Novo Consenso de Washington: de Neoliberal-Fiscalista a Desenvolvimentista-Crescimentista

Martin Sandbu (Financial Times 12/04/2021) publicou artigo com avaliação da mudança dos ares vindos da América do Norte. Os economistas neoliberais tupiniquins, vulgo PhDeuses, necessitam de uma radical reciclagem lá na matrizO neoliberalismo saiu de moda!

“Qualquer pessoa que, assim como eu, foi estudante na década de 90 vai se lembrar de como era descolado fazer manifestações contra as instituições de governança internacionais. Uma cena da qual não me esqueço é a de uma jovem carregando uma imagem de um monstrinho de três cabeças representando (conforme disse ela, compenetrada, à imprensa) o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) pilhando os pobres do mundo.

Fico imaginando o que ela pensaria hoje. Quando o panorama político exibido nas recentes reuniões do FMI e do Banco Mundial é comparado ao que despertava a ira de estudantes um quarto de século atrás, ele parece uma conversão que deixaria até Saulo de Tarso (o nome original de Paulo, um dos apóstolos de Jesus) envergonhado.

O Banco Mundial e o FMI foram duramente criticados, nas décadas de 80 e 90, por fazerem os pobres pagarem por serviços básicos de saúde e presumir que os déficits eram ruins para o crescimento. Isso há muito se foi. Eis o novo consenso de Washington:

Gaste muito com saúde pública. O equilíbrio fiscal por muito tempo muito foi o centro da receita do FMI (uma piada dizia que IMF, a sigla em inglês do Fundo, queria dizer “it’s mostly fiscal”, algo como “trata-se principalmente de uma questão fiscal”). Agora não se trata mais de conter o gasto público e sim de empregar bem o dinheiro – e gastar mais onde se extrai mais valor.

Isso significa fazer o que for preciso para produzir e entregar vacinas globalmente. A publicação “Fiscal Monitor”, do FMI, estima que controlar a pandemia em todas as partes do mundo “renderia mais de US$ 1 trilhão em receitas tributárias adicionais nas economias avançadas [de forma cumulativa] até 2025 e pouparia mais em medidas de apoio fiscal”.

Em outras palavras, o que os governos gastam com vacinas pode se pagar muitas vezes. O FMI defende ainda com veemência os gastos com educação, para compensar o tempo perdido de aprendizado na pandemia e ajudar os trabalhadores a lidarem com as mudanças estruturais que virão.

Os economistas de instituições multilaterais parecem estar muito tranquilos com as enormes despesas públicas dos países ricos. O FMI adota uma visão favorável ao gigantesco pacote de resgate de US$ 1,9 trilhão do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Assim como outros analistas, eles acreditam que a renda nacional dos EUA será maior no ano que vem do que o esperado antes da pandemia. E eles veem um estimulo insuficiente à demanda como algo que terá custos permanentes: os países cujos governos gastam menos dinheiro sofrerão mais “sequelas” que reduzirão o potencial produtivo de longo prazo.

Paralelamente, o FMI continua pregando prudência, mas isso significa algo muito diferente do apregoado uma década trás, quanto mais uma geração atrás. É impressionante o FMI estar apoiando “contribuições de recuperação” – o que outros chamam de sobretaxas temporárias de solidariedade – impostos sobre indivíduos ricos e lucros corporativos inesperados.

A mensagem dos antigos quartéis-generais do “neoliberalismo” é que, para tornar as finanças públicas sustentáveis, os ricos e aqueles que lucraram com a pandemia deveriam contribuir mais para a causa comum.

O FMI chegou até a sugerir que os países ricos poderiam considerar impostos sobre a riqueza, aparentemente ecoando os senadores esquerdistas americanos Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

As preocupações com a desigualdade estiveram em todo lugar nas reuniões recentes do Fundo e do Banco Mundial. O principal desafio de política que o FMI escolheu destacar foi o “gerenciamento de recuperações divergentes” – entre países e entre grupos dentro dos países – por causa da pandemia, e o novo normal à medida que as economias se recuperam dela.

Na década de 90, foi uma obviedade o Consenso de Washington ter refletido as prioridades alinhadas das duas Washingtons: das instituições internacionais baseadas na capital americana e do governo dos EUA. Este último conduziu o primeiro de forma significativa.

Esse alinhamento permanece. Pedidos multilaterais de um retorno do papel ativista do Estado coincidem com a ambição de Biden de imitar o New Deal de Franklin Roosevelt. Mas é difícil argumentar hoje que o FMI e o Banco Mundial simplesmente repetem as preferências dos EUA. A mudança de pensamento da comunidade internacional sobre políticas econômicas antecedeu essa do governo americano.

E as relações podem fluir nas duas direções. A Casa Branca não segue as direções das instituições multilaterais localizadas a poucas quadras na zona oeste da capital.

Mas Biden não sai prejudicado pelo fato de os guardiões globais da ortodoxia econômica terem apoiado o mais radical programa dos EUA em gerações, especialmente quando alguns americanos estão ocupados com fogo amigo.

Política é a arte do possível – mas o que é possível é sempre determinado pelo que é concebível. O novo consenso de Washington poderá se mostrar tão politicamente poderoso quando o velho.

1 thought on “Novo Consenso de Washington: de Neoliberal-Fiscalista a Desenvolvimentista-Crescimentista

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Ontem circulou nas redes sociais uma definição adequada do governo: ser antibolsonarista não é ser “petista”, mas dotado de bom senso. São essas pessoas, providas do senso de humanidade, que formam o consenso capaz de preservar a vida e ampliar o bem-estar geral da nação. Até os neoliberais mais convictos vão dando razão à realidade negada pelos atuais próceres da nossa República.
    Aos quais, o professor recomenda uma “uma radical reciclagem lá na matriz… [pois] o neoliberalismo saiu de moda!”

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