Dani Rodrik: Enfrentamento do “Fogo Amigo” de Economistas Midiáticos

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard, é autor de “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy”.  Ele enfrenta a crítica dos novos-keynesianos, tipo Lawrence Summers, às novas ideias do Plano Biden, inspiradas na MMT pós-keynesiana. Compartilho seu artigo (Valor, 12/04/21).

“O plano de infraestrutura de US$ 2 trilhões do presidente Joe Biden deverá ser um momento decisivo para a economia americana, sinalizando claramente que a Era Neoliberal, com sua crença de que os mercados funcionam melhor quando não sofrem interferências, ficou para trás. Mas embora o neoliberalismo possa estar morto, não está claro o que irá substituí-lo.

Os desafios que os Estados Unidos e outras economias avançadas enfrentam hoje são fundamentalmente diferentes daqueles das primeiras décadas do século XX. Aqueles desafios anteriores deram origem ao New Deal e ao Estado do bem-estar social. Os problemas atuais – as mudanças climáticas, a ruptura dos mercados de trabalho por causa das novas tecnologias e a hiperglobalização – exigem soluções novas.

Precisamos de uma nova visão econômica, e não de nostalgia, para uma era mitificada de prosperidade interna amplamente compartilhada e supremacia global fora do país.

Em relação às mudanças climáticas, o plano de Biden fica aquém do New Deal Verde defendido por democratas progressistas como a deputada Alexandria Ocasio- Cortez. Mas ele contém investimentos significativos em uma economia verde, como o apoio aos mercados na produção de veículos elétricos e outros programas para a redução das emissões de dióxido de carbono, fazendo dele o maior esforço federal já empreendido para conter os gases de efeito estufa.

Quando aos empregos, o plano almeja ampliar as oportunidades oferecendo bons salários e benefícios, concentrando-se também, além de na infraestrutura, no setor industrial e na crescente e essencial economia do cuidado (care economy).

Novas maneiras de pensar no papel do governo são tão importantes quanto novas prioridades. Muitos analistas enquadraram o plano de infraestrutura de Biden como um retorno ao governo grande.

Mas o pacote está espalhado por oito anos, aumentará os gastos públicos em apenas um ponto porcentual do PIB e está projetado para se pagar com o tempo. Um aumento dos investimentos públicos em infraestrutura, a transição verde e a criação de empregos são mais do que urgentes.

Mesmo que o plano não fosse nada mais que um grande esforço de investimentos públicos financiado por impostos sobre grandes corporações, ele faria muito bem para a economia dos EUA.page2image3722640

Mas o plano de Biden pode ser muito mais. Ele poderá basicamente transformar o papel do governo na economia e a maneira como esse papel é percebido.

O ceticismo tradicional sobre a função econômica do governo está enraizado na crença de que os mercados privados, movidos pelo lucro, são eficientes, enquanto os governos são esbanjadores. Mas os excessos dos mercados privados nas últimas décadas – a ascensão dos monopólios, os desatinos das finanças privadas, a concentração de renda extrema e o aumento da insegurança econômica – tiraram o brilho do setor privado.

Ao mesmo tempo, entende-se melhor hoje que numa economia complexa e caracterizada por tanta incerteza, regulamentações que vêm de cima para baixo não devem funcionar. Independentemente do domínio específico – a promoção das tecnologias verdes, o desenvolvimento de novos arranjos institucionais para os profissionais da assistência domiciliar, a intensificação das cadeias de fornecimento internas para a fabricação de produtos de alta tecnologia e a formação de programas bem-sucedidos de desenvolvimento de mão de obra -, a colaboração do governo com agentes não governamentais será essencial.

Em todas essas áreas, o governo terá de trabalhar com os mercados e as empresas privadas, além de outras partes interessadas como sindicatos e grupos comunitários. Novos modelos de governança serão necessários para assegurar que os objetivos públicos serão perseguidos com a participação plena dos agentes que têm conhecimento e capacidade para alcançá-los. O governo terá que se tornar um parceiro de confiança; e por sua vez terá que confiar em outros agentes sociais.

No passado, cada oscilação excessiva no equilíbrio Estado-mercado acabou levando a uma oscilação excessiva na direção oposta. O plano Biden poderá romper esse ciclo. Se for bem-sucedido, o exemplo que ele dará de mercados e governos agindo em complementaridade, e não como substitutos – demonstrando que cada um deles trabalha melhor quando o outro se esforça -, poderá ser seu legado mais importante e duradouro.

Quanto a isso, não ajuda nada ver o plano Biden como uma maneira de restabelecer a posição competitiva da América no mundo, especialmente levando-se em consideração a China. Infelizmente, o próprio Biden é culpado dessa visão. O pacote “nos colocará em posição de vencer a competição global com a China nos próximos anos”, afirmou ele recentemente.

Pode ser politicamente tentador vender o plano de infraestrutura desse jeito. Numa era anterior, o receio predominante de que os EUA estavam perdendo sua vantagem para a União Soviética nos mísseis balísticos e na corrida espacial, ajudou a catalisar uma mobilização tecnológica nacional.

Mas há muito menos motivos para semear e espalhar o medo hoje. O plano não deverá ter um grande apoio dos republicanos, dada a intensa polarização partidária. E isso desvia as atenções da iniciativa concreta: se o plano aumentar a renda e as oportunidades para os americanos comuns, como deverá, sua implementação valerá a pena, independentemente dos efeitos sobre a condição geopolítica da América.

Além disso, economia e corrida armamentista são coisas diferentes. Uma forte recuperação da economia dos EUA não deve ser uma ameaça para a China, assim como o crescimento econômico chinês não precisa ameaçar a América.

A definição de Biden é danosa por transformar a boa economia em casa em instrumento de políticas externas agressivas e de soma zero. Poderemos culpar a China se ela apertar as restrições às corporações americanas como uma medida defensiva ao plano de Biden?

O plano poderá transformar os EUA e dar um exemplo importante a ser seguido por outros países desenvolvidos. Mas para atingir seu potencial, ele precisa evitar dicotomias equivocadas do Estado contra o mercado e alegorias ultrapassadas de uma Guerra Fria. Somente deixando para trás modelos do passado ele poderá traçar uma nova visão para o futuro.”

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