Finanças Comportamentais para Trabalhadores

Com finalidade didática, traduzi extratos do livro Behavioral Finance for Private Banking, publicado em plena crise financeira de 2008. Sua 2a. Edição foi lançada em 2018.

A 2ª. Edição deste livro se beneficia de percepções de novas áreas de pesquisa, como Finanças Culturais, Neurofinanças e Fintech. Porém, traduzi apenas pequenos extratos mais interessantes para a leitura complementar de meus alunos.

Complementei o aprendizado e a aplicação dos leitores sobre Finanças Comportamentais ao apresentar informações sobre a realidade atual das finanças familiares no Brasil. Para tanto, utilizei da análise comparativa da última Pesquisa de Orçamentos Familiares com as anteriores, realizada pelo meu ex-professor de Econometria no mestrado em Economia na UNICAMP: Rodolfo Hoffmann. 

Ele e a coautora Daniela Verzola Vaz deram especial ênfase à contribuição das parcelas da renda familiar não normalmente investigadas ou cuja estimação depende de aproximações na PNAD, como a renda não monetária, a variação patrimonial, as aposentadorias e pensões de funcionários públicos e as transferências de programas sociais federais. Conhecer a contribuição desses componentes para a desigualdade da renda pode amparar os professores de Educação Financeira para ajudar a elaboração de planos de mobilidade social para seus alunos: os trabalhadores brasileiros.

Fernando Nogueira da Costa – Finanças Comportamentais para Trabalhadores.

Para a inclusão social significar pleno acesso à cidadania financeira, será necessário massificar a Educação Financeira. Os cidadãos brasileiros, mesmo no caso da minoria com maiores níveis de escolaridade, não demonstram saber como fazer bom uso dos instrumentos bancários, tornados disponíveis para eles, seja no referente a endividamento, seja quanto aos investimentos financeiros.

A inclusão financeira está, praticamente, realizada no Brasil. Desde a primeira década do século XXI, com o barateamento do acesso bancário por meio de canais digitais e a vontade política de dirigentes dos bancos públicos, implementou-se uma política ativa no sentido de “bancarizar” os pobres sem-conta no Brasil.

Os números oficiais do Banco Central do Brasil confirmam. Dobrou a quantidade de adultos com relacionamento bancário: de 82 milhões em 2005 a 161 milhões em 2020, equivalente a 96,2% do total de adultos, público-alvo como clientela bancária. No caso, incluem até os moradores de zonas rurais com difícil acesso às agências bancárias urbanas.

Quando a quantidade de clientes é informada por instituição financeira a dúvida está entre a mentira, para a propaganda enganosa, ou o erro de informações por base de clientes”, isto é, todos os CPFs registrados por alguma operação bancária realizada em toda a história do banco de dados disponível. O total de clientes acumulado dessa forma alcança quase o triplo da população brasileira, contando inclusive as crianças!

Para essa inclusão social significar pleno acesso à cidadania financeira, será necessário massificar a Educação Financeira. Os cidadãos brasileiros, mesmo no caso da minoria com maiores níveis de escolaridade, não demonstram saber como fazer bom uso dos instrumentos bancários, tornados disponíveis para eles, seja no referente a endividamento, seja quanto aos investimentos financeiros.

Nesta apostila com finalidade didática, mostro as diferenças entre Finanças Comportamentais referentes à Economia de Mercado de Capitais à americana e à Economia de Endividamento Bancário à brasileira. Desde logo, lá nos United States, os investidores optam por acumulação de riqueza financeira através de compras-e-vendas de ações, ou seja, renda variável. Aqui, predomina renda fixa, remunerada por juros disparatados. 

Em uma, a especulação ao se associar às maiores corporações abertas no mundo pode levar ao enriquecimento. Em outra, a especulação em uma bolsa de valores mirrada leva a ciclos de boom-crash onde os pequenos investidores Pessoa Física, geralmente, empobrecem mais ainda.

Comprovo isso com fatos e dados recentes sobre o mercado de capitais brasileiro. Complemento a análise da acumulação de ativos com o exame da possibilidade de diminuição de passivos

Focalizo o endividamento dos consumidores brasileiros através do condenável sistema de pagamentos com cartões de crédito, impulsionador do caríssimo crédito rotativo. Seu modelo com um ilusório “período de graça” só é adotado no Brasil. Aqui, o custo de vida está acima do possível porque preços a prazo (com repasses de custos de comercialização maiores) são oferecidos como fossem preços à vista sem diferenciação.

A preferência popular brasileira, “para guardar dinheiro”, ainda é constituída por depósitos de poupança. A ANBIMA informa, em dezembro de 2020, existiam 105,5 milhões de contas no Varejo, dividindo-se 97 milhões (84%) no Varejo Tradicional e 8,5 milhões no Varejo de Alta Renda. 

Entretanto, ela contabilizava apenas as “cadernetas de poupança” com mais de R$ 100 de saldo médio, excluindo 89,115 milhões, e considerando 88,941 milhões de contas para não provocar muita distorção nos cálculos estatísticos. Assim, estas últimas tinham o saldo médio de R$ 10.709. As excluídas tinham em média R$ 15.

Uma questão-chave é o nível de escolaridade média de 9,5 anos na população brasileira. Quem tem renda abaixo da mediana (próxima de um salário mínimo de R$ 1.100) está abaixo desse tempo escolar. Apenas quem está entre os 10% mais ricos, ou seja, com renda acima de R$ 5.000, tem Ensino Superior, atingindo 16 anos ou mais de vida escolar se fizer pós-graduações. Quem ganha o rendimento médio do trabalho (R$ 2.300), tem os onze anos até o Ensino Médio Completo.

Daí a dúvida: o conhecimento de Finanças Comportamentais é fundamental para o investidor típico brasileiro de renda fixa? Só 3,2 milhões deles costumam selecionar carteira de ativos com renda variável à americana…

Talvez, inicialmente, a Neurofinanças pelo lado dos ativos deva ficar na espera e o Neuromarketing pelo lado dos passivos, isto é, dívidas para consumo, deva ser o conhecimento privilegiado. Aqui, o autocontrole no consumismo, para fazer poupança, parece ser o mais ajuizado ou prudente para ir acumulando riqueza financeira aos poucos de maneira a aproveitar as fases de elevação dos juros compostos para acumulação nominal mais rápida.

A PEIC-CNC, como analiso no último capítulo, apresenta uma séria distorção no cálculo das famílias endividadas e também na estimativa do tipo de dívida. Se 2/3 das famílias estavam endividadas em dezembro de 2020, e em número absoluto eram quase 11 milhões de famílias, por essa pesquisa o total delas é estimado em 16,5 milhões. 

Este número não é amostral, no entanto, é muito inferior ao número de domicílios pesquisados pelo IBGE no Brasil. Há cerca de 72 milhões famílias em uma população de 212 milhões pessoas.

O percentual de famílias de renda até 10 salários mínimos na amostra da PEIC-CNC com dívidas alcançou 67,7% em dezembro de 2020. Chama a atenção – e será objeto de discussão mais adiante – o tipo de dívida delas em ordem decrescente: cartão de crédito 80%, carnê de loja 18%, prestação de carro 11%, financiamento de casa 9%, crédito pessoal 9%, crédito consignado 5%, cheque especial 5%, cheque pré-datado 1%. Por uma família poder ter mais de um tipo de dívida, a soma desses percentuais alcança 138%.

Pelos dados oficiais do Banco Central do Brasil, o crédito consignado representa 36% e cartões de crédito 23% do crédito PF com recursos livres. Estes são 55% do total de crédito às Pessoas Físicas. O maior percentual desse saldo total é 32% do financiamento imobiliário, originado com recursos direcionados e juros “subsidiados”, isto é, abaixo das taxas de juros referente aos recursos livres.

Este é o “crédito bom”. A aquisição da própria moradia alivia, diretamente, os orçamentos domésticos em cerca de 1/3 – e garante um teto em tempo de desemprego. Com essa “sobra” do orçamento, o investidor consciente pode aumentar suas aplicações financeiras para manter seu padrão de vida durante a aposentadoria.

3 thoughts on “Finanças Comportamentais para Trabalhadores

  1. Bom dia Professor.
    Não consegui ter acesso ao livro, pois o site reporta um erro de link.
    Obrigado.

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