Plano Social-Desenvolvimentista Sustentável: Exemplos de Planos do Partido Democrata nos EUA

Pedro Cafardo é jornalista da equipe criadora do Valor Econômico. Publicou (Valor, 19/02/21) um artigo bom para eu começar a postar um dossiê com informações sobre o chamado “Plano Biden”. Necessitaremos estudá-lo bem para elaborar um bom Plano Social-Desenvolvimentista Sustentável para quando (2023) voltarmos a um governo popular de esquerda ou “liberal igualitário”, eleito por uma Frente Ampla de Democratas.

Teve pouca repercussão, em meio ao imbróglio do frustrado processo de impeachment de Donald Trump, nos Estados Unidos, um artigo escrito por David Leonhardt, na “Sunday Review”, do “New York Times”. Ele mostra os avanços da economia americana desde 1933.

O artigo sustenta os resultados terem sido muito melhores em governos democratas em vez dos em governos republicanos. A taxa média anual de expansão do PIB foi de 4,6% quando os presidentes eram do partido de Joe Biden e de 2,4% sob os da legenda de Trump.

A diferença de desempenho é “surpreendentemente grande”, disseram dois professores de economia em Princeton, Alan Blinder e Mark Watson. A preponderância dos democratas se dá não apenas no PIB, observa Leonhardt, mas também nos demais indicadores importantes da economia: emprego, renda, produtividade e até no preço de ações. Em todos, os democratas levam vantagem nesses quase 90 anos analisados.

Brasil é diferente, mas algumas lições dos EUA são válidas. Basta comparar os desempenhos melhores de governos desenvolvimentistas se comparados aos neoliberais em termos de crescimento de PIB!

Os quatro presidentes que promoveram maior crescimento do PIB eram democratas e, entre os quatro com expansão mais lenta, três eram republicanos. Os seis presidentes com avanço mais rápido do emprego eram democratas. E os quatro que promoveram um período de expansão mais lento, republicanos (ver gráficos acima).page3image4081664560

Em tese, esses dados soam bem para os mercados globais, uma vez que Biden, democrata, acaba de iniciar seu governo, que teoricamente tenderá a estimular mais o crescimento do que um republicano. Mas o tema é polêmico entre os analistas dos EUA.

Leonhardt foi cuidadoso ao analisar os dados. Ouviu vários economistas e chegou a conclusões diversas. Uma delas fala até em simples coincidência. Alguns presidentes, como Barack Obama e George W. Bush assumiram quando a economia estava em recessão. Outros, como Harry Truman e Donald Trump, herdaram um boom.

Além disso, Leonhardt observa que o desempenho da economia decorre de milhões de decisões tomadas diariamente por empresas e consumidores, muitas das quais têm pouca relação com a política governamental.

Tudo isso foi considerado, mas a razão principal, mais polêmica, refere-se às atitudes de democratas e republicanos no poder. Os democratas, diz Leonhardt, tendem a prestar mais atenção a lições econômicas históricas sobre quais políticas realmente fortalecem a economia. Os republicanos, porém, na maioria das vezes se agarram a teorias – ou dogmas – nos quais eles querem acreditar, como o poder supostamente mágico de cortes de impostos e desregulamentação.

Em consequência, os democratas têm sido mais pragmáticos na ideia de buscar obstinadamente crescimento de produção, emprego e renda, seja qual for a política necessária em cada momento. Franklin Roosevelt, democrata, por exemplo, quando concorreu à Presidência pela primeira vez, em 1932, às vezes argumentava que reduzir o déficit poderia ser a chave para acabar com a depressão.

Mas ele sempre pediu a seus auxiliares que fizessem experimentações ousadas e persistentes. “Adote um método e tente. Se não der certo, admita francamente e tente outro, mas, acima de tudo, tente alguma coisa”, dizia Roosevelt.

Uma justificativa dos republicanos [como os neoliberais daqui] joga a culpa pelo seu pior desempenho nos próprios democratas. Só criticam: normalmente impulsionariam a economia com gastos excessivos para depois deixar aos republicanos a tarefa de limpar a bagunça. Mas os dados também contestam isso, porque nas últimas quatro décadas presidentes republicanos geraram déficits maiores que os democratas. [Aqui no Brasil as finanças públicas de Maílson, Zélia, Malan, Meirelles e Guedes tiveram resultados melhores.]

Desde 1980, pelo menos, a gestão econômica republicana gira em torno de uma única política: cortes de impostos. Leonhardt diz: cortes de tributos podem levar ao crescimento em algumas situações, mas isso ocorre mais em países com taxações muito altas, o que não é o caso dos EUA. [Tampouco do Brasil…]

Adam Brandon e Jason Pye, respectivamente presidente e vice-presidente da FreedomWorks, um grupo conservador, rebateram os argumentos de Leonhardt, principalmente a ideia central de os democratas têm sido mais inteligentes ao observar as lições históricas e as políticas que realmente fortalecem a economia. Lembraram Roosevelt, após o New Deal, ter enfrentado uma nova recessão em 1937 e 1938. [Logo antes da Economia de Guerra… e crescimento acelerado!]

John F. Kennedy, democrata, pressionou por cortes significativos de impostos e disse textualmente: “o sistema tributário obsoleto” era um grande empecilho para a expansão do poder de compra privado, dos lucros e do emprego.

Barack Obama nunca foi ousado, porque a recuperação da crise econômica de 2007/2008 foi incrivelmente lenta.

Sob Trump, republicano, [é mentira] a economia ter retomado o crescimento de antes da pandemia, com baixa taxa de desemprego, nunca vista desde o fim dos anos 1960.

Os dois articulistas, portanto, mencionam casos específicos. Não contestam os dados e a tendência geral sobre os desempenhos democratas e republicanos.

A situação brasileira é muito diferente da americana, mas algumas lições podem ser úteis para o país se um dia algum governo ainda pensar em promover desenvolvimento, algo fora de moda [neoliberal]:

  1. corte de impostos não leva necessariamente a avanço econômico;

2. dogmas são perigosos para a economia;

3. para haver crescimento é preciso persistir obstinadamente em políticas capazes de levar a isso, quaisquer sejam elas;

4. O Mercado, por si só, não promove crescimento e tende a concentrar renda;

5. é necessário olhar para as experiências históricas com bons resultados.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s