Real: Moeda mais Descolada de Commodities

Felipe Saturnino e Marcelo Osakabe (30/04/21) informam: a pandemia interrompeu um comportamento padrão da economia global: a tendência das moedas de países exportadores de commodities se valorizarem acompanhando a alta dos preços das matérias-primas no mercado. Desde o início da crise da covid-19, houve um claro descasamento entre as divisas ligadas a essas mercadorias e o recente “boom” desses produtos, algo verificável tanto entre os países desenvolvidos quanto os emergentes.

Dentro desse último grupo, o real se destaca negativamente: a moeda brasileira mais se descolou das cotações das commodities, de acordo com estudo do Itaú Unibanco.

De acordo com a instituição financeira, a crise do coronavírus interrompeu o movimento sincronizado entre commodities e moedas de exportadores, tendo gerado, por um lado, restrições temporárias de oferta. E, de outro, afetando a perspectiva de crescimento e o fundamento fiscal dos países, que passaram a depender cada vez mais da evolução da pandemia e do cenário de vacinação.

O levantamento considerou as divisas cujos desempenhos estão amplamente relacionados aos insumos básicos, as chamadas “commodity currencies”, que incluem ainda o peso chileno, o peso colombiano, o rand sul-africano e o rublo russo, entre os emergentes, e o dólar canadense e o dólar australiano, entre os desenvolvidos.

O Itaú estimou o descolamento dessas sete divisas em comparação a um índice de preços de commodities específico ajustado pela pauta exportadora de cada país. No caso do Brasil, o índice empregado utilizou preços internacionais da soja, minério de ferro, petróleo e milho, ponderados pelos seus respectivos pesos na receita com exportações. Para o Chile, por outro lado, utilizou-se apenas o cobre, principal produto de exportação do país.

Enquanto os preços de matérias-primas, medidos pelo Commodity Research Bureau (CRB), tiveram alta de aproximadamente 25% em relação a março do ano passado, as moedas de commodities emergentes depreciaram em torno de 7%. Já as divisas de desenvolvidos apreciaram 10%, mostra o estudo.

Uma conta simples aponta para um descolamento na ponta de 47% entre as moedas emergentes e de 19% entre os desenvolvidos, indicando potencial de apreciação dessas moedas.

Nos cálculos do banco, o real está cerca de 55% desalinhado das cotações dessas mercadorias no exterior, considerando a média de seu valor entre março e abril deste ano. Isso significa que a divisa é, de longe, a mais divergente em relação aos preços das matérias-primas. No distante segundo lugar, vêm rand e peso chileno, com um desvio de cerca de 32%, nas contas do banco.

O Itaú ressalta, no entanto, que tanto o peso quanto o rand têm apreciado na margem e já voltaram aos patamares observados no pré- crise. “O real é o único que ainda não apresentou tendência expressiva de apreciação, mesmo com toda a alta de commodities”, avaliam os profissionais.

Um dos fatores que explicam o descolamento é o fato de que, no ano passado, restrições causadas pela pandemia acabaram reduzindo a produção de alguns produtos, em especial, os minérios de ferro e cobre. “Uma vez que a restrição de oferta atingiu mais esses dois, acredito que esse fator tenha prejudicado mais o real e o peso chileno”, diz Gottlieb, uma das autoras do estudo.

Os profissionais observam que o descasamento está associado ao indicador de risco-país, que engloba os fundamentos da política fiscal, os efeitos da crise sanitária e a perspectiva de recuperação das economias.

No caso do Brasil, o risco elevado decorre do aumento considerável do endividamento nos últimos anos e também da própria dinâmica da pandemia e suas consequências econômicas e sociais. Elas tornam não desprezível o risco de flexibilização adicional do regime fiscal do teto de gastos, segundo economistas ideológicos de O Mercado.

Se é verdade o risco fiscal do Brasil permanecer elevado, o aumento da taxa Selic e a perspectiva de recorde de exportações (favorecida pelos preços elevados de commodities) devem dar alguma sustentação para a moeda adiante.

Ainda sendo insuficiente para eliminar o descolamento em relação aos preços globais de commodities, tal alta deve ajudar a evitar uma trajetória de forte depreciação, como a observada no último ano. Projetam ligeira subida da taxa de câmbio em relação aos patamares atuais, para R$ 5,30 por dólar no final do ano.

A tendência de médio prazo é de uma diminuição do descasamento do real em comparação às matérias-primas. Para 2022 a perspectiva da instituição financeira é que a moeda volte a se depreciar. O cenário externo vai se tornar um pouco menos benigno, com toda essa discussão sobre o início da alta de juros do Fed, mesmo que ele não eleve a taxa já no próximo ano. Essa pressão deve bater na moeda. O Itaú projeta taxa de câmbio a R$ 5,60 por dólar ao fim do ano que vem.

O estudo também aborda o impacto que a alta da Selic pode ter em relação à diferença entre a balança comercial física e a contratada, ou a receita dos exportadores em dólares contra o que efetivamente eles trouxeram ao país. Nos últimos anos, esses agentes têm optado por manter parte de suas receitas no exterior – em 2020, essa diferença chegou a US$ 30 bilhões – tal fato acaba reduzindo o impacto das exportações sobre o câmbio no Brasil. Os autores estimam que uma alta do juro básico para 5,50% – cenário-base do Itaú, faria essa diferença cair para US$ 17 bilhões, desde que risco-país se mantivesse estável, perto dos 200 pontos.

A Selic nas mínimas históricas foi o principal fator que explica o real descolar do comportamento mais geral das commodities. Nesse sentido, a normalização da política monetária pelo BC deve reduzir esse efeito. A parte fiscal impacta no risco-país, e nada pode avançar ainda neste governo. Nesse biênio, a maior contribuição pode ser dada pelo Copom.

O avanço da vacinação no país pode contribuir nesse sentido. No entanto, depois da vacinação em massa e passada a crise, a gente vai ter que lidar com as mazelas que a crise vai deixar para o Brasil. Nesse sentido, isso impede uma apreciação muito forte do real.

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