Seleção da Carteira de Ativos com Expectativa de Alta dos Juros

Adriana Cotias (Valor, 28/05/21) informa: os Fundos de Crédito Privado voltaram a atrair a atenção do investidor, tanto nas plataformas quanto nos bancos de varejo. A compra direta de dívida corporativa e de títulos bancários também ganhou adeptos, à medida que emissores oferecem bons prêmios para cativar o aplicador que quer dar um pé atrás no risco de bolsa.

O investidor brasileiro tem memória curta. Estamos voltando a ver captação em fundo com descasamento entre ativos e passivos, com liquidez curta e investimento em dívida longa. Em meio ao estresse da pandemia, no ano passado, muitos investidores sacaram seus recursos dessas carteiras porque não aguentaram cotas negativas.

A captação em fundos de crédito reflete a preocupação do investidor de buscar um retorno extra, sem ficar de peito aberto em alternativas aparentemente mais arriscadas.

Conforme recorte feito pelo economista Marcelo D’Agosto, do Guia Valor de Fundos de Investimentos, considerando-se o conjunto de fundos disponíveis em plataformas e nos principais bancos de varejo, os portfólios de crédito privado atraíram neste ano R$ 4,57 bilhões até 21 de maio. As carteiras com debêntures incentivadas tiveram ingressos de outros R$ 863 milhões. Estratégias ligadas a juro real, por sua vez, receberam R$ 2,7 bilhões no ano.

Em sentido contrário, a categoria renda fixa ativo perdeu R$ 16,6 bilhões. Como essas carteiras têm muita exposição a títulos prefixados, com a queda de preços no secundário no primeiro trimestre, muitos fundos ficaram no vermelho, diz D’ Agosto. “Quando o cotista vai buscar explicações, acaba sendo oferecida a opção de sacar e investir em outra modalidade.”

Se os juros reais ficarem altos – o que ainda não se vê -, a migração que se via para classes de maior risco tende a perder ritmo, diz William Eid Jr. coordenador do Centro de Estudos em Finanças, da Fundação Getulio Vargas (FGV), até porque essa diversificação não é tão geral. “A imensa maioria dos brasileiros continua nos instrumentos tradicionais de renda fixa, poupança, CDB e outros”, afirma.

Em abril, a caderneta de poupança registrou a primeira captação líquida de 2021, mas em maio a diferença entre aplicações e saques voltou a ficar negativa, em R$ 3,6 bilhões até o dia 20. No ano passado, houve ingresso recorde de R$ 166,3 bilhões, turbinado pelo pagamento do auxílio emergencial feito via contas de poupança para atenuar os efeitos da pandemia de covid-19. Agora, com a volta de alguma mobilidade e um subsídio menor do governo para as famílias, parte dessa reserva tem sido consumida.

A captação em CDB estava negativa até abril, em R$ 7,7 bilhões, mas inverteu a direção nos primeiros dias de maio, com R$ 13,8 bilhões até o dia 7. Há um movimento interessante nos bancos, principalmente pequenos e médios, que vêm melhorado as taxas de CDBs e de letras de crédito imobiliário e do agronegócio (LCI e LCA). As instituições têm aumentando um pouco o prazo, talvez pensando nas eleições, buscando ter mais dinheiro em caixa disponível.

Títulos bancários com prazo de dois anos vêm pagando até 135% do CDI, caso de uma emissão do Agibank. O BTG Pactual tem oferta de LCA a 110%, que por ser um título isento equivaleria a 130%, cita. Em bancos digitais há contas remuneradas com liquidez diária pagando entre 150% e 180% do CDI, mas é melhor preferir o risco de bancos selecionados.

Embora veja demanda para ativos de crédito corporativo, a especialista alerta que os prazos costumam ser mais longos, para resgate depois de 2025. Mesmo que venha um bom resultados das urnas, o risco é ficar amarrado por tempo demais. E, se o pior acontecer, talvez a taxa pactuada não compense o risco.

Tem hora para ser agressivo e aproveitar as oportunidades e há momentos para deixar dinheiro na mesa. O investidor pode não participar do próximo rali da bolsa, mas é melhor ser conservador e colocar o dinheiro no bolso.

Com a corrida eleitoral se aproximando, não é hora de alongar muito prazos ou seguir em estratégias arrojadas. O mais recomendável é reduzir o risco de investimento. A bolsa em patamar alto convida a fazer isso.

Com a tendência de alta dos juros, quem tem o receio de ser atropelado pela inflação migrará parcela dos recursos para ativos pós-fixados ou ligados ao IPCA. O juro muito baixo acabou fazendo o investidor abrir mão do conservadorismo e abraçar mais o risco em busca de retorno. Agora, aos poucos, isso vai se esvaindo. Com expectativa de Selic mais alta neste ano e em 2022, a tendência é buscar alguma proteção em papéis indexados à inflação.

Nesse rol, entram tanto o Tesouro IPCA como o crédito privado. As companhias têm conseguido captar e rolar dívidas, oferecendo bons prêmios. Há papéis pagando IPCA mais 4,8% com vencimento em seis anos, cita. Os fundos de crédito têm sido alimentados por essa safra.

Vale acompanhar as taxas dos papéis de dívida, tanto no mercado primário quanto secundário, para obter um retorno maior na renda fixa. A seleção deve ser, porém, cautelosa e o investidor não deve ter mais do que 5% em um mesmo papel. A preferência é por ativos isentos de imposto, como debêntures de infraestrutura e certificados de recibos imobiliários e do agronegócio (CRI e CRA).

Com um cenário econômico melhor do que o esperado neste início de ano, o governo revisou as metas do Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2021 para contemplar um intervalo menor de oscilação da Dívida Pública Federal, assim como para emissão de papéis prefixados e alongamento no prazo. No mês de abril, o Tesouro bateu recordes de resgate e de resgate líquido de papéis da dívida pública. Foram os maiores volumes da série, iniciada em novembro de 2006.

No novo PAF, o estoque da Dívida Pública Federal poderá variar entre R$ 5,5 trilhões e R$ 5,8 trilhões neste ano. Antes, poderia oscilar entre R$ 5,6 trilhões a R$ 5,9 trilhões. Mesmo com essa mudança, a dívida ainda tem muito espaço para crescer porque em abril somava R$ 5,089 trilhões.

Diante de um cenário “mais benigno”, a participação tanto dos títulos flutuantes como de índice de preços na dívida subiu devido à intenção do Tesouro de trocar de papéis prefixados de curto prazo por mais longos.

O PAF prevê a participação dos títulos flutuantes na dívida variar entre 33% a 37%. Por outro lado, foi reduzida a margem para emissão de prefixados, o intervalo vai variar de 31% e 35% do estoque. Os títulos atrelados a índices de preços ficarão entre 26% e 30%. A participação dos papéis atrelados ao câmbio foi mantida entre 3% e 7%. Em abril, esses indicadores já estavam dentro dos limites. No mês passado, a participação de flutuante era de 35,5%; de prefixados era de R$ 31,9%; índices de preços, 27,69%; e câmbio, 5,17%.

A demanda das LFTs em particular está calibrada. Com o momento de alta da Selic, começarão a buscar títulos indexados a Selic. A modificação no PAF é suficiente para absorver demanda maior da LFT até o fim do ano.

Com essa modificação da composição, o PAF prevê que o percentual da dívida vincenda em 12 meses deve ficar entre 22% e 27% do estoque. No caso do prazo médio, também teve uma melhora em relação ao PAF anterior e deve ficar entre 3,4 anos e 3,8 anos neste ano. No mês passado, a dívida vincenda em 12 meses ficou em 24,52% e o prazo médio em 3,79 anos.

O cenário precisava ser ajustado pois foi elaborado num ambiente de forte volatilidade provocada pela pandemia de covid-19. Na avaliação do Tesouro, a revisão permitirá a manutenção do perfil de emissões observado nos primeiros meses de 2021, em um ambiente relativamente mais favorável do que o estimado quando da elaboração do PAF.

A demanda por LFTs e NTN-Bs observada de janeiro a maio deste ano são próximas de 100% das emissões realizadas no ano anterior e esse foi um fator determinante para a revisão do PAF. Além disso, a decisão foi influenciada pela a desvinculação de fundos e a devolução de recursos pelo BNDES e pela Caixa totalizam R$ 247 bilhões que não estavam previstos quando a versão anterior do PAF foi elaborada.

Com isso, o Tesouro consegue trabalhar melhor a composição dos títulos emitidos e até reduzir um pouco as emissões sem comprometer o colchão de liquidez.

Abril foi marcado pelo maior resgate da série histórica, iniciada em novembro de 2006, somando R$ 340,6 bilhões. O resgate líquido no mês (R$ 166,2 bilhões) também foi o maior da série. Com isso, a Dívida Pública Federal apresentou uma queda de 2,92% em abril ante março, totalizando R$ 5,089 bilhões. O colchão de liquidez também caiu 13,4% de março a abril.

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