Fundamentos da Felicidade: Prefácio de Vernon Smith

O tema onipresente da Felicidade não foi tão bem tratado em parte alguma como em apenas cinco capítulos compactados deste livro. Junto com dezenas de outros, os coautores – Lall Ramrattan e Michael Szenberg – do livro Fundamentals of Happiness: An Economic Perspective (Edward Elgar Online, abril de 2021) fazem um ótimo trabalho ao incluir o que meu estudioso favorito tinha a dizer: Adam Smith, em The Theory of Moral Sentiments (1759).

Minha edição preferida de Dugald Stewart tem um subtítulo magnífico: Um ensaio para uma análise dos princípios pelos quais os homens julgam naturalmente a respeito da conduta e do caráter, primeiro de seus vizinhos e depois de si mesmos. A isso ele acrescenta (modestamente, garanto-lhe): Uma dissertação sobre as origens das línguas. Nova edição. Com uma memória biográfica e crítica do autor, de Dugald Stewart (Londres: Henry G. Bohn, 1853). Este Prefácio me dá uma desculpa para embelezar um pouco a discussão.

A palavra “felicidade” aparece 156 vezes na edição de Stewart, incluindo as memórias de Stewart de Adam Smith. Em que consiste a felicidade? Muito simplesmente, acredito, é ser amado e amável. Mas se não tivermos autenticidade, não pode haver amor, alegria ou propósito.

Em Smith, a felicidade humana surge da consciência de ser amado. Mas suas fontes não são devidas a mudanças repentinas de fortuna. “É mais feliz quem avança gradualmente para a grandeza”, com o público (nossos amigos, vizinhos) ciente de cada passo no processo de realização, e “em quem, por causa disso, quando chega, não pode despertar nenhuma alegria extravagante, e em relação a quem não pode razoavelmente criar qualquer ciúme naqueles ultrapassados ou qualquer inveja naqueles deixados para trás” (p. 56).

O reconhecimento perspicaz de Smith da assimetria fundamental entre nossa alegria e nossa tristeza, entre ganho e perda, está no contexto da felicidade: “O que pode ser adicionado à felicidade do homem com saúde, sem dívidas e com uma consciência limpa? Quaisquer acessos de sucesso são apropriadamente supérfluos, pois se ele é muito elevado, por causa deles, deve ser o efeito da mais frívola leviandade” (p. 62).

A esse estado de tranquilidade pouco pode ser adicionado, mas muito pode ser tirado dele. Medido deste estado até “o ponto mais alto da prosperidade humana, o intervalo é apenas uma ninharia; entre ela e a profundidade mais baixa da miséria, a distância é imensa e prodigiosa. A adversidade, por isso, necessariamente deprime a mente do sofredor muito mais abaixo de seu estado natural, do possível de a prosperidade elevá-lo acima dele”.

Outros acham difícil simpatizar com uma profunda tristeza da pessoa, mas pode completamente ‘entrar em sua alegria’, e ‘é por causa disso, embora nossa simpatia pela tristeza seja frequentemente uma sensação mais pungente em lugar da nossa simpatia pela alegria, sempre fica muito aquém da violência daquilo naturalmente sentido pela pessoa em questão” (p. 63).

Como diz o provérbio, todo homem pode realmente ser o mundo inteiro para si mesmo, mas, para todos os outros, ele é uma parte minúscula e insignificante dele. Sua felicidade pode ser de muito maior importância para ele em vez de ser para todo o mundo além, mas para todos os outros ele não tem maior importância em lugar de qualquer outra pessoa: 

“ainda assim, ele não ousa olhar a humanidade de frente e confessar estar a agir de acordo com este princípio. . . Quando ele se vê à luz da qual tem consciência de como os outros o verão, ele vê, para as demais pessoas, ele ser apenas um na multidão, em nenhum aspecto melhor se comparado a qualquer outro nela. Se ele agir de forma um espectador imparcial possa entrar nos princípios de sua conduta, aquilo com o maior desejo de fazer, ele deve, nesta, como em todas as outras ocasiões, humilhar a arrogância de seu amor-próprio, e reduzi-lo a algo com o qual outros homens possam concordar. . . Na corrida pela riqueza, honras e preferências, ele pode correr o mais possível – e tensionar cada nervo e cada músculo, a fim de superar todos os seus concorrentes. Mas se ele empurrar ou derrubar qualquer um deles, a indulgência dos espectadores estará inteiramente interrompida. É uma violação do fair play, e isso eles não podem admitir. Este homem é para eles, em todos os aspectos, tão bom quanto ele: eles não entram naquele amor-próprio, pelo qual ele se prefere tanto a este outro, e não podem concordar com o motivo pelo qual o magoou. Eles prontamente, portanto, simpatizam com o ressentimento natural dos feridos, e o ofensor se torna o objeto de seu ódio e indignação”. (pp. 119-120)

Nas passagens acima e em proposições em outras partes de seu primeiro livro publicado, Smith explica a sociabilidade humana; suas origens, estrutura de regras e sucesso das espécies. O primeiro livro de Smith, The History of Astronomy, foi publicado postumamente em 1795, junto com outros ensaios, mas foi escrito no início da década de 1750.

O que essa sabedoria é transportada para sua muito mais conhecida, magnum opus? Adam Smith (1776), Um Inquérito Sobre A Natureza E As Causas Da Riqueza Das Nações, editado com uma introdução, notas, resumo marginal e um Index Ampliado por Edwin Cannan, 2 volumes (Londres: Methuen, 1904).

Nada é transmitido explicitamente. Em nenhum lugar, entre as capas e contracapas do primeiro e de seu segundo livro, Smith cita, conecta ou constrói sobre a estrutura social das regras seguidas, as quais ele deriva tão elegantemente em seu primeiro livro. Ao contrário de hoje, quando citamos nós próprios, livre e generosamente, para Smith isso era apenas vaidade, má forma.

No entanto, por trás de todas as passagens mais famosas de seu segundo livro, esconde-se o espectro de sua sabedoria no primeiro. Por exemplo: “Todo homem, se não violar as Leis da Justiça, é deixado perfeitamente livre para perseguir seus próprios interesses do seu próprio jeito” (Vol. 2, p. 184). Significativamente, na literatura secundária, tais passagens são rotineiramente interpretadas como significando Smith estar comprometido com o individualismo na busca desenfreada do interesse próprio.

O cerne da tese de Smith era a tendência natural dos humanos voltar-se para o interesse próprio (ou em termos modernos, cuidar de si mesmo) resulta em prosperidade. Smith argumentou, ao dar a todos a liberdade de produzir e trocar bens como quiserem (livre-comércio) e abrir os mercados à concorrência interna e externa, o interesse próprio natural das pessoas promoveria maior prosperidade em lugar de adotar regulamentações governamentais rigorosas ‘(https: //www.investopedia.com/updates/adam-smith-wealth-of-nations).

Mas, a partir da leitura de seu primeiro livro, percebemos por qual razão a cláusula condicional “desde que ele não viole as Leis da Justiça” transmitiu a substância de sua mensagem. Da mesma forma, a frase estranha e não examinada “persiga seus próprios interesses do seu próprio jeito”. Não é de se admirar, quando as pessoas redescobriram seu segundo livro, isso lançou a grande diversão conhecida como “O Problema de Adam Smith”, onde os principais historiadores do pensamento econômico revelaram sua total incapacidade de ler e compreender seu primeiro livro.

Finalmente, sobre a América, acredito ser onde encontramos suas melhores ideias: 

“os governantes da Grã-Bretanha, por mais de um século, divertiram as pessoas com a imaginação de possuírem um grande império no lado oeste do Atlântico. Esse império, no entanto, existia apenas na imaginação dos monarcas ingleses. Até então não era um império, mas o projeto de um império; não era uma mina de ouro, mas o projeto de uma mina de ouro; um projeto com elevado custo, e ainda continua a custar, e se continuar a ser executado da mesma forma como foi até agora, provavelmente custará imensas despesas, sem ser provável dar qualquer lucro. O pouco efeito do monopólio do comércio da colônia foi demonstrado [ver vol. 2, pp. 91§136]. Seus resultados são, para a grande parte do povo, mera perda em vez de lucro. Certamente agora é a hora de nossos governantes realizarem este sonho dourado, no qual eles têm se entregado, talvez, assim como o povo; ou, eles mesmos deveriam despertar disso, e se esforçar para despertar o povo. Se o projeto não pode ser concluído, deve ser abandonado” (Vol. 2, pp. 432‒433).

Nossos irmãos no Reino Unido, por fim, seguiram esse conselho de um de seus cidadãos mais leais, embora dissidente.

Vernon L. Smith

Professor de Economia e Direito

Presidente da Fundação George L. Argyros em Finanças e Economia do Instituto de Ciências Econômicas da Chapman University

Prêmio Nobel de Economia de 2002

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