Sem commodities, Ibovespa estaria em queda de 15%

Lucas Hirata e Olívia Bulla (Valor, 11/05/2021) informam: cada vez mais próxima de retomar suas máximas históricas, a bolsa brasileira tem contado com um importante aliado nos últimos meses: o persistente rali das commodities. O Ibovespa acumula alta de 1,33% em seu valor de mercado em 2021, mas registraria queda de 15,43% se fossem excluídas as empresas que produzem metais, proteína, papel e celulose. Excetuando-se apenas as commodities metálicas e petróleo, o recuo seria de 3,33%.

“Se tirar as commodities, o Ibovespa cai muito”, afirma a analista de renda variável da ARX, Marcela Morais. Para ela, é justamente o desempenho das commodities negociadas no exterior e o impacto desse rali nas ações de exportadoras brasileiras que têm segurado a bolsa, mantendo o índice no intervalo entre 110 mil e 120 mil pontos.

Na segunda-feira, o Ibovespa fechou em leve queda de 0,11%, aos 121.909 pontos. Apesar do leve ajuste, o índice está a menos de 3% de superar o recorde de 125 mil pontos, atingido em janeiro de 2021.

O que está por trás desse avanço é o cenário de retomada da economia global, com injeção de estímulos nos países desenvolvidos, em um mundo de juros historicamente baixos. Tudo isso significa uma demanda mais aquecida, que se soma, ainda, à restrição de oferta de algumas commodities, como minério de ferro.

Apesar de um certo ceticismo de parte do mercado sobre os rumos das matérias- primas, analistas afirmam não é a hora de ir contra a maré e zerar as posições em exportadoras listadas na bolsa brasileira. Para eles, existe espaço adicional para valorização ao longo deste ano, por mais que os temas no mercado possam mudar aqui no Brasil.

As ações ligadas a commodities devem continuar com um bom desempenho. São ações para segurar na carteira. O momento está muito favorável para commodities.

O Mercado sempre vende falso otimismo e diz: o mundo está entrando “em uma das primeiras etapas da recuperação econômica” e tem grandes chances de viver um novo superciclo de commodities. O que justifica essa visão é a retomada da atividade, após parada brusca por causa da pandemia, em um ambiente de juros baixos e chegada de novas tecnologias inclusive voltadas para uma economia mais “verde”.

Todo esse cenário favorece algumas empresas brasileiras. A Vale, por exemplo, produz minério de ferro de maior concentração e, portanto, menos poluente – algo que tem sido mais demandado na China. Além disso, o preço de suas ações ainda opera com desconto em relação aos pares globais, o que tende a ser destravado conforme a empresa conclui suas pendências relacionadas à tragédia de Brumadinho (MG). Já as siderúrgicas se beneficiam de preços mais altos do aço em meio a cortes de produção na China.

Os resultados recordes da Vale no primeiro trimestre mostram bem esse efeito. E não só em termos absolutos. As margens de lucro também são as mais altas dos últimos anos. Descontados os custos de produção, a empresa ficou com 63% das vendas no primeiro trimestre, ou R$ 43,9 bilhões. No mesmo período do ano passado, sobraram 39%, ou R$ 12 bilhões.

Esse volume de recursos encheu o caixa da empresa – R$ 73 bilhões no fim de março, ante R$ 19 bilhões no ano anterior – e levou a ação para o topo, descolada de seus pares do Ibovespa. O valor de mercado, R$ 606 bilhões pelo fechamento de ontem, é 90% maior que o da Petrobras, a segunda no ranking.

A visão otimista de médio prazo sobre as commodities não leva em conta a desaceleração da “velha economia” da China nos próximos seis a nove meses. O petróleo e o minério de ferro não estarão em um mercado altista secular nos próximos anos.

Em relação ao cobre, mesmo se a demanda chinesa pautada pela “agenda verde” aumentar 25% até meados do ano que vem, o consumo mundial do metal diminuirá de 3,8% em 2020 para 2,7% nos próximos 12 meses, devido ao encolhimento da indústria tradicional da China. A demanda por cobre por causa da descarbonização da energia ainda é muito pequena para compensar a desaceleração da ‘velha economia’.

Haveria queda do Ibovespa sem as commodities, mas se trocar as ações pelos balanços, a amostra de empresas expurgada das grandes exportadoras tem vendas e lucro operacional menores em 2020, é fato, mas com crescimento de 5,2% e 4%, respectivamente, em relação a 2019. Para um ano de pandemia, é uma prova de resiliência.

Os quatro maiores bancos S.A. – Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil (BB) – de capital aberto chegam ao fim da temporada de balanços do primeiro trimestre com valorização na bolsa em relação aos patamares registrados antes dos resultados. De 28 de abril, quando o Santander deu largada nas divulgações, até 07/05/21, o valor de mercado somado dessas instituições subiu de R$ 691 bilhões para R$ 706 bilhões – alta de 2,19%, em linha com o Ibovespa (2,22%).

No entanto, gestores e analistas ainda permanecem cautelosos com o rumo das ações de bancos, diante de efeitos da pandemia que ainda podem aparecer e do aumento da competição.

Os desafios do setor financeiro são maiores agora em lugar do período anterior à crise do coronavírus. Segundo a falsa visão de analista de O Mercado, “a competição aumentou, com o surgimento de aplicativos mais eficientes. O lado regulatório mudou e agora atua a favor dessa concorrência, colocando em vigência o Pix e o open banking. A diferença é que o crédito também piorou nesse cenário pós-crise.[?!] Então, o setor como um todo têm fundamentos piores“.

Nos últimos anos, os bancos têm perdido espaço no portfólio dos investidores, e o valor de mercado das instituições ainda não voltou aos patamares pré-pandêmicos do começo de 2020. De acordo com o Valor Data, os quatro bancos juntos respondiam por R$ 956 bilhões no início do ano passado – o que representa uma queda de 26,2% de lá para cá.

Nesse processo, o Itaú perdeu, no ano passado, a segunda colocação dentre as empresas mais valiosas do Ibovespa e agora está na terceira posição, atrás de Vale e Petrobras. Já o Bradesco continua na quinta colocação do “top 5”, completado por Ambev em quarto.

Além de fatores estruturais, também há a percepção de a crise da covid-19 ainda pode afetar os balanços – embora haja, inclusive nos bancos, uma expectativa positiva com o avanço da vacinação e a reabertura da economia.

Os números de inadimplência no início deste ano ainda não mostram os efeitos da restrição da atividade. Ela aumentou na virada do primeiro para o segundo trimestre. Por isso, já é esperada uma piora do indicador na próxima safra de divulgações, embora os executivos das instituições financeiras tenham afirmado que não será nada catastrófico. Espera-se uma deterioração, mas houve uma provisão forte no ano passado e os bancos estão com cobertura robusta.

O ambiente é bem diferente do observado nos Estados Unidos, onde os bancos já começaram a reverter provisões com a retomada da economia. As perdas no crédito não se converteram no que havia sido provisionado. Os estímulos do governo lá ajudaram os bancos. Eles tiveram resultados muito bons também por causa da atividade forte do mercado de capitais, no caso, os negócios com ações e renda fixa nos EUA.

No Brasil, os bancos também estão muito mais provisionados em vez do necessário até agora, mas a economia continua patinando e a vacinação é lenta. Por isso, nenhuma instituição fala em desfazer essas reservas. Se o país crescer, os bancos podem ter desempenho melhor pelo canal de crédito e de mercado de capitais.

No primeiro trimestre, enquanto o Santander superou expectativas e Banco do Brasil surpreendeu em um período marcado por incerteza política, o Itaú desapontou em algumas métricas e Bradesco teve um resultado mais neutro, conforme analistas.

As units do Santander subiram 4,02% do dia 28 até a sexta. No mesmo período, as ações preferenciais do Itaú tiveram alta de 2,26% enquanto as PN de Bradesco avançaram 3,17% e as ordinárias, 2,49%. O Banco do Brasil teve forte reação ao balanço divulgado e conseguiu anotar ganho acumulado de 0,57%.

O cenário é desafiador no longo prazo, por causa da competição digital, mas favorável no curto prazo. O setor deve se beneficiar da reabertura econômica, tanto pela perspectiva do aumento do crédito quanto de aperto da Selic.

Ainda assim, as incertezas ainda pesam e parte do mercado acredita as instituições financeiras não deverem retomar tão cedo a liderança das maiores empresas do Ibovespa em valor de mercado. Alardeiam, falsamente, “o ataque das fintechs tem se tornado mais forte, o que afeta a receita com serviços dos bancos tradicionais e aumenta incertezas sobre o patamar sustentável do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês). Isso deixa o mercado mais reticente com compra estrutural das ações, mesmo considerando uma futura melhora do crescimento”.

Por isso, há quem considere que as ações do setor estão caras. “Os bancos brasileiros têm prêmio de duas a três vezes em relação ao patrimônio líquido, mas a rentabilidade não justifica ser mais caro”. Compara: “é difícil achar” algum banco europeu que não seja negociado com desconto de patrimônio líquido. Segundo o analista, a avaliação sobre as instituições financeiras vem piorando desde o fim do ano passado, quando os preços das ações estavam mais baixos.

Como resultado, isso tende a reduzir o peso da participação dos bancões no Ibovespa. “A fatia dos bancos tradicionais no PIB do país vai cair e isso tende a influenciar o Ibovespa, com os [bancos] pequenos e digitais ganhando espaço e o índice representando mais a economia real”. Os especuladores apelam a falsos fundamentos para ganhar com a alta das ações compradas por eles!

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