Vitória da Esquerda no Chile

Marsílea Gombata (Valor, 18/05/21) informa: os partidos antes dominantes se revezaram no poder desde a redemocratização no Chile. Eles foram os principais derrotados na eleição dos membros da Assembleia Constituinte no fim de semana. A votação foi um castigo contra a direita no governo, mas também contra a centro-esquerda. Ela sai enfraquecida.

A coligação Vamos pelo Chile, formada por partidos de direita que apoiam o presidente Sebastián Piñera, ficou com 37 assentos. A centro-esquerda conquistou 25 cadeiras na Constituinte. A esquerda ficou com 28 assentos, e independentes, 65 assentos. Os independentes são de diferentes correntes políticas, fora dos partidos tradicionais, e muitos não estavam organizados em listas.

Assim, a direita não terá um terço mais um necessário – 52 cadeiras – para bloquear mudanças que estarão na Constituição que substituirá a Carta de 1980, herdada do regime de Augusto Pinochet. Esta é a primeira vez que a direita ficará impedida de barrar reformas, em parte devido ao maior efeito da reforma eleitoral de 2017. Historicamente, a tendência era haver dois deputados de cada distrito – um de direita e um de centro-esquerda. A reforma instituiu sistema proporcional que levou partidos menores a conseguir maior representação.

“O resultado mostra que a política tradicional sai derrotada, e o voto antiestablishment, vitorioso. A votação foi um castigo à direita no governo e à centro- esquerda tradicional, que sai enfraquecida”, diz Leandro Lima, da consultoria Control Risks. “Foi um ponto de inflexão, com os dois principais atores da política chilena em baixa.”

O sociólogo Tomas Undurraga, lembra que a Constituinte é fruto da convulsão social no Chile, que pedia por mudanças profundas na provisão de serviços, a favor do bem-estar da população e da redução da desigualdade. Isso explica o rechaço à política tradicional.

“Não podemos nos esquecer que a Constituinte nasce desse cansaço com a política tradicional, uma reação à classe política, que acaba agora castigada nas urnas. Foi um voto contrário à coligação do governo, mas também à Concertación de Michelle Bachelet, Ricardo Lagos, Eduardo Frei”, diz. “Isso explica por que independentes e a esquerda não tradicional se saíram melhor do que se esperava.”

A principal mensagem é o fracasso da política dicotômica que se instalou no Chile depois da ditadura. “O sistema político forçava o binominalismo. Mas isso explodiu e vemos agora a ascensão de independentes, ambientalistas, culturalismo e outras minorias que estavam marginalizadas.”

Esse desencanto com a classe política tradicional se refletiu também nas outras três votações do fim de semana, para vereador, prefeito e governador. “Perderam prefeituras importantes, como a da comuna de Santiago, que será governada por Iraci Hassler, do Partido Comunista”, diz Cecilia Osorio, da Universidade Alberto Hurtado. “Fenômeno semelhante aconteceu em Viña del Mar, tradicionalmente governada pela direita e que terá como prefeita Macarena Ripamonti, do Partido Revolução Democrática, um Podemos chileno.”

Ainda não está claro se a centro-esquerda se unirá à direita na Constituinte para bloquear mudanças radicais na nova Carta.

“A centro-esquerda é mais próxima da política tradicional chilena e tem uma postura mais pró-business do que a coligação de esquerda Frente Ampla. Pode funcionar como fiel da balança e se opor a medidas radicais que comprometam investimentos no longo prazo. Mas também estará pressionada a atender demandas populares que eclodiram nos protestos de 2019. Estará dividida entre a pressão popular e a postura tradicional centrista.”

O mercado reagiu com preocupação ao resultado das eleições. O Ipsa, principal índice da Bolsa de Valores de Santiago, chegou a cair 9,33% ontem, maior queda desde março de 2020, quando a pandemia estourou.

O peso chileno também teve forte queda frente ao dólar. A moeda americana chegou a 721,08 pesos e recuou para 716,99 pesos por dólar. Isso representa um aumento de 2,34% em relação a sexta-feira, segundo o “La Tercera”. Trata-se da maior alta diária desde 18 de junho de 2020.

“O medo é que o Estado precise inchar mais do que o razoável para atender demandas sociais”, diz um neoliberal. Os principais pontos de preocupação são a nacionalização de setores como o de mineração de cobre e subsídios para transporte, combustíveis e aposentadorias.

Para o banco Goldman Sachs, a expectativa agora é a nova Constituição chilena validar um Estado mais intervencionista. “Isso aumentaria a pressão sobre a já deteriorada dinâmica fiscal e de dívida do Chile, assim como possível mudança de políticas e instituições até agora favoráveis ao investimento”.

Apesar do maior espaço para mudanças estruturais, não se espera uma Constituição radical. “A experiência comparada mostra que dificilmente se buscará um modelo partindo do zero ou oposto ao anterior”.

O medo de o Chile mudar radicalmente é infundado. “Continuamos um sistema capitalista, um Estado de direito, uma democracia. Há coisas que não mudarão. Não estamos falando de revolução comunista, mas respeitar minorias, equidade, maximizar bem comum e não interesses particulares.”

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