Plano Biden

As perspectivas para a economia global melhoraram com o avanço na vacinação em muitos países e o novo pacote de estímulo de US$ 1,9 trilhão dos EUA. Poderá adicionar 1 ponto percentual à expansão global, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O plano do presidente Joe Biden nos EUA alimentará o crescimento econômico global em 2021. Poderá alcançar 5,6%, segundo as novas projeções da OCDE. Isso significa 1,4 ponto percentual além do estimado em dezembro.

O pacote americano, diz a OCDE, representa uma das maiores injeções de estímulo à maior economia do mundo nas últimas décadas. Isso e mais a vacinação poderão impulsionar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA em mais de 3 pontos percentuais neste ano, para 6,5%, ajudando na demanda em países parceiros.

No caso do Brasil, o pacote americano deverá proporcionar um ganho adicional de 0,6 ponto no PIB. A estimativa atual é a economia brasileira crescer 3,7% neste ano. Duvido.

A recuperação em vários países pode ser travada pelo lento ritmo de vacinação. A imunização será o fator dominante para a perspectiva econômica global. Não foi feito o suficiente para acelerar a retomada. A cadência da vacinação não é suficiente para a retomada. É preciso fazer mais rápido e melhor’.

A lenta vacinação no Brasil contra a covid-19, por exemplo, é um dos riscos para a recuperação da maior economia da América Latina. A taxa de transmissão alta e cadência da vacinação lenta levam a mais restrições, o que pode pesar sobre uma eventual retomada da economia brasileira.

A OCDE nota: economias emergentes na América Latina e África “também estão enfrentando nova ressurgência do vírus, e o ritmo lento de vacinação e o escopo limitado para apoio fiscal adicional podem moderar a retomada”.

Precisamos de um uso mais acelerado de vacinas em todo o mundo para assegurar uma recuperação abrangente. Há um papel-chave da imunização na retomada global.

Para a economista da OCDE, no cenário de imunização mais rápido a economia global pode ganhar US$ 2,7 trilhões adicionais. Mas se a vacinação for desigual e complicada, isso pode se traduzir em perda de US$ 2,6 trilhões. Apoio fiscal sem vacinação não funciona, é preciso combinar os dois.

Parte importante da economia mundial já voltou ao nível de antes da pandemia, as restrições à mobilidade ficaram menos rigorosas e o setor manufatureiro já supera a situação de 2020.

Agora, a previsão é de que a perda de renda por causa da crise sanitária global será de “apenas” US$ 3 trilhões até 2022, equivalente ao PIB da França, comparado a projeção de US$ 6 trilhões feita no ano passado. Muitos países perderam dois a três anos de crescimento.

A OCDE observa: pressões de custo começaram a emergir nos mercados de “commodities” por causa da ressurgência da demanda e perturbações temporárias na oferta, mas a inflação continua baixa em razão da capacidade não utilizada globalmente. A organização avalia que a atual política monetária acomodativa, ou seja, dinheiro barato, deve ser mantida.

Também defende a continuidade do apoio à renda das famílias e companhias até que a vacinação permita reabertura maior da economia. A política fiscal precisa ser mais bem ajustada para ajudar trabalhadores em setores mais atingidos pela crise. À medida que a economia se recuperar, pode haver ajuste fiscal.

Com a aprovação ontem do projeto de lei de Joe Biden com estímulos econômicos de US$ 1,9 trilhão, o presidente americano e seus aliados se voltam para sua próxima grande iniciativa parlamentar: um pacote de infraestrutura de vários trilhões de dólares.

Alguns democratas têm a esperança de que um pacote de infraestrutura de grande abrangência possa ganhar apoio bipartidário, ao contrário do que se viu no pacote de estímulos, aprovado sem um único voto republicano.

Mas o governo poderá encontrar dificuldade para elaborar um projeto que seduza republicanos com a renovação de pontes, estradas e redes de banda larga e, ao mesmo tempo, atenda às ambições de Biden de energia limpa e igualdade racial.

“Ele [Biden] quer se mexer o mais rápido possível” disse o democrata Peter DeFazio, presidente da Comissão de Transportes e Infraestrutura da Câmara dos Representantes, após encontro na Casa Branca, na semana passada. “Ele quer que seja muito grande e sente que isso é essencial para o pacote de recuperação.”

DeFazio sinalizou que o Congresso poderia aprovar o projeto de lei de infraestrutura por meio de um processo conhecido como “reconciliação”, a mesma manobra usada para levar adiante o projeto de estímulos no Senado sem nenhum apoio republicano.

Um amplo pacote de infraestrutura incluiria bilhões de dólares para renovar estradas, pontes e redes de água e esgoto, assim como para expandir redes de banda larga a áreas rurais.

A Sociedade Civil Americana de Engenheiros deu uma nota “C menos” para a infraestrutura dos EUA e disse que o país precisa gastar US$ 2,8 trilhões nos próximos dez anos para atualizar suas estradas e ferrovias.

Embora alguns projetos tenham potencial para ganhar apoio republicano, Biden também quer usar o pacote para cumprir a meta do governo de eliminar as emissões de carbono do setor elétrico até 2035, o que será mais difícil de atrair apoio da oposição.

Expandir a construção de moradias sustentáveis e o acesso a transporte público para melhorar a igualdade racial são pontos que também poderiam ser impopulares para alguns republicanos.

Os gastos em infraestrutura – e os empregos criados por projetos de alto orçamento – gozam de alto apoio público, e alguns republicanos têm indicado que aprovariam um projeto de lei mais específico, cujo foco fossem estradas e redes de banda larga.

Mas esse apoio é comedido, já que eles também têm expressado preocupações sobre como o pacote seria custeado. Na campanha, Biden indicou que poderia financiá-lo com o aumento de impostos sobre empresas e os mais ricos, mas alguns em seu entorno dizem que ampliar o déficit permitiria ao governo avançar mais rápido.

Bill Galston, pesquisador sênior no centro de estudos Brookings Institution, que foi auxiliar de política interna do presidente Bill Clinton, disse que o governo Biden deveria considerar desmembrar o pacote de infraestrutura em uma série de projetos de lei menores, incluindo um dedicado unicamente ao acesso universal à banda larga, que tem apoio bipartidário.

Ele acredita que a experiência de ter levado a cabo o grande pacote de estímulos de US$ 1,9 trilhão sem apoio republicano poderia dar a alguns democratas a confiança de usar a mesma cartilha para a infraestrutura.

Galston disse que eles poderiam achar que, “se pensaram grande uma vez, podem fazê-lo de novo – e se tiverem que fazê-lo apenas com democratas, eles o farão”. Mas advertiu que eles “provavelmente deveriam pensar duas vezes” a esse respeito.

Democratas progressistas discordam e argumentam que o governo Biden seria ingênuo se estreitasse o alcance de suas ambições na infraestrutura, em especial as ligadas à igualdade racial e às mudanças climáticas.

Os democratas aprenderam duas lições importantes na Presidência de Barack Obama.

A primeira é que o pacote de estímulos de Obama em 2009 foi demasiado pequeno, o que serviu de catalisador para, desta vez, aprovarem um bem maior, de US$ 1,9 trilhão. A segunda é que não podem se permitir ficar esperando enquanto tentam conseguir os elusivos votos republicanos no Senado.

“Você não pode […] correr indefinidamente atrás dessa cenoura do bipartidarismo pendurada [à frente], se isso significar que vão se passar seis meses, ou um ano, ou um ano e meio, e que ainda assim o acordo acabará se desintegrando.”

Para a década que se seguiu à crise financeira de 2008/2009, muitos analistas apontavam que a política monetária se tornara a “única via possível”. Com os governos preocupados em reparar seus balanços patrimoniais enquanto as receitas de impostos desabavam depois da crise, sobrou para os bancos centrais a tarefa de tentar estimular a economia por meio de dinheiro barato e programas não convencionais de compra de ativos. O gigantesco pacote de estímulo aprovado nos EUA porá fim a esse regime. O alcance da mudança se estenderá para muito além das fronteiras dos EUA.

As últimas previsões da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são de que o programa de gastos do governo do presidente Joe Biden – que equivale a 8,5% da renda nacional dos EUA -, juntamente com a rápida implementação dos planos de vacinação, elevará a renda mundial em 1% neste ano.

A organização estima que o PIB global se expandirá em 5,6% neste ano. A previsão anterior, de dezembro, apontava alta de 4,2%.

Uma economia em expansão nos EUA significa que a demanda vai “se espalhar” para o resto do mundo, especialmente para seus vizinhos mais próximos (México e Canadá), assim como para as economias voltadas para a exportação no leste da Ásia e na Europa.

Para as economias avançadas, as implicações de um crescimento mais rápido nos EUA são quase inteiramente positivas – ao aumentar o potencial de exportações e encorajar o sentimento de “disposição ao risco” que impulsiona o investimento.

No entanto, um superaquecimento dos EUA – se a demanda maior por bens e serviços levar a restrições de capacidade e a uma inflação mais alta – poderia precipitar a elevação das taxas de juro em todo o mundo. Investidores apostam que o Fed (BC americano) ou será obrigado a aumentar as taxas de juro para deter a pressão inflacionária ou se sentirá à vontade para remover estímulos quando a economia retornar a algo próximo do pleno emprego.

Os membros do conselho do Banco Central Europeu já estão preocupados com a possibilidade de que isso possa elevar o custo do crédito – o que reduziria a eficácia de suas iniciativas de estímulo em uma região onde a política monetária continua a ser de longe a maior forma de estímulo.

Países mais pobres que enfrentam problemas para tomar crédito nas próprias moedas terão mais dificuldades para se ajustar. O aumento dos juros reverterá alguns dos fluxos de capital que têm financiado economias frágeis.

Cargas mais altas da dívida do setor público significam que para muitos países pobres o aumento das taxas se fará sentir tanto por déficits governamentais quanto em conta corrente. O aumento dos preços das commodities – empurrado pelas iniciativas de estímulos da China e dos EUA – ajudará os exportadores, mas será um problema a mais para os importadores.

Em última análise, porém, a combinação de políticas é um avanço com relação à dependência da política monetária do período pós-2008. Se a OCDE estiver certa sobre o impacto do programa de estímulo de Biden – e há boas razões para pensar que está -, uma economia americana mais forte ajudará a impulsionar a recuperação mundial. Isso seria ainda melhor se o mundo não tivesse mais que depender de apenas uma fonte de estímulo e outros países ricos fossem igualmente ambiciosos.

O déficit orçamentário dos EUA já ultrapassou US$ 1 trilhão no atual ano fiscal, antes mesmo de o pacote de estímulo de US$ 1,9 trilhão entrar em vigor.

Nos cinco primeiros meses do ano fiscal 2020-21, o déficit orçamentário do governo federal somou US$ 1,05 trilhão, um recorde, com os gastos para enfrentar a pandemia de covid subindo num ritmo muito acima do aumento na receita tributária. Segundo o Departamento do Tesouro, o déficit de outubro a fevereiro foi 68% maior do que o rombo registrado em igual período do ano anterior.

O Escritório de Orçamento do Congresso estima um déficit de US$ 2,3 trilhões neste ano fiscal, mas essa conta não inclui o custo do novo pacote aprovado.

Joe Biden avaliará um plano proposto por seus principais assessores de injetar aproximadamente US$ 3 trilhões em gastos governamentais adicionais na economia dos EUA para investimentos e infraestrutura, energia limpa e educação, disseram ontem duas pessoas familiarizadas com o assunto.

O respaldo fiscal adicional à recuperação dos EUA cumprirá as promessas feitas por Biden na eleição presidencial de 2020 de enfrentar algumas das principais deficiências estruturais que afligem a economia americana. Prevê-se que os efeitos fiscais do projeto serão parcialmente neutralizados por aumentos de impostos sobre famílias ricas e empresas americanas.

Se adotado, o plano representará o segundo estágio da ambiciosa agenda econômica de Biden, após o Congresso ter aprovado um plano de estímulo de US$ 1,9 trilhão para prestar alívio imediato a famílias durante a pandemia.

Nas últimas semanas, os assessores de Biden se concentraram nos planos de investimento em infraestrutura e educação, e deverão apresentar propostas mais detalhadas ao presidente nesta semana. Pessoas a par da questão disseram que Biden ainda não tomou decisão definitiva sobre nenhum ponto e que nada tinha sido efetivamente concluído.

“O presidente Biden e sua equipe estudam uma série de alternativas potenciais de como investir na classe trabalhadora e reformar nosso código fiscal de modo a que ele recompense o trabalho, não a riqueza”, disse a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. “Essa discussão continua, portanto qualquer especulação sobre propostas econômicas futuras é prematura e não reflete o pensamento da Casa Branca.”

Biden tinha dito anteriormente que queria apresentar seu pacote de investimentos de vários trilhões de dólares já em fevereiro, mas essa meta foi deixada de lado para que autoridades e parlamentares se concentraram em aprovar o pacote de estímulo contra a crise da covid-19 de US$ 1,9 trilhão.

Obter aprovação do Congresso para uma nova rodada de gastos enormes com maiorias estreitas dos democratas tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado pode ser ainda mais difícil do que foi no caso do pacote de estímulo.

Embora os republicanos do Congresso tenham várias vezes manifestado interesse em aprovar mais gastos em infraestrutura, eles resistem em subir impostos e outras iniciativas de gastos internos.

Durante a campanha presidencial, Biden propôs subir a alíquota de imposto da pessoa jurídica de 21% para 28%, e elevar os impostos das pessoas físicas que ganham mais de US$ 400 mil ao ano.

O jornal “The New York Times” informou em primeira mão que os assessores econômicos de Biden estavam próximos de apresentar ao presidente um plano de investimentos no valor de US$ 3 trilhões nesta semana, observando que eles estudam a possibilidade de dividi-lo em dois pacotes diferentes.

O primeiro para investimentos em infraestrutura tradicional e em energia limpa, enquanto o segundo seria focado em cuidados com a infância e educação, incluindo financiamento para universalizar a pré-escola e faculdades comunitárias gratuitas.

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