Goshima, que era o CEO do family office de Lia Aguiar, e Stefan Darakdjian, vindo do mundo das startups.

Esses são apenas alguns exemplos do quão aquecido está o mercado de gestão de fundos. Pelos dados da Anbima 118 casas foram criadas nos últimos 12 meses até janeiro. Outras 53 encerraram suas operações nesse período.

Na liderança da captação em 12 meses, depois de BB e Caixa, a XP é destaque, ao atrair R$ 21,8 bilhões, elevando seu market share de 0,99% para 1,52%; seguida por BTG, que captou R$ 8,7 bilhões, indo de 1,33% para 1,74% de participação. São instituições que tal como os nomes tradicionais do varejo bancário conseguiram capilaridade de distribuição, seja por meio digital seja pelo canal dos agentes autônomos.

A Verde, de Luis Stuhlberger, que recentemente reabriu para captação seu principal fundo, contabilizou ingressos de R$ 7,6 bilhões em 12 meses, com o percentual subindo de 1,01% para 1,14% – só em janeiro e fevereiro deste ano entraram R$ 8,7 bilhões. Destaque também para a evolução da JGP no intervalo de 12 meses, com R$ 9,4 bilhões e a fatia passando de 0,39% para 0,59%. A Dahlia Capital recebeu quase R$ 5 bilhões, passando a deter 0,22% de share, ante 0,10% no ano anterior; a Legacy atraiu outros R$ 4,5 bilhões, subindo de 0,31% para 0,43%, e a Occam, R$ 5,1 bilhões, aumentando a sua parcela de 0,22% para 0,32%.

Os grandes bancos perdem participação relativa, mas continuam gigantes e têm reagido. Revisão da política de tarifação, com taxas de administração mais condizentes com o juro baixo, redução do tíquete de entrada em carteiras de maior risco e abertura da oferta para fundos de assets independentes são algumas das iniciativas.

Com a pandemia, há também quem tenha observado a migração de parte dos recursos em carteiras de renda fixa para Certificados de Depósitos Bancários (CDB), que não têm o incômodo da variação diária de cotas como há nos fundos. Durante a crise, vale lembrar que até portfólios muito conservadores também balançaram.

Com o impulso do investidor de buscar fundos de investimentos de maior risco, a indústria de gestão de recursos tem se transformado gradativamente. Como os grandes bancos detêm os maiores volumes em renda fixa, essa é a base que tem sido mais atacada com o avanço das corretoras digitais na distribuição e das assets independentes.

O CEO da Itaú Asset diz: parte dos recursos tem migrado para as plataformas de investimentos externas e parte para os Certificados de Depósitos Bancários (CDB) das própria instituições. Em 12 meses, até fevereiro, o banco teve resgates líquidos de R$ 67,7 bilhões em fundos, segundo a Morningstar.

Prefere-se não olhar o AUM [total de ativos sob gestão], mas para os produtos de baixo valor agregado. O que mais importa é de onde está saindo dinheiro, a preocupação seria se não tivesse captando nas estratégias que a gente vem dando reposicionamento.

Em 2019, o Itaú criou uma estrutura de “minigestoras”, com a intenção de competir de igual para igual com as casas independentes. Hoje são 13 mesas dedicadas a estratégias de valor absoluto, que reúnem cerca de R$ 60 bilhões. Com a cobertura macro, de ações, renda fixa, offshore e sistemática, a ideia não é expandir muito mais o número de mesas que alimentam a família de fundos Global Dinâmico. O plano é acrescentar mais duas até abril, um reforço nas partes quantitativa e macro. Um time especializado em macro deve acrescentar patrimônio importante à operação.

Salamonde explica que a recente compra de 15% da Asset1 pelo Itaú é um negócio do banco, não da asset, mas não descarta a hipótese de também a gestora adquirir participações no mercado ou trazer equipes. “Seria mais uma veia para a operação de multimesas”, diz, para trazer a captação que virou “core”.

No banco, as alternativas mais sofisticadas já chegam ao varejo, por meio da família Carteira, que oferece diversificação em seis fundos a partir de R$ 1, que têm cerca de R$ 30 bilhões.

Se antes os grandes bancos se beneficiavam da capilaridade das agências em fundos de renda fixa que remuneravam bem o investidor, hoje as alternativas digitais se apresentam como um caminho para estratégias de maior risco, diz Isaac Mascovistz, chefe comercial de produtos da BB DTVM. A maior gestora do país atraiu R$ 123,4 bilhões em 12 meses.

“A queda acentuada e rápida das taxas de juros acabou abrindo margem para a demanda por investimentos e estruturas com outros perfis de risco. Grandes instituições financeiras e o investidor médio, de forma geral, estavam muito habituados à rentabilidade elevada e ao baixo risco da renda fixa tradicional”, diz Mascovistz. “Houve espaço para novos portfólios que capturem retorno melhor, o que abre um flanco para atuação de gestores especialistas em equity, multimercados, long short, as estratégias diferenciadas se tornam mais competitivas.”

Para fazer frente ao novo ambiente, o Banco do Brasil derrubou a segmentação que havia na oferta, com o varejo passando a acessar carteiras antes destinadas à alta renda e ao private, diz Eduardo Vilela, gerente executivo de estratégia, produtos e captação do BB. O investidor passou a ter acesso a fundos mais sofisticados, com taxas de administração idênticas às cobradas do público mais endinheirado. Outra iniciativa foi a redução dos tíquetes de entrada, com aplicações a partir de R$ 0,01 em fundos que sintetizam as carteiras recomendadas.

“Conseguimos fazer o movimento de equiparação para manter a competitividade”, afirma Vilela. O executivo acrescenta que essa revisão também passou pela redução de taxas de administração.

Com histórico de concentração de recursos em carteiras de renda fixa, os novos multimercados e fundos de ações e BDRs já nasceram com taxas entre 0,75% e 1% ao ano, diz Mascovistz. “Dependendo da geração de valor, a taxa pode chegar a 1,5%, abaixo do padrão de 2% com 20% [de performance] que se vê no mercado.”

Na base de renda fixa legada, as taxas orbitam entre 1,5% e 1,75% ao ano, ante 3% do passado, mas o executivo afirma que são fundos que funcionam como um serviço de fluxo de caixa, não pertencem ao mundo dos investimentos. Nos chamados fundos “raspa conta”, de aplicações e resgates automáticos há ainda um patrimônio de R$ 181 bilhões.

Uma frente que o BB vem apostando para reter e atrair novos clientes é aumentar a especialização de investimentos na rede, a fim de estancar o movimento de evasão para as corretoras, diz Vilela. Outro pilar é avançar no canal digital. O banco criou um aplicativo dedicado a aplicações financeiras.

Com juros reais negativos nas modalidades mais conservadoras, ficar plantado em aplicações atreladas à Selic ou ao CDI destrói valor, daí a necessidade de o investidor buscar alternativas, diz Ricardo Eleutério, superintendente-executivo da Bradesco Asset Management (Bram). Pelos dados da Morningstar, a gestora teve resgates de R$ 39,7 bilhões em 12 meses.

Para dar vazão à migração para produtos de maior valor agregado e manter o investidor, a gestora acelerou parcerias, renovou a grade, com alternativas com mais risco e estratégias no exterior. Hoje há cerca de 200 fundos disponíveis na rede. A política de tarifação também foi revisada e os funcionários, treinados para dar melhor assessoria. A mensagem é que se olhar para frente estamos muito bem estruturados. Um número curioso é que, em pouco mais de dois anos, os produtos que são fruto dessa inovação já captaram R$ 76 bilhões. Só em quantitativos, a gestora já tem mais de R$ 25 bilhões.

O escape de recursos ao longo de 2020 de fundos de renda fixa em todo o mercado está associado às necessidades de caixa de empresas e famílias durante a crise disparada pela pandemia de covid-19. No momento do estresse, alguns clientes também migraram para CDB.

Nas estratégias conservadoras, que ainda vão abrigar boa parte das reservas do brasileiro, a oferta ativa contempla fundos DI com taxa de administração de 0,25% ao ano, diz. Nos multimercados criados como produtos de alocação, há carteiras com custo anual de 1% e performance de 30%.

Em meio a ameaças e oportunidades que os novos provedores de produtos de investimentos trazem, o Santander reforçou a sua linha de alternativos. Fundos imobiliários, de infraestrutura, multimercados e de estratégias sistemáticas passaram a compor a oferta. Na parcela de gestores externos, há alguns fundos espelhos na grade, mas a prioridade é deixar a seleção para a área de fundos de fundos, que reúne cerca de R$ 18 bilhões.

Há toda uma complexidade para escolher novos veículos, com centenas de provedores, a gente faz a curadoria. A oferta de bancos em geral se enriqueceu muito, está mais apimentada, mas nosso apetite é diferente do mercado mesmo. Big-five só vai oferecer produtos ou estratégias que já têm certa comprovação. Não vende de tudo e o cliente que quiser produtos ainda mais picantes, arriscados ou estruturas diferentes ele vai achar fora do banco.

Essa postura se justifica pelo papel fiduciário do banco, que vai ser mais seletivo naquilo que põe no balcão. No mercado só se fala em retorno e não em risco, essa é uma grande assimetria que é preciso deixar clara para a massa de pessoas físicas.

Se olhar os dados de ranking de fundos do ano passado, a captação dos grandes bancos em portfólios de maior valor agregado já superava a dos não bancos. Tem ainda muita coisa para fazer, mas a inflexão já aconteceu e está vindo com velocidade.

O Santander também fez um ajuste de custos, com os produtos de renda fixa na rede com taxas de 0,3% ao ano e aplicação a partir de R$ 100. Nos fundos antigos, as taxas chegam a 1%.

O setor de gestão de patrimônio fechou 2020 com R$ 220,5 bilhões em recursos, com um crescimento de 32,7% em relação a 2019. O número de grupos familiares atendidos por assessorias fora do setor bancário teve um acréscimo de 35,3%, a 7,9 mil, segundo dados da Anbima, entidade que representa o mercado de capitais e de investimentos.

Foi um ritmo mais acelerado do que se viu nos serviços de private banking, que encerraram 2020 com R$ 1,625 trilhão, com expansão de 24,4% e 65 mil grupos econômicos.

Mesmo com a pandemia de covid-19, o mercado de capitais seguiu aquecido, alimentando o setor de gestão riqueza como um todo. Como nas classes de renda mais altas as famílias costumam ter mais dinheiro fora do país, houve também um efeito cambial positivo sobre as carteiras.

Teve geração de liquidez com novos entrantes no mercado, do lado de IPOs [ofertas públicas iniciais] e de operações de M&A [fusões e aquisições]. Houve operações que do começo até o closing foram feitas de forma totalmente remota.

Uma tendência que já se viu em 2020 e deve se repetir em 2021 é a busca de fundos estruturados, como os de crédito estressados ou de private equity, de companhias de capital fechado. As empresas estão ficando por mais tempo privadas e a única forma de participar do crescimento de alguma forma é compondo com um pouco de private equity.

Em negócio dependente de estrutura e investimentos em tecnologia é natural ver novas consolidações em todas as frentes, com movimentações na atividade de consultoria de valores mobiliários, de agentes autônomos ou do profissional de banco, do private bank ou de alta renda.

Esse é um business de escala. Depois de ter uma estrutura mínima para atender determinada base, se dobrar de tamanho, se tem R$ 10 bilhões e acrescentar mais R$ 10 bilhões não tem que dobrar a equipe. Deve ter pressão de margem até ir consolidando por parte do cliente e por conta da competição entre os agentes.

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