Decadência Brasileira Vergonhosa: BRIC virou RIC

Anaïs Fernandes e Álvaro Fagundes (Valor, 12/04/2021) avaliam: com o fim de ciclo de commodities, em setembro de 2011, um golpe semi-parlamentarista camuflado de impeachment “para os golpistas ficarem de consciência limpa”, duas Grandes Depressões (2015-16 e 2020), uma pandemia e o Brasil encerrou a década de 2011-2020 perdendo oito posições no ranking dos maiores PIBs per capita do mundo. Viu sua vantagem em relação aos demais emergentes derreter! Saiu do grupo de maiores emergentes, o BRIC…

É o reflexo de mais uma “década perdida” no país, apontam especialistas. Está retrocedendo como retrocedeu a Argentina, no passado, um país rico e, hoje, falido. O fenômeno de retrocesso histórico de país pode se repetir se o Brasil não só falhar em lidar com a questão pandêmica de curto-médio prazo, como também ignorar seus problemas endêmicos.

O Brasil iniciou a década passada na 77a posição entre os maiores PIBs per capita globais em paridade do poder de compra (PPC). Vergonhosamente, chegou a 2020 no 85o lugar, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicados na semana passada. O relatório traz informações de mais de 190 países.

Em 2020, o Brasil tinha um PIB per capita em PPC de US$ 14.140, contra US$ 15.394 em 2011. Naquele ano, o Brasil estava à frente da China . Ela encontrava-se na 110a posição, com US$ 9.627. O gigante asiático, porém, passou para 77o em 2020, com US$ 16.297.

O PIB per capita mede a relação entre o Produto Interno Bruto do país e sua população, enquanto o cálculo em PPC pondera os diferentes custos de vida entre as nações. Em 2020, o maior no mundo era o de Luxemburgo: US$ 111,9 mil.

Outros emergentes e pares latino-americanos continuaram atrás do Brasil após uma década, mas melhoraram suas colocações, como a Índia (141a para 128a), a Colômbia (92a para 88a) e o Paraguai (102a para 97a). Entre aqueles que já tinham uma posição superior ao Brasil e ampliaram a diferença, estão Coreia do Sul (37a para 27a) e Turquia (60a para 49a). No sentido oposto, perderam posições, mas se mantiveram acima do Brasil, a Argentina (53a para 64a) e o México (69a para 72a).

O resultado líquido desse sobe e desce dos países é que o Brasil viu sua vantagem em relação aos emergentes diminuir em dez anos. Em 2011, o PIB per capita desse grupo de nações equivalia a 58% do brasileiro. Esse número avançou para 77% em 2020 e deve chegar a 87% em 2026, de acordo com as projeções do FMI.

Em cinco anos, a previsão do Fundo é que o PIB per capita em PPC do Brasil continue perdendo espaço no ranking geral, caindo à 90a posição, para US$ 15.752. Nesse ritmo, o Brasil seria ultrapassado pela Colômbia, por exemplo, que alcançaria o 86o lugar. E a China aumentaria sua vantagem, indo à 69a posição.

A última década brasileira foi “um desastre”, resume Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs. Foi “outra década perdida”, diz ele, em referência aos anos 1980. “Perdemos duas das últimas quatro décadas e, se não acertar o passo, em vez de uma década, vai perder meio século”, afirma o economista, observando que, assim, seriam três “décadas perdidas” de cinco.

O Brasil entrou nos anos 2010 com alguma vantagem. O país sofreu menos que muitas nações após o choque da crise financeira global de 2008. Em 2010, por exemplo, cresceu 7,5%, embalado pelo ciclo favorável de commodities e por políticas anticíclicas. Adentrando mais a primeira metade da última década, porém, o Brasil enfrenta seus próprios fantasmas. Enquanto o país tropeçava, “o resto do mundo avançou”, diz Ramos, citando emergentes e a China. “O mundo desenvolvido não teve crescimento espetacular, mas foi positivo.”

Em parte, o país sentiu a queda internacional das commodities entre 2013 e 2015, aponta Adriano Laureno, economista-sênior da Prospectiva Consultoria. Mas esse é o tipo de choque externo que afeta emergentes como um todo, observa ele. “A questão é que o Brasil, com suas dificuldades domésticas, de baixa competitividade e investimento, instabilidade política e falta de horizonte para política econômica, acaba sentindo mais”, afirma.

Claudio Considera, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e coordenador do Núcleo de Contas Nacionais da instituição, atribui as dificuldades daquele momento a “erros de política econômica”. “Você tem uma recessão brutal de três anos e uma recuperação muito lenta depois”, afirma, lembrando que, após a recessão de 2014-2016, o país teve dificuldade para crescer muito além de 1%. “A queda do PIB per capita do Brasil tem a ver com os nossos erros”, diz Considera.

Agora, o Brasil entra em uma nova década com um cenário ainda mais desafiador, sofrendo com o recrudescimento da pandemia e os seus impactos presentes e futuros. O FMI projeta que o Brasil vai crescer 3,7% neste ano, mas Considera acha otimista. “A base de comparação é muito baixa e isso facilita, só que não vai, porque as pessoas não estão sendo vacinadas na velocidade necessária.”

Para Ramos, do Goldman Sachs, a questão pandêmica, em algum momento, será superada, com o avanço da vacina e da imunidade. “Outro problema, talvez mais sério de resolver, é o endêmico, de baixo crescimento, com baixa produtividade e baixos investimentos”, afirma. Nesse sentido, ele diz que números como os do FMI deveriam servir de “sinal de alerta” para o país. “O Brasil não é um país pobre, é um país pobremente manejado.”

Sair do atoleiro, segundo Ramos, não tem segredo. “Tem que ter uma inversão de marcha e fazer as reformas pendentes há anos. Não é nada de novo, não precisa perder muito tempo em reuniões e comitês, é integrar o Brasil à economia mundial, reduzir proteção comercial, fazer reformas administrativa, fiscal e tributária, investir mais, aumentar o capital humano. Já conhecemos a agenda há dez, 20 anos. A razão de ela ser a mesma é exatamente porque não avança. E o futuro será igual ao passado se não reformar”, afirma.

1 thought on “Decadência Brasileira Vergonhosa: BRIC virou RIC

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Mais grave que a perda de posição ante a China – e aqui falamos da produção individual, a coletiva chinesa é maior que a brasileira há tempos, mas também era menor no final dos anos 1970 – é a diminuição absoluta do PIB per capita brasileiro.
    Reprimarização e facilitação à exploração externa do nosso caixa e da nossa mão de obra estão entre os fatores que contribuíram para o retrocesso decenal.

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