Luto da Nação e Comemoração do Genocida

João Luiz Rosa (Valor, 20/05/21) avalia: com mais de 440 mil brasileiros mortos pela covid-19 desde o início da pandemia, não são apenas as famílias das vítimas que precisam enterrar seus mortos. O Brasil também deve contar as perdas simbólicas e viver o luto, diz o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira, professor livre-docente de psicopatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Precisamos fazer o luto de tudo que aconteceu no país: de como encaramos a pandemia, de nossa atitude mental e de solidariedade, de nossa postura científica, política.”

O processo de luto não é apenas individual, explica Pereira. “Existe o luto coletivo. E esses são momentos potencialmente importantes para a história de uma nação”. O passo mais importante é reconhecer as perdas. É só depois disso que se abre a possibilidade – para o indivíduo ou sociedade – de avançar e alcançar novos patamares. “Ao assimilar o que perdeu, você pode repatriar o que estava colocado naqueles objetos e trazer tudo novamente para dentro [de si]. É um resgate da energia mental a ser reinvestida em novas maneiras. Mas antes é preciso encarar a perda, fazer um balanço do que aconteceu, no que acertamos, no que erramos gravemente.”

Mesmo em relação a companheiros dos Brics, cujo cenário econômico e social é mais parecido com o brasileiro, a comparação é bastante desfavorável: na Índia, por exemplo, a média foi de 2,97 no mesmo período.

Esses números vêm se traduzindo, nos últimos meses, em cenas que os brasileiros assistem estarrecidos da sala de casa. São imagens de doentes morrendo por falta de oxigênio, cemitérios abrindo covas às pressas e familiares que não conseguem se despedir das vítimas. O que antes parecia distante, tornou-se próximo. “É difícil, hoje, encontrar uma família que não tenha alguém que ficou gravemente ferido ou morreu. Não é só um número vazio, de estatística”, diz Pereira. “Estamos em um momento de impacto, de trauma.”

O professor cita as Mães da Praça de Maio, na Argentina. Desde 1977, o movimento de mulheres reclama o paradeiro de filhos e netos que desapareceram nos porões da ditadura naquele país, entre 1976 e 1983. São cerca de 30 mil desaparecidos. No Brasil, um número de pessoas mais de dez vezes maior “sumiu” por causa da covid até agora. Os motivos são muito diferentes, mas há um paralelo – inúmeras vítimasda doença também saem de casa com suas próprias pernas e não voltam mais. Morrem isoladas, às vezes sem que a família fique sabendo.

A cada 10 pessoas intubadas no país em 2020, oito morreram, segundo estudo da Fiocruz. No mundo, embora alta, a média de mortes de pessoas que dependeram de ventilação mecânica foi de 6 a cada 10 no ano passado.

Parentes e amigos também mal conseguem se despedir de maneira apropriada. Com as regras de isolamento social, as cerimônias têm de ser breves e restritas. Quem morre de covid é sepultado em caixão fechado. A família não vê o corpo. “É muita solidão”, constata Pereira.

Essa dor foi catalisada pela figura do ator Paulo Gustavo, que morreu no dia 4 de maio, aos 42 anos, depois de quase dois meses internado por causa da covid. A notícia despertou instantaneamente uma onda de solidariedade nas redes sociais.

“Neste momento de retrocesso, de moralidade quase medieval, ele era um homossexual assumido, com vida familiar estável, filhos, e que ficou famoso no papel de uma mãe. E mãe não é qualquer coisa”, diz o psiquiatra.

Paulo Gustavo – que deixou marido e dois filhos pequenos – tornou-se um fenômeno do cinema e da TV. Seu maior sucesso foi o personagem Dona Hermínia, mãe separada e com três filhos. A comédia “Minha Mãe é uma Peça 3”, terceira parte da bem-sucedida série cinematográfica com a personagem, atraiu mais de 11,4 milhões de espectadores e arrecadou R$ 143,8 milhões nas bilheterias.

“O humor talvez seja a forma mais contundente de arte porque nos pega desprevenidos, no contrapé. Você não se defende do humor”, afirma Pereira. Pela veia humorística é possível dizer coisas que são impossíveis abordar de outro jeito, diz ele. “Expõe o ridículo do preconceito, essa coisa toda que estamos vivendo.”

O psicanalista morou na França durante quatro anos para fazer seu doutorado. Tinha acabado de voltar ao Brasil, em 1994, quando Ayrton Senna morreu no Grande Prêmio de Ímola, na Itália. O piloto brasileiro perdeu o controle do carro na curva Tamburello e se chocou com um muro. Tinha 34 anos. O acidente provocou levou o país a um luto profundo.

“Era o governo Itamar [Franco, que durou de dezembro de 1992 a janeiro de 1995]; tínhamos inflação astronômica, desemprego, caos social, desesperança com o país”, diz Pereira. “Mas havia uma coisa que nos consolava. A cada 15 dias, o Senna vencia as corridas da maneira mais brilhante, genial, audaciosa. Depois, pegava a bandeira brasileira e ia comemorar. Aquilo nos resgatava.” A morte do piloto, assistida ao vivo pelo mundo inteiro, tornou evidente a fragilidade humana e a mortalidade, mesmo no caso de um mito. “Não somos deuses”, afirma o psiquiatra.

Os ritos de morte são ancestrais. Anos atrás, em visita à França, Pereira conta ter visitado a caverna de Lascaux, na Borgonha, onde estão os principais sítios arqueológicos do país. A caverna guarda a tumba de um neandertal, com o cadáver e artefatos como colares de conchas. Como a região fica no interior da França, longe do mar, o cenário demonstra que mesmo na pré-história os rituais de despedida já eram tratados com grande cuidado.

“Lutos malfeitos criam mortos insepultos”, adverte o professor da Unicamp. Ele lembra do filme “Quase Famosos” (“Almost Famous”, 2000), em que um jovem aspirante a jornalista acompanha a turnê de uma banda de rock fictícia, a Stillwater, em turnê pelos Estados Unidos. Em uma das cenas, o avião da trupe parece prestes a cair, o que leva os músicos a revelarem segredos desabonadores: um conta ter atropelado um homem e fugido; outro admite ter roubado dinheiro do grupo; vários confessam casos de infidelidade com as mulheres dos companheiros de banda. Mas o avião não cai, o que obriga os passageiros a conviver com as revelações. “É só confrontando a morte que a questão da verdade fica urgente”, diz Pereira.

No Brasil, a reação de parte da população que insiste em desobedecer às regras de isolamento, como andar na rua sem máscara ou promover festas e aglomerações desnecessárias, ganha conotação de escárnio em relação àqueles que perderam pessoas amadas e se esforçam para não se contaminar ou transmitir o vírus, diz. Trata-se de um espelho “terrível” que reflete o individualismo e o subjetivismo exacerbados no país, afirma o psiquiatra, e que passaram a justificar qualquer tipo de ação.

“Falta ao Brasil uma proposta política, civilizatória”, diz Pereira. Ele faz uma advertência quanto ao cenário geral do país nos últimos anos e o risco de se atribuir poderes extraordinários a líderes carismáticos. Vários episódios históricos mostram movimentos de massa que conduziram ao autoritarismo em momentos de mal- estar social. “Todos os ditadores do século XX tinham títulos que remetem à ideia de grande líder. [Adolf] Hitler era o ‘fuhrer’, o condutor; [Benito] Mussolini, o ‘duce’. [Nicolae] Ceausescu era o ‘conductor’; Mao [Tse-tung] era ‘o grande timoneiro’; Fidel [Castro], ‘o comandante’”, cita. “Quando se está no caos, sempre há alguém a quem se delega [a direção], como se ele fosse um iluminado que sabe o que é melhor para a nação. Depois, paga-se o preço.”

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