Vírus da Desindustrialização

Pedro Cafardo (Valor, 30/03/21) dá um sopro de esperança ao jornalismo econômico brasileiro por retomar os temas caros aos desenvolvimentistas.

É difícil neste momento desesperador fugir do tema da pandemia. Mas alguém precisa pensar em outro paciente moribundo no país, a indústria, atingida também por um poderoso vírus que vem destruindo sua capacidade de produção há décadas. Agora, a doença se agravou. A Ford, há um século no país, vai embora. A Mercedes suspende a produção de sua fábrica no Brasil. A Sony sai correndo de Manaus.

É o avanço da desindustrialização. Alguns analistas dizem se tratar de um processo mundial de transição da economia industrial para a de serviços. O processo existe, mas, no caso brasileiro, é acelerado e se dá antes de o país atingir a maturidade no setor.

Há pelo menos três décadas a indústria brasileira agoniza

A participação brasileira na indústria mundial, tendo chegado a 2,8% em 2005, recuou para 1,8% agora. E a indústria tem hoje participação no PIB nacional de 11% – tinha 17,8% em 2004 e 35% em meados dos anos 1980. Ou seja, há pelo menos três décadas a indústria brasileira agoniza, sem respiradores nem UTIs.

Esses números e outros abaixo mostram um processo de desindustrialização evidente. Embora a tragédia da pandemia dificulte raciocínios sobre futuro, a coluna colheu opiniões de dois grandes economistas desenvolvimentistas não submissos ao mercado financeiro e estudiosos da indústria. A pergunta foi: como reverter esse processo?

Para trás

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, professor da Unicamp e das Faculdades de Campinas, observa que a desindustrialização teve início na “década perdida” (1980), quando a crise da dívida e a hiperinflação impediram o setor de incorporar novas tecnologias da Terceira Revolução Industrial. A estabilização dos anos 1990 livrou a economia da hiperinflação, mas foi feita com a “combinação perversa de câmbio valorizado e juros estratosféricos”. As consequências foram graves para a indústria, que outra vez deixou de acompanhar transformações globais em várias áreas.

Nos anos 2000, com a expansão sino-americana e a demanda de commodities, a indústria brasileira “pegou uma beirada na festança global”, segundo Belluzzo. O superávit comercial da indústria subiu de US$ 29,8 bilhões em 2006 para US$ 48,7 bilhões em 2011. Em 2014, porém, esse resultado já havia involuído para US$ 63 bilhões de déficit. Em 2020, o resultado negativo foi de US$ 35,3 bilhões.

Agora um dado entristecedor, levantado e checado pelo economista Robinson Moraes, do Valor Data (ver gráfico). No fim dos anos 1970, produção e exportação de manufaturados brasileiros eram próximas ou superiores às de concorrentes asiáticos. Em 1980, o Brasil exportou US$ 9,028 bilhões em manufaturados, mais que a China, que vendeu US$ 8,712 bilhões. Hoje, a distância entre os dois países é estratosférica. O Brasil exportou, em 2020, US$ 60,7 bilhões em manufaturados, e a China, US$ 2,47 trilhões.

Belluzzo observa que o Brasil perdeu a corrida para a China por mérito do “adversário”, mas também por fatores internos, como valorização cambial, “reprimarização” da pauta de exportação, bloqueios à diversificação da estrutura industrial e permanência de uma organização empresarial defensiva e frágil.

O grave da situação atual, segundo ele, é que essa fragilização industrial ocorre em um momento de intenso movimento de fusões e aquisições das cadeias produtivas globais. Por isso, a política para a reindustrialização não pode hoje reproduzir as orientações do período dito nacional-desenvolvimentista e, muito menos, promover

abertura comercial sem uma política industrial e financeira ajustada aos tempos atuais. A literatura sobre processos de industrialização, diz Belluzzo, mostra a importância da ação do Estado no financiamento, na educação, na criação de sistemas de inovação e nas políticas comerciais. Essa foi a experiência de Alemanha, Japão, Coreia do Sul, China e EUA.

A manutenção do câmbio real competitivo é condição necessária, mas não suficiente. Precisa ser complementada por ações governamentais, como a escolha das cadeias prioritárias e a adoção de parcerias público-privadas. O salto tecnológico e de escala da indústria brasileira não vai ocorrer sem políticas que estimulem o mercado de capitais. A experiência histórica demonstra que isso exige a constituição de bancos universais de grande porte, regulados e supervisionados, capazes de desenvolver instrumentos financeiros para crédito de longo prazo.

Os sistemas financeiros que ajudaram a erguer os países asiáticos eram relativamente “primitivos” e especializados em dar crédito subsidiado e/ou barato a empresas e setores “escolhidos” como prioritários pelas políticas industriais. O circuito virtuoso ia do financiamento para o investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para exportações, daí para os lucros e dos lucros para a liquidação da dívida.

Políticas equivocadas

José Luís Oreiro, professor da UnB, considera que a reindustrialização exige o abandono de algumas políticas equivocadas [dogmas, acrescenta o articulista], como o desmonte do BNDES.

A questão da competitividade já está hoje mais ou menos resolvida com a desvalorização do real, mas, segundo Oreiro, há dois desafios. O primeiro é a recuperação da demanda, porque a renda caiu para níveis de 2013 e existe enorme capacidade ociosa. O segundo, a retomada de investimentos em máquinas e equipamentos, porque a indústria deixou de investir nesses anos de crise e ficou muito defasada tecnologicamente.

É necessário e honesto lembrar também que a indústria sofreu um baque com a Operação Lava-Jato. O combate à corrupção era necessário, mas as punições

deveriam atingir mais as pessoas e menos as empresas. Em 1945, após a rendição japonesa, o general Douglas MacArthur chamou o imperador Hirohito para conversar no QG americano. E o imperador, envergonhado, fez apenas um pedido: “General, peço que qualquer punição seja a mim, não ao Japão”.

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