Casta dos Sábios de Esquerda: Aqui-e-Agora ou no Futuro?

A hipótese testada e defendida no livro (clique para download de resumo traduzido) Thomas Piketty e outros. Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais (“Clivages Politique et Social Inequalities”, editado por Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, Seuil; abril de 2021) é no Ocidente desenvolvido (Estados Unidos e Europa), a estruturação do voto por classe social ter desaparecido. Nesse processo, a esquerda teria se tornado a opção preferencial dos graduados em Ensino Superior.

Na década de 1990, foram os partidos de centro-esquerda – democratas sob Clinton, trabalhistas sob Blair, sociais-democratas sob Schröder, socialistas franceses sob Mitterrand, tucanos sob FHC – aqueles mais adeptos de reformas destinadas a desregulamentar os mercados financeiro e de trabalho. Visavam liberar a circulação de capitais e flexibilizar a exploração da força do trabalho com corte de direitos conquistados socialmente. 

No Brasil, houve uma extraordinária perda pelo “pejotizado” de direitos trabalhistas:

  1. FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço); 
  2. adicionais noturnos, insalubridade e periculosidade;
  3. Previdência Social;
  4. descanso semanal remunerado;
  5. 13º. Salário;
  6. aviso prévio;
  7. férias;
  8. licença maternidade e estabilidade à gestante;
  9. pagamento de horas extras;
  10. acordos e normas coletivas;
  11. seguro-desemprego;
  12. multa rescisória por demissão sem justa causa.

Esses partidos de centro-esquerda passaram a ser vistos como “felizes pela globalização neoliberal”. Na França, os socialistas, decepcionados com as políticas neoliberais, adotadas após a vitória em 1981, buscaram uma nova identidade política. 

Encontraram-na no projeto da União Europeia com a moeda única, mas não levaram em conta as consequências desiguais de uma Europa unicamente centrada nas trocas de capitais e de bens. Teria sido necessário adotar medidas fiscais e sociais redistributivas, além de proteção do mercado de trabalho dos diversos países e capacitação digital de todos os trabalhadores. 

Essa armadilha neoliberal, tipo “canto da sereia”, propagado pela mídia dominante no mundo ocidental, em parte esteve ligado também ao fim do sonho do “comunismo” da URSS, em 1991, provocado pelas desilusões do Socialismo Realmente Existente (SOREX), totalitário e burocrático. Em contrapartida, muitos partidos socialdemocratas passaram a aceitar uma ideologia competitiva desenfreada, almejada pelos proprietários, para a exploração maior da força do trabalho em diversos mercados. 

Permanece o risco de destruir o serviço público ligado ao Estado de bem-estar. Para os franceses, por exemplo, funciona bem, com uma certa ética, e não gera lucros indevidos para os acionistas da mercantilização da medicina e da educação. 

Ao mesmo tempo, está na hora de agir, como propõe o Plano Biden, contra as isenções fiscais da FAAMG (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft, Google) e demais big-techs. Elas têm um poder global muito ameaçador sobre as liberdades individuais, inclusive com o conhecimento do comportamento político-eleitoral do público. Além disso, não pagam impostos em diversos países, apesar de estarem onipresentes – e oniscientes.

Para Piketty, a esquerda tem de propor novas regras europeias. Ela não tem de persistir em erros cometidos no passado.

A esquerda não pode mais se contentar em esperar a unanimidade dos países membros para avançar. Dessa maneira, fica refém dos partidos nativistas. Há países se apropriando de parte da base tributária de outros. 

Esses países atraem sedes de empresas por não tributarem seus lucros e muito menos as emissões de carbono. Provocam, indiretamente, déficit fiscal em outros países. Com isso, não os permite a adoção de uma tributação progressiva para estabelecer a Renda Básica Universal (RBU) como proteção social aos desocupados pela 4ª. Revolução Tecnológica. Essa visão universalista não teria nada a ver com o protecionismo nacionalista à la Trump. 

Por medo de desfazer a União Europeia seus partidos de centro-esquerda estão desistindo de suas ambições redistributivas, onde uns ganham, outros perdem. A não escolha representa a ameaça de desfazer o projeto histórico de constituir os Estados Unidos da Europa. Infelizmente, o atual modelo europeu trabalha em favor dos grupos econômicos mais ricos e beneficiários dos mercados integrados.

Historicamente, a ideia de emancipação popular foi imaginado ser por meio da educação. Isso explica, em parte, por qual razão os grupos sociais mais beneficiários com essa emancipação se voltarem contra ela. É uma atitude de “chutar a escada” para os de outras etnias não a subirem: muçulmanos, latinos, afrodescendentes, etc. 

Mas existe uma hipocrisia, especialmente na França: o financiamento da educação é extremamente desigual em seus destinos. A esquerda realmente não colocou “o dedo-na-ferida”. 

O governo francês gasta três vezes mais dinheiro por aluno em aulas preparatórias para a elite acessar as École des Hautes Etudes em lugar de Universidades públicas, onde os alunos vêm de camadas sociais menos favorecidas. Nas escolas primárias e secundárias, a mesma coisa: quanto mais essas escolas acolhem crianças socialmente favorecidas, maior é o salário médio por professor. Nelas, os professores são mais experientes. Há mais dedicação exclusiva ao ensino e menos trabalhadores temporários. 

A esquerda brâmane contribuiu para o movimento histórico de massificação do Ensino Médio e Superior, mas “descansou sobre os louros” da conquista. Esqueceu da igualdade no mundo real, onde o ingresso em castas de natureza ocupacional ainda está segregado para os formados com ensino de excelência. O desafio histórico, agora em todos os lugares, é o aumento geral da qualidade do ensino digital.

O risco político é as classes populares pararem de votar. Nesse caso, o eleitorado restante tornar-se-inteligência artificial o mais educado. Logo, os partidos adaptariam seus programas com políticas exclusivas para apelar a eles. Daí surge o dilema “o ovo e a galinha”, cuja saída é procurar soluções – e não atribuições e julgamentos de culpa. 

É problemático o futuro da esquerda se restringir ao eleitorado composto pelos graduados em Ensino Superior, jovens rebeldes, vítimas de misoginia, homofobia e racismo, como os discriminados negros, latinos e muçulmanos. A esquerda não representaria mais a classe de trabalhadores manuais – e apenas a dos trabalhadores intelectuais.  

Falta ainda um programa progressista, elaborado por cidadãos, jornalistas, economistas e intelectuais de esquerda. O colapso do seu pensamento se agravou após “a queda do Muro de Berlim”, em 1989, quando novos desafios relacionados à globalização e à massificação da educação com qualidade teriam exigido uma nova agenda igualitária. 

A esquerda parou de pensar em como mudar o modo de produção capitalista para um novo modo de vida capaz de não deixar marginalizados e desocupados em massa. Depois do choque atual, provocado pelo desemprego tecnológico advindo da 4ª. Revolução Tecnológica, a reconstrução intelectual demorará algum tempo. 

Esse processo começou, após a crise financeira de 2008, em torno de ideias de socialismo democrático, socialismo ecológico, socialismo feminista. Mas essa esquerda mais radical, indo a fundo nas lutas ecológicas, anti-sexistas, anti-racistas e anti-islamofobia, parece ter ficado órfã das classes populares desocupadas e sem capacitação profissional para satisfazer as exigências do futuro mercado de trabalho.

Para evitar isso, a esquerda tem de colocar a questão da redistribuição de renda e riqueza, ou seja, a igualdade em democracia da propriedade de volta ao centro do debate político. Não pode querer apenas reformar o sistema capitalista, seja para resolver os problemas climáticos, seja para eliminar as desigualdades ou a discriminação. Tem de chegar ao cerne da questão: a difusão da propriedade e a partilha de poder político entre todas as partes interessadas. 

Não basta atribuir novas missões socioambientais às empresas se o poder continuar nas mãos dos acionistas controladores. Ter apenas dois representantes de funcionários no Conselho de Administração em meio a dezesseis não leva a uma autogestão. Se fossem oito em dezesseis, eles podem fazer alianças com alguns dos acionistas. Podemos nos inspirar na cogestão alemã ou sueca para aprimorar esse modelo em direção, de fato, a uma verdadeira autogestão das empresas. 

O desencanto das classes populares com a esquerda é tão grande a ponto de muitos anos serem necessários para acabar com ele. Mas as alternativas não são muito mais sólidas: a direita governa muito mal. Então, o “bloco burguês” também está em uma situação instável e frágil, como mostrou a crise dos “coletes amarelos” na França. 

Com respeito à esquerda, cada uma de suas tendências (e seus líderes personalistas como eternos candidatos preferenciais) está presa à ideia de deter a verdade. Mas cada qual tem o dever de propor algo de modo a contribuir para o avanço do igualitarismo social. 

O desaparecimento da estrutura “classista” da política, muitas vezes em favor da identidade e das divisões raciais, diz respeito apenas ao Ocidente, porque durante esse tempo, as democracias no resto do mundo tendem a se desenvolver com base na classe social. Essa é uma das lições desse livro recém-lançado. 

Vemos esse fenômeno em países tão diversos como Nigéria, Tailândia, Brasil. No caso brasileiro, a base popular do PT encontra-se em todas as regiões, porém predomina como maioria nos estados mais pobres do Nordeste. 

Mesmo na Índia, onde o peso das religiões e castas permanece importante, é impressionante notar as classes populares hindu e muçulmana votarem nos mesmos partidos progressistas. Na Índia, os brâmanes votam na direita, como todas as classes privilegiadas!

Esta é uma lição para nós. Os desvios de identidade vistos na Europa ou nos Estados Unidos não são inevitáveis. Eles provavelmente são apenas transitórios. Porque as verdadeiras questões políticas são acima de tudo sociais e econômicas. 

Thomas Piketty acha uma boa notícia do livro vir dos países abaixo da linha do Equador (África e América do Sul), com fama de serem atravessados por indecifráveis correntes étnicas ou tribais. Neles, está em curso um processo de transformação do conflito político em termos de classes sociais: “nós” (pobres) contra “eles” (ricos). 

Será isso um sinal de avanço civilizatório ou ainda indica a permanência do atraso cultural e político em relação aos países ricos do Ocidente? Os países pobres sequer alcançaram a fase da massificação popular do Ensino Superior, a qual implica em votos de universitários “globalistas” (sic) na esquerda contra os “nativistas” da direita?

Publicado originalmente em:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/Casta-dos-sabios-de-esquerda-aqui-e-agora-ou-no-futuro-/7/50356

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