Daniel Kahneman: ruído inconsciente influencia decisões

‘Ruído’ inconsciente influencia decisões… Afeta o canal de comunicações?

Tim Harford (Financial Times 10/05/2021) entrevistou Daniel Kahneman.

Era para almoçarmos enquanto conversávamos por vídeo. Mas, quanto exibo o meu prato de paella na frente da câmera, Daniel Kahneman solta a bomba. “Já almocei”. Constrangedor.

Um almoço pelo Zoom nunca foi uma perspectiva muito apetitosa e, talvez, tenha sido demais esperar que Kahneman entrasse na onda. Ele tem, afinal, 87 anos, é vencedor do Nobel de Economia (apesar de ser psicólogo) e, graças ao sucesso de seu livro “Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar” (ed. Objetiva), de 2011, é imensamente mais famoso que a maioria dos colegas que também ganharam o Nobel. Em nome da formalidade, peço para que descreva o seu almoço.

“Bem, comi salada de sashimi e [bolinhos] shumai de um restaurante, e, para ser absolutamente preciso, comi uma maçã assada, que eu mesmo assei.” Ele levanta o queixo, de forma desafiadora, então, sorri travessamente. “E esse foi meu almoço. Foi bom. Não excepcional, mas foi bom.”

Deslizo minha paella para o lado; estou até um pouco aliviado. Um almoço com câmeras pela internet prometia ser cognitivamente tão complicado quanto da vez em que o “Financial Times” me pediu para entrevistar Steven Levitt, coautor de “Freakeconomics”, enquanto perdia para ele no pôquer, ou ensinar a Michael Lewis, biógrafo de Kahneman, um jogo de tabuleiro enquanto o entrevistava sobre “A Jogada do Século”. Kahneman vira o jogo e me pergunta se gosto do desafio de fazer malabarismo com entrevistas e tarefas desse tipo. De repente, surge um leve sinal do psicoterapeuta que há nele, reforçado por seu sotaque levemente israelense, que se percebe mesmo após décadas morando na América do Norte.

A vida e a carreira de Kahneman desafiam resumos. Ele nasceu quando sua mãe visitava Tel Aviv, em 1934; sua família morava em Paris e, como judeus, passaram a guerra fugindo, salvando-se por pouco do Terceiro Reich. Seu pai morreu em 1944, de causas naturais, e sua família se mudou para Jerusalém em 1946.

Kahneman formou-se psicólogo e tornou-se, nas palavras de Lewis, “um entendedor espetacularmente original do erro humano”. Ele teve uma parceria intensa, produtiva e intelectualmente tempestuosa com Amos Tversky. Os dois trabalharam em estudos sobre capacidade de juízo, tomada de decisões e risco, lançando as bases para o que ficou conhecido como “economia comportamental” – e para o Nobel de Kahneman, em 2002, concedido depois da morte precoce de Tversky.

Desde então, a sua fama só fez crescer, em parte porque a economia comportamental foi ficando cada vez mais na moda, em parte porque seu trabalho caminhou para outro campo popular, a psicologia do bem-estar. Mas, principalmente, como resultado do sucesso de vendas de “Rápido e Devagar”.

Conto a ele que, graças ao livro, já tive uma refeição brilhantemente memorável “em sua companhia”. Há alguns anos, em viagem a negócios, encontrei uma mesa para uma pessoa numa cervejaria em Munique, para ler “Rápido e Devagar”, enquanto bebia duas cervejas excelentes e permitia-me excessos nas salsichas e na salada de batatas. Foi uma daquelas vezes em que você se vê tomando uma nota mental de que está tendo um ótimo momento.

Kahneman parece deleitar-se. “Vou interpretar isso como um elogio, que eu tenha suplementado a comida.”

O livro descreve o “Sistema 1” e o “Sistema 2” da mente. O Sistema 1 é intuitivo, flui sem esforço, enquanto o Sistema 2 exige esforço e cálculos conscientes, deliberados.

Pergunto por que o livro foi um fenômeno editorial tão grande. Kahneman dá crédito a seu editor e também à forma como o argumento do livro foi retratado desde o começo, com dois tipos de pensamento descritos como se fossem minúsculos agentes de tomada de decisões dentro do cérebro de cada pessoa.

“Isso é atraente em dois aspectos. Corresponde a uma experiência que as pessoas têm, a de que alguns pensamentos surgem para elas, e [a de que] outros pensamentos elas produzem. E a ideia de apresentar isso como agentes.”

Kahneman admite que essa forma de apresentação viola as tradições da psicologia acadêmica: supõe-se que não se deveria recorrer a homenzinhos dentro do cérebro. É apenas uma metáfora, mas alguns psicólogos profissionais a odeiam. “E as pessoas que não gostam disso se sentem livres para desprezá-la.”

Mas Kahneman credita o sucesso de “Rápido e Devagar” principalmente ao acaso. Algumas vezes um livro decola e sua popularidade se torna autoalimentada. A situação poderia facilmente ter sido diferente. É uma opinião modesta, mas nos leva direto ao seu novo livro, “Noise” (ruído, em inglês), escrito em conjunto com Olivier Sibony, professor de administração de empresas e ex-sócio da McKinsey, e com Cass Sunstein, professor de direito, coautor de “Nudge: Como Tomar Melhores Decisões Sobre Saúde, Dinheiro e Felicidade” (ed. Objetiva), e que fez parte dos governos Obama e, agora, de Biden.

Kahneman passou boa parte da vida estudando vieses ou tendências cognitivas na tomada de decisões, mas há outra fonte de erro, o ruído. Se você imaginar flechas sendo disparadas contra um alvo de papel, a tendência se dá quando, por exemplo,

elas se cravam mais para baixo do ponto central. O ruído seria uma tendência para que os disparos desviarem em qualquer direção, de forma puramente aleatória. Em certos aspectos, o ruído é mais fácil de detectar. Você pode mensurá-lo a partir da parte de trás do alvo, sem nem saber onde está o centro. Ainda assim, o ruído é frequentemente negligenciado.

Do ponto de vista de um cientista social, essa desatenção é compreensível. A tendência parece ser o aspecto a ser observado, enquanto o ruído é a névoa que obscurece sua visão. Métodos experimentais são elaborados para remover o ruído e permitir que a tendência seja mensurada mais claramente.

O ruído, porém, não é meramente um obstáculo à investigação científica: também tem efeitos no mundo real. Kahneman e seus colegas citam seguradoras, juízes, responsáveis por casos de guarda infantil, recrutadores, analista de patentes e cientistas forenses. Todos eles, efetivamente ao acaso, agem de forma variável entre um profissional e outro, e entre situações diferentes. Não se trata de um problema a ser desprezado. Então, por que prestamos tão pouca atenção ao ruído e tanta atenção à tendência?

O problema, segundo Kahneman, é que pensamos de forma causal, sobre casos individuais. Você pode observar tendências em um caso individual, mas para observar o ruído, é preciso mensurar – ou pelo menos imaginar – múltiplos casos desdobrando-se de diferentes formas.

Pergunto se podemos reduzir o ruído. Certamente, diz ele. “Há uma medicação para o ruído. Digo, se você tirar a média de muitos juízos, o ruído diminuirá […] se os juízos forem independentes. Isso é certo.”

Mas ter uma segunda e uma terceira opiniões sai caro. E nós frequentemente suprimimos de forma inconsciente o ruído. “As pessoas preferem que suas fontes de informação tenham alta correlação. Assim, todas as mensagens que você recebe são coerentes entre si e você se sente confortável.”

Por exemplo, quando professores corrigem testes dos alunos, eles frequentemente deixam que o desempenho do estudante na primeira questão influencie o seu juízo sobre a resposta da segundo e da terceiro. Kahneman recomenda um procedimento diferente.

“Leia uma pergunta em todas as provas e escreva a nota no verso para não vê-la quando for ler a segunda pergunta”, explica. “O mais surpreendente é como você fica menos satisfeito quando faz do jeito certo.” Avaliar cada questão separadamente dá um ponto de vista mais justo sobre o desempenho geral do estudante – mas as incoerências nas notas são desconcertantes.

Tinha ouvido histórias de como o processo para escrever “Rápido e Devagar” foi agonizante e interminável, então me divertia ao tentar imaginar como foi a colaboração entre Kahneman e o absurdamente prolífico Sunstein, que escreveu quase 50 livros. “Minha imagem é a da tartaruga e da lebre algemadas uma à outra”, digo a Kahneman. Como funcionou isso?

“Meu primeiro pensamento foi o de que Cass iria simplesmente escrever o livro”, diz. Ele olha de relance para os lados e dá um largo sorriso. “Mas, então, acabou sendo que eu não podia deixar Cass escrever o livro, porque sou muito lento. Encontramos outro jeito de colaborar.”

“Há muita simpatia entre nós três”, diz. “E, então, nos divertimos juntos. Foi divertido trabalhar nesse livro, enquanto escrever ‘Rápido e Devagar’ foi uma experiência muito solitária.”

Kahneman ficou viúvo com a morte da psicóloga Anne Treisman, três anos atrás, mas agora não parece ser um homem solitário. É difícil ter certeza com o uso do Zoom, na distância de 4.800 km entre Oxford e Nova York, mas o personagem à minha frente na tela parece muito diferente da pessoa descrita em “O Projeto Desfazer”, de Lewis, que era depressiva, insegura e carente. Lewis retrata a decantada colaboração de Kahneman com Tversky como um verdadeiro caso de amor intelectual, cheio de ataques de raiva, inveja e de reconciliações arrebatadoras. A relação tempestuosa ficou distante, e depois se encerrou abruptamente com a morte de Tversky, de câncer, em 1996.

Tversky é o John Lennon para o Paul McCartney de Kahneman: o relacionamento entre eles muitas vezes parecia maior do que qualquer um dos dois por si sós. Mas Tversky não foi o único parceiro acadêmico de Kahneman. “Tudo o que fiz, na verdade, foi em colaboração [com alguém.]”

É verdade. A parte de sua obra que mais conheço é a adjacente à economia, inclusive com Richard Thaler e Angus Deaton; cada um deles ganhou subsequentemente um prêmio Nobel. Digo-lhe que ele tem bom gosto em termos de economistas. “Alan Krueger estava entre os melhores entre eles”, acrescentou.

Eu ia perguntar-lhe sobre Krueger. Ele foi um economista enormemente respeitado que trabalhou com Kahneman como parte do que Kahneman denomina “o time dos sonhos”, ao estudar bem-estar, felicidade, sofrimento e dor. Ele se matou dois anos atrás, uma perda que abalou o círculo profissional.

É difícil não se perguntar qual seria a ligação entre o interesse de Krueger pela felicidade e pelo sofrimento e a tragédia.

“Não tenho a menor ideia”, diz Kahneman, balançando a cabeça. “Acho que estar intelectualmente interessado pelo bem-estar não tem muito impacto sobre o bem- estar pessoal, de uma forma ou de outra.”

Apesar de tudo, atualmente Kahneman parece feliz e cheio de energia. Conheci-o dez anos atrás, em Londres, e ele estava sofrendo considerável desconforto com problemas de coluna. Ele até parece mais jovem agora. A covid-19 não deprimiu seu moral.

“Nunca tive medo. Isso simplesmente não era preocupação. Além disso, trabalhar no livro se revelou mais prazeroso. Portanto, tive uma boa experiência, e passei um bom ano.”

Sibony e Kahneman vinham voando entre Nova York e Paris para se encontrar para passar dias de trabalho concentrados no livro. “Mas quando veio a covid, mudamos para o Zoom por uma ou duas horas ao dia, e isso foi imensamente mais produtivo. Poderíamos não ter terminado o livro se não fosse o vírus.”

Peço-lhe dicas de produtividade com o uso do Zoom, mas ele desconversa: não tem nenhum conselho sobre o Zoom a dar.

Pressiono-o, em vez disso, por uma opinião sobre vacinas e sobre o risco de coágulos sanguíneos, como pessoa que passou toda a vida pensando como o ser humano reage a pequenos riscos. Será que os efeitos colaterais das vacinas nos preocupam demais?

“É um exemplo padrão, penso, de uma característica muito geral do modo de pensar das pessoas. É uma diferença entre o que é normal e natural e o que é artificial e provocado pelo homem. As assimetrias são enormes.”

Outro exemplo, diz, é o automóvel autônomo, que terá de ser enormemente mais seguro do que os motoristas humanos. “Isso é quase sem limites. Eles têm de estar muito perto da perfeição.”

Como as vacinas, sugiro. “Sim. A ideia de alguém morrer em decorrência de uma vacina é, na verdade, quase intolerável. A ideia de alguém morrer de uma doença…”, ele encolhe os ombros, e ergue uma sobrancelha só. “Isso é natural. É o mundo.”

“Rápido e Devagar” e “Noise” foram embalados para parecerem irmãos, mas há uma diferença óbvia: “Rápido e Devagar” se baseava em uma vida de pesquisa e o “Noise”, não. Eu estava em dúvida como levantar essa questão, mas não foi preciso.

“O livro ‘Noise’ é prematuro, como você sabe”, diz Kahneman. “Se eu tivesse 20 anos menos, não seria isso o que eu teria feito. Tendo identificado o problema do ruído, eu teria começado o programa de pesquisa sobre ruído e dado palestras sobre isso, pensado sobre isso e escrito artigos sobre isso. Mas comecei isso muito tarde. Comecei em meus oitenta e tantos, e você simplesmente não tem tempo. Este, falando sério, é um livro prematuro demais. E revela isso.”

Ele faz essa avaliação melancólica de uma maneira alegre. Parece entusiasmado com a perspectiva de que livros melhores sobre o assunto serão escritos no futuro, satisfeito por ter feito uma contribuição enquanto pôde e conformado com o fato de que, aos 87 anos, sua história não pode continuar para sempre.

Reconheço que sinto agora Kahneman como um guru, em certa medida, para mim, ou, mais precisamente, um provedor de conhecimento prático, alguém que posso procurar em busca de alguma luz. Não é que um dia desses, eu caminhava no parque com minha filha, na tentativa de ajudá-la a pensar todos os aspectos para tomar uma decisão difícil, e me peguei me perguntando o que Kahneman diria sobre o problema? Ele contorce o rosto diante da ideia.

“Não é como eu sinto. Eu realmente não me sinto um guru.”

Mas eu o pressiono em torno da questão. Certa vez entrevistei Gary Becker, outro ganhador do prêmio Nobel e um economista muito influente. Mas Becker não é quem me vem à cabeça para me ajudar a pensar bem antes de tomar decisões difíceis.

“Acho isso muito lisonjeiro e muito surpreendente, porque subjetivamente muitas dessas coisas que eu digo parecem muito óbvias e banais, e eu torço para não estar entediando as pessoas. Estou lisonjeado, obrigado. E constrangido.”

Havia uma hora e meia que estávamos conversando. A tarde estava bem avançada em Manhattan; em Oxford, o sol estava se pondo. Mas a conversa não tinha um fim natural. Não vieram um café expresso, balas de hortelã, uma conta. (Pressiono Kahneman para nos mandar o recibo, mas sei muito bem que ele não o fará.)

Diante disso, ficamos na expectativa de quando poderemos voltar a nos encontrar cara a cara. Kahneman escreveu certa vez: “O viés do otimismo pode ser talvez o viés cognitivo mais importante”. Mesmo assim: apesar da pandemia, da distância, de sua idade e de sua agenda movimentada, é fácil de imaginar compartilhar com ele um almoço na verdadeira acepção da palavra. Mas por outro lado, meu Sistema 1 sempre foi um sujeito otimista.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s