Contaminação da Irresponsabilidade Individual e Social: Contágio em Aglomerações Bolsonaristas

Ricardo Mendonça (Valor, 24/05/21) informa: existe uma correlação entre bolsonarismo e casos de covid-19 no Brasil. No conjunto dos 5.570 municípios brasileiros, quanto maior o percentual de votos obtido pelo presidente Jair Bolsonaro em 2018, maior é a taxa de contaminação pelo coronavírus. Quanto menor a adesão a extrema-direita teve, menos frequentes são os casos de covid-19.

Os dados sugerem o discurso negacionista de Bolsonaro influenciar mais intensamente seus eleitores e ampliar os danos.

Em confronto com as principais evidências e recomendações científicas, o boçal tem desprezado orientações para uso de máscara e medidas de isolamento social, promovido aglomerações, propagandeado medicamentos sem eficácia, desqualificado especialistas, minimizado a gravidade da doença e posto em dúvida a qualidade de vacinas.

O presidente genocida, em um passeio de moto no Rio, voltou a gerar aglomeração e a criticar medidas restritivas. Estava sem máscara.

Nos 215 municípios em que Bolsonaro teve mais de 80% dos votos válidos no segundo turno 2018, a taxa de contaminação pelo coronavírus supera 10.400 casos por 100 mil habitantes. Nesse conjunto de municípios moram 8,9 milhões de pessoas. Em São Martinho (SC) a contaminação chegou a 22.579 por 100 mil.

Se esse apanhado de municípios fosse um país, essa nação apareceria hoje na oitava posição do ranking dos locais mais perigosos do mundo para covid-19, atrás apenas de um grupo de principados e pequenas repúblicas com taxas extraordinariamente altas de transmissão, como Andorra e Montenegro.

Já nos 108 municípios onde o presidente teve menos de 10% dos votos válidos no segundo turno de 2018, a taxa é de 3.781 casos por 100 mil habitantes. Essa “nação oposicionista” apareceria no 79o lugar do ranking internacional da covid- 19, próxima do padrão de países como Grécia e Canadá.

Com pouco mais de 7.400 casos por 100 mil habitantes em todo o território, o Brasil aparece atualmente na 36a posição do ranking internacional da covid. Até ontem eram mais de 16 milhões de casos e 448 mil óbitos.

Para confirmar a existência de correlação entre bolsonarismo e covid-19, o Valor cruzou os totais acumulados de casos em cada município do país (do início da pandemia até 18 de maio) com a votação obtida por Bolsonaro no segundo turno de 2018 nas mesmas localidades. Sob qualquer ângulo que se analise, as taxas de contaminação são sempre maiores nos locais em que Bolsonaro foi mais votado (confira nos gráficos).

Para afastar a hipótese de o resultado ter sido distorcido pelo fato de haver coincidência entre as maiores votações em Bolsonaro e locais com maior oferta e realização de testes, a reportagem agrupou os municípios com mais de 100 mil habitantes e analisou as taxas de covid-19 nesses locais separadamente.

Embora seja difícil estimar o número exato de testes já realizado por município, é sabido que a oferta de exames é sempre maior nos grandes centros, pontos de maior concentração de infraestrutura médica e farmacêutica.

No conjunto dessas maiores cidades, a correlação bolsonarismo-covid-19 se repete. Nos 258 municípios mais populosos em que Bolsonaro teve mais de 50% dos votos, a taxa de casos da doença é de 7.752 por 100 mil habitantes. Nos 66 municípios mais populosos em que Bolsonaro teve menos de 50% dos votos, a presença do coronavírus também é menor, de 7.053 casos por 100 mil habitantes.

Como a contaminação está mais relacionada com o comportamento das pessoas, não com a infraestrutura hospitalar, os registros de casos são mais adequados para medir a influência do discurso negacionista do que as confirmações de mortes.

Outra vantagem da medição por casos é que o número de contaminados será sempre muito maior que o total de óbitos, o que, na análise agregada, oferece mais estabilidade estatística.

Nos diferentes segmentos de municípios conforme a votação em Bolsonaro, de qualquer forma, os totais de óbitos por covid-19 apresentam as mesmas tendências

observadas nos dados sobre infecção: quanto maior o percentual de votos em Bolsonaro em 2018, mais mortes.

Nas cidades em que o presidente teve abaixo de 10% dos votos em 2018, há 70 óbitos por 100 mil habitantes. Nas localidades onde Bolsonaro teve 80% dos votos ou mais, há 206 óbitos por 100 mil habitantes.

Na gaúcha Nova Pádua, a cidade com o maior percentual de votos válidos em Bolsonaro em todo o Brasil (93%), a taxa alcançou 313 óbitos por 100 mil.

“Esses dados são chocantes”, afirma o epidemiologista Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil. “Da mesma forma como o negacionismo foi responsável pelo crescimento da epidemia de HIV na África do Sul algumas décadas atrás, agora o negacionismo é responsável por mais de 300 mil mortes por covid-19 no Brasil”, completa.

“Esses dados são compatíveis com o achado que publicamos alguns meses atrás de que três de cada quatro mortes ocorridas por covid-19 no Brasil seriam evitáveis caso o país tivesse um desempenho igual a média mundial no enfrentamento da pandemia.”

Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, o médico Paulo Menezes lembra que a maior incidência de covid-19 em redutos bolsonaristas do Estado já havia sido notada por profissionais que atuam na linha de frente do combate à pandemia. Para ele, os resultados apurados a partir do cruzamento de casos com dados eleitorais corroboram as impressões colhidas no dia a dia.

De fato, a correlação entre bolsonarismo e covid-19 repete-se em âmbito estadual. Ocorre dentro dos Estados em que o presidente teve ótimo desempenho eleitoral, ocorre também no interior dos Estados em que ele não foi bem. Com resultados opostos nas urnas, Santa Catarina (75,9% dos votos válidos para Bolsonaro) e Bahia (apenas 23,7% dos votos para Bolsonaro) ilustram bem essa situação.

Em Santa Catarina, a taxa de casos de covid-19 nos municípios em que a votação no presidente ficou abaixo da média estadual é de 12.381 por 100 mil habitantes. O indicador sobe para 13.404 casos por 100 mil nas cidades catarinenses em que a votação no presidente ficou acima da média estadual.

Em patamares gerais notadamente mais baixos, tendência na mesma direção ocorre no conjunto das cidades baianas. São 4.981 casos por 100 mil nos municípios em que a votação de Bolsonaro ficou abaixo da média do Estado, mas 8.013 casos por 100 mil nos locais das melhores votações do presidente na Bahia.

A médica infectologista e pesquisadora Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, afirma que o comportamento individual tem peso determinante nas taxas de transmissão. “E ele [Bolsonaro] vem desde o início pregando contra a máscara e contra o isolamento, que são as duas medidas com maior impacto no combate ao vírus. Máscara e isolamento são as duas coisas que mais protegem individualmente e as que mais controlam a transmissão”, diz.

Pesquisador da Fiocruz e ex-diretor da área de combate ao coronavírus no Ministério da Saúde, o também infectologista Julio Croda afirma que a correlação entre bolsonarismo e covid-19 é indubitável.

“A adesão a medidas protetoras tem caráter individual e político”, diz. “Medidas restritivas individuais e coletivas são adotadas quando há adesão da população. As pessoas precisam acreditar que as medidas são importantes. Se não acreditam, não seguem. Se não seguem, tem mais transmissão. Se tem mais transmissão, tem mais óbito. Quando há um presidente afirmando que não é necessário usar máscara, não é preciso fazer isolamento, há menos adesão a essas medidas. A correlação faz sentido.”

A ideia segundo a qual há conexão direta entre política e taxas finais de contágio e mortes por covid-19 não chega a ser uma novidade no meio acadêmico.

Um estudo nos Estados Unidos assinado por cinco pesquisadores constatou que a filiação partidária de líderes estaduais americanos influenciava de maneiras diversas as políticas que afetam a disseminação da covid-19.

Eles examinaram as diferenças em taxas de infecção, óbito e testes nos 50 Estados americanos. Concluíram que as áreas lideradas por democratas tiveram menos casos, menos óbitos e números mais altos de testes na comparação com os Estados liderados por republicanos (“Associations between governor political affiliation and covid-19. Cases, deaths, and testing in the U.S.”).

Em exercícios assim também é possível fazer projeções. Se todos os municípios brasileiros tivessem o padrão de contágio das 215 cidades mais bolsonaristas (aquelas onde ele teve 80% dos votos ou mais), o total acumulado de infectados no Brasil hoje seria 41% maior.

Em vez de 15,6 milhões de casos até 18 de maio, o país já teria ultrapassado a marca de 22 milhões de casos. Seriam 6,4 milhões de pessoas contagiadas a mais do que se registrou até hoje.

Se, por outro lado, todos os municípios do Brasil tivessem o padrão de contágio das 108 cidades menos bolsonaristas (locais onde o presidente teve abaixo de 10% dos votos), o total acumulado de infectados no Brasil hoje seria 49% menor. São 4,7 milhões de brasileiros que teriam sido poupados da doença.

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