Grande Depressão Inflacionária

Lu Aiko Otta e Fabio Graner (Valor, 19/05/21) informam: mesmo após uma década de baixo crescimento econômico e com a atividade impactada pela pandemia, o Brasil encontra-se no momento sob risco de escassez de energia elétrica e alta no preço. O risco hidrológico foi apontado pelo secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, como um elemento que pode elevar a inflação e atrapalhar a recuperação da economia e soma a outros riscos para este ano, como a pandemia e a própria questão fiscal.

“Significa que temos um problema não só conjuntural de chuvas, mas também estrutural que precisa ser endereçado”, disse. Esse quadro reforça a importância da agenda de concessões, privatizações e aprovação de marcos legais mais eficientes, argumentou o secretário.

Em momento quando se debatem, no mundo inteiro, estratégias para reativar a atividade no pós-pandemia, a incompetente equipe econômica reafirma a estratégia imbecil de insistir na consolidação fiscal e nas reformas pró-mercado, como faz o governo de Jair Bolsonaro. “Essa é a nossa garantia que um choque transitório será apenas transitório e que poderemos retomar o patamar pré-crise de maneira sustentável”, repete a ladainha neoliberal.

Segundo o secretário, há um debate sobre a possibilidade de a economia se recuperar naturalmente após a crise. As experiências analisadas pela Secretaria de Política Econômica (SPE) mostram que, “infelizmente”, isso não ocorre. Trata-se, portanto, de um desafio de política econômica.

Ele exibiu gráficos mostrando que após as recessões desde os anos 1980 a economia brasileira não foi capaz de retomar a trajetória que percorria antes da crise. Ou seja, foram choques com efeitos permanentes. Na atual recessão, disse, a economia está perto de retomar seu patamar pré-crise.

A consolidação fiscal ajuda a criar um ambiente propício ao investimento, pontuou. O bom momento da economia deve ser aproveitado para avançar com a agenda de reformas.

Sachsida destacou duas áreas que vão merecer atenção do governo: mercado de capitais e medidas trabalhistas. Ele não entrou em detalhes, mas o governo está finalizando propostas para alterar 15 pontos na legislação dos mercados de títulos. Também está em elaboração o programa Bônus de Inclusão Produtiva (BIP), de capacitação de trabalhadores.

Entre as reformas cuja aprovação é esperada para este ano, o secretário listou a tributária e a administrativa, além da medida provisória (MP) que autoriza a privatização da Eletrobras.

Além desses, oito projetos de lei: o que altera a forma de exploração no pré-sal de partilha para concessão; o que altera o marco das concessões da Parcerias Público- Privadas (PPPs); o que altera as regras das debêntures de infraestrutura; o que permite a construção de ferrovias por meio de autorizações; o que trata das licenças ambientais; o que regula a navegação de cabotagem; e o que altera a legislação de câmbio.

Este ano será marcado pelas concessões e privatizações, afirmou o secretário. Estão previstos 117 leilões, entre eles os da Eletrobras e dos Correios, que ainda dependem de autorização do Congresso. Também estão na lista 16 arrendamentos portuários, 24 aeroportos, sete trechos rodoviários, quatro ferrovias. A conta é reforçada com 22 ativos de Estados e municípios, como o leilão da Cedae e dos serviços de água e esgoto do Acre, do Amapá e de Porto Alegre.

O secretário ressaltou ainda os efeitos da redução unilateral de 10% nas tarifas de importação de 1.495 produtos. A medida é importante para a agenda de produtividade e merecia ter recebido maior destaque, afirmou.

A pressão de commodities deve ser a maior vilã da inflação em 2021 e, não fosse o choque vindo do aumento das cotações de matérias-primas, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) poderia terminar o ano sem ultrapassar o teto da meta, de 5,25%. A avaliação é do Itaú Unibanco, que projeta alta de 5,3% para o indicador oficial de inflação no ano corrente.

Do desvio de 1,6 ponto percentual em relação ao alvo central definido para o ano, de 3,75%, 1,9 ponto será explicado pela valorização das commodities, estima a economista Julia Passabom. A magnitude prevista para o estouro da meta é 0,3 ponto inferior porque outros componentes serão desinflacionários e acabam mitigando parte pequena desse impacto, nota Julia.

A análise é semelhante a um exercício feito pelo Banco Central. No Relatório de Inflação do primeiro trimestre de cada ano, a autoridade monetária usa uma decomposição alternativa para explicar quais motivos levaram o IPCA a ficar abaixo ou acima da meta estipulada para o ano anterior. Para 2020, por exemplo, quando o índice subiu 4,52% – 0,5 ponto acima da meta de 4% -, o BC calcula que o maior responsável pelo desvio foi o choque de alimentos, com contribuição de 1,65 ponto.

No modelo do Itaú, as influências sobre o IPCA de cada ano são separadas em inércia e expectativas inflacionárias, hiato do produto (uma medida do nível de ociosidade na economia), câmbio e commodities. Depois de excluídos todos estes fatores, a parcela de desvio do indicador ante a meta que não consegue ser explicada por nenhum deles é considerada um “resíduo”.

Em 2020 e 2021, os maiores “vilões” inflacionários têm características em comum. Enquanto, no ano passado, a “inflação importada”, que soma o efeito de commodities e repasse cambial, respondeu por 3,1 pontos do IPCA, neste ano, a contribuição somada dos dois é estimada em 2,7 pontos.

Em 2020, porém, a depreciação do real teve impacto inflacionário preponderante (2,5 pontos). Já neste ano, o aumento da cotação das matérias-primas ganhou protagonismo, enquanto o efeito do câmbio deve cair a 0,8 ponto, calcula a economista.

“Há um pouco de impacto inflacionário da depreciação do câmbio, mas a maior parte vem de commodities, principalmente do petróleo, que subiu bastante no começo do ano, e das commodities agrícolas”, aponta Julia.

Segundo o economista, o Itaú não vê o movimento atual como um novo “superciclo” de matérias-primas, uma vez que, com crescimento mais fraco da China daqui em diante, abaixo de dois dígitos, não haverá uma demanda sustentada do gigante asiático por esses itens como a observada no período de 2002 a 2011.

Na conjuntura atual, segundo Julia, as cotações de commodities agrícolas foram afetadas por problemas climáticos, que diminuíram as safras num momento de estoques mundiais de grãos em nível baixo. No caso do petróleo, também há gargalos de oferta que explicam os aumentos de preços, sobretudo no começo do ano, acrescenta ela.

“E isso ocorre num momento em que há reabertura maior da economia no mundo, com controle maior da pandemia. Por isso os mercados estão mostrando comportamento um pouco parecido”, comentou. De qualquer forma, destaca a economista, a dinâmica atual favorece preços mais elevados de bens básicos no curto prazo, o que acaba chegando na inflação ao consumidor.

No primeiro trimestre, observa ela, os combustíveis para veículos puxaram a aceleração da inflação, ao aumentarem quase 22% dentro do IPCA, refletindo os reajustes efetuados pela Petrobras nas refinarias.

Daqui para frente, tendo em vista a relativa estabilização das cotações do petróleo e o nível menos depreciado da taxa de câmbio, os preços de combustíveis devem “andar de lado”, mas não vão devolver toda a alta já observada ao longo do ano, afirma Julia. Por isso, serão importantes vetores de aceleração para a inflação anual. No cenário do Itaú, os preços administrados vão subir quase 8% em 2021, vindo de 2,6% em 2020.

“Por trás dessa alta, a gasolina deve subir cerca de 15%, e a parte de energia elétrica também vai pressionar mais a inflação do que o previsto anteriormente, porque agora prevemos que a bandeira tarifária vai terminar o ano em vermelha patamar 1”, explica a economista.

Outro impacto relevante das commodities sobre os preços ao consumidor ocorre via alimentos. Devido à surpresa para cima com a trajetória das matérias-primas, o Itaú elevou recentemente a projeção para a alta de alimentação no domicílio neste ano, de 6% a 9%. Segundo Julia, o IPCA vai subir de 0,31% em abril para 0,70% em maio, pressionado pelo aumento das contas de luz e também por alimentos mais caros, reflexo da alta de grãos como soja e milho.

“Teremos mais um ano de inflação de alimentos forte”, aponta a economista, para quem as altas maiores devem se concentrar nas proteínas. Ela ressalta, por outro lado, que o mercado de trabalho fraco e a redução das transferências de renda governamentais deixam o ambiente menos favorável a repasses. Em seus cálculos, o hiato do produto terá contribuição de baixa no IPCA em 2021, de -1,4 ponto.

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