Orçamento de Biden versus Reação dos Republicanos para Manipulação de Futuras Eleições

Jaime Politi (Financial Times, 28/05/21) informa: o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciará uma proposta de orçamento de US$ 6 trilhões para o ano fiscal 2022, reforçando sua proposta de planos de investimentos em grande escala do governo, com uma aposta de que a inflação recuará após o avanço deste ano.

O primeiro orçamento do governo Biden representa um aumento significativo em relação ao último orçamento do governo Trump, para o atual ano fiscal, que foi de US$ 4,8 trilhões.

Por outro lado, o déficit orçamentário deve cair de US$ 3,1 trilhões para US$ 1,8 trilhão no próximo ano – o último ano do governo Trump foi marcado por um déficit recorde, resultado da queda da receita e aumentos dos gastos por conta da pandemia de covid-19. Na média, a Casa Branca estima déficits anuais de mais de US$ 1,3 trilhão durante a próxima década, segundo informações antecipadas pelo jornal “The New York Times”.

A proposta orçamentária da Casa Branca incorpora os planos de gastos de oito anos apresentados pelo presidente: US$ 2,3 trilhões em infraestrutura, US$ 1,8 trilhão do Famílias Americanas e fornece detalhes sobre o pedido de US$ 1,5 trilhão para o Pentágono e agências federais. Os gastos públicos vão subir para US$ 8,2 trilhões em 2031, enquanto a dívida crescerá dos 100% do PIB, previstos para este ano, para 117% na próxima década, superando o recorde do fim da Segunda Guerra Mundial.

A proposta orçamentária presume que a economia americana crescer 5,2% neste ano e 4,3% no próximo, antes de se estabilizar a uma taxa anual em torno de 2%.

Quanto aos resultados econômicos do governo, Biden rebateu críticas dos republicanos de os preços mais altos e a escassez de mão- de-obra já estarem impedindo a recuperação.

“Com a pandemia recuando, nossa economia está se movendo: 500 mil novos empregos estão sendo criados em média a cada mês, os novos pedidos de auxílio- desemprego caíram quase pela metade e temos um crescimento recorde pela frente”, escreveu Mike Donilon, um dos principais assessores do presidente, em um memorando.

A confiança do governo Biden em sua estratégia econômica tem sido desafiada nas últimas semanas por dados. Eles mostram uma alta inesperada dos preços ao consumidor em abril, juntamente com o fraco crescimento do emprego em razão de discrepâncias na retomada do mercado de trabalho.

Isso tem gerado críticas duras dos republicanos. Supostamente, os gastos excessivos estão levando os EUA de volta à estagflação dos anos 70. Não é uma inflação de demanda, mas sim custos pela quebra de cadeias produtivas. Elas se recuperarão!

Autoridades do governo argumentam a turbulência nos preços e empregos se dever à rápida reabertura da economia. Ese problema estará resolvido em tempo relativamente curto. A secretário do Tesouro, Janne Yellen, disse acreditar que a alta de preços será passageira.

Após o salto na atividade econômica deste ano, o governo Biden está levando adiante os planos de investimentos adicionais de US$ 4 trilhões em uma década – tanto em infraestrutura física como em gastos sociais -, além de quase US$ 2 trilhões em estímulos de curto prazo para potencializar a recuperação de longo prazo e corrigir o que ele vê como grandes falhas estruturais na economia dos EUA.

Mas essas esperanças dependem de negociações delicadas entre republicanos e democratas no Congresso. Enquanto isso, a Casa Branca torce para que a inflação alta seja compensada com salários maiores para muitos trabalhadores, à medida que as empresas tentam atrair trabalhadores de volta à força de trabalho com salários melhores, especialmente para as famílias de baixa renda.

O sucesso ou fracasso das políticas econômicas de Biden poderá ser crucial para as esperanças democratas de manter ou ampliar suas maiorias no Congresso nas eleições legislativas do próximo ano. No memorando citado, Donilon disse, com base em pesquisas, ele ainda acreditar a população apoiar muitas das propostas do presidente, mesmo diante da crescente oposição dos republicanos.

“Quando os republicanos criticam o plano do presidente para reconstruir nossa economia através de investimentos que há muito deveriam ter sido feitos na infraestrutura de nosso país, eles estão criticando o que seus próprios eleitores vêm pedindo há décadas”, escreveu ele. “Quando atacam o plano do presidente de fazer os ricos pagarem suas cotas de impostos, eles estão atacando o senso de justiça do povo americano.”

Edward Luce (FT, 28/05/21) escreveu artigo a respeito da oposição republicana anti-democrática.

No início do governo do ex-presidente Donald Trump, a Economist Intelligence Unit rebaixou os Estados Unidos à categoria de “democracia imperfeita”. Infelizmente, o país ainda se encaixa nisso. Longe de deixar as desordens trumpianas para trás, a vitória de Joe Biden as aprofundou. O estilo político de Trump ganhou uma vida independente do ex-presidente. Mesmo que ele se retirasse para um mosteiro, o Partido Republicano já escolheu o seu rumo.

Os perigos que isso representa para a democracia dos EUA são dois.

O primeiro diz respeito às regras dos EUA para a escolha de seu presidente. A força do que é corretamente chamado de “a grande mentira” sobre a “eleição roubada” do ano passado não deve ser subestimada. Se houvesse qualquer evidência de fraude na eleição de novembro, William Barr, o ultraleal secretário de Justiça de Trump, teria se agarrado a ela. Seu Departamento de Justiça não encontrou nenhuma prova de irregularidade.

Como todos os mitos, o da eleição roubada é imune a provas. Nem pode ser rejeitado – como às vezes acontece – como se fosse apenas resultado da síndrome do mau perdedor. Estados governados por republicanos, como Arizona e Geórgia, aprovaram leis para assumir o controle sobre seus resultados para o colégio eleitoral. Eles são motivados tanto pelo que desejam que aconteça na eleição de 2024 quanto por um esforço para aplacar Trump.

Essas são tentativas, com vistas ao futuro, de tomar o poder de autoridades eleitorais independentes. Algumas dessas disposições deixariam envergonhada a Hungria de Viktor Orban – a “democracia iliberal” original. O padrão é privar cidades democratas, como Houston, de locais de votação e, ao mesmo tempo, tornar a votação mais fácil nas áreas rurais conservadoras.

O segundo perigo é a natureza de outras leis que os Estados republicanos têm aprovado, algumas das quais fazem Trump parecer um moderado. O Texas está prestes a eliminar a obrigatoriedade de licença para quase todos os compradores de armas. O Estado também acabou de votar a proibição de aborto depois de seis semanas de gravidez, sem exceções para estupro ou incesto.

Os republicanos texanos têm a reputação de serem extremistas de direita. Sua plataforma propõe que os EUA se retirem da Organização das Nações Unidas (ONU) e a abolição do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Mas o Estado costuma também ser um indicador de para onde vão os republicanos.

Seria enganoso culpar apenas a base de Trump pelo rumo do partido. Muitos desses passos foram dados sem pressão de baixo. Alguns líderes republicanos, como o governador da Flórida, Ron DeSantis, miram uma candidatura presidencial em 2024. Outros, como o do Texas, Greg Abbott, têm promulgado leis que estão há muito tempo na lista de desejos de seus financiadores de campanha. Não houve nenhum clamor popular no Texas para tornar a compra de armas mais simples nem para tornar o processo de votar mais difícil.

A estratégia é instar o medo de a existência dos EUA estar ameaçada por influências estrangeiras – esquerdistas europeizados que desejam superar em número os americanos trabalhadores com eleitores importados de outros Estados. Trump incentiva essa paranoia já faz tempo. Mas ela ganhou mais velocidade desde sua derrota.

Em uma pesquisa recente para o conservador American Enterprise Institute, 56% dos republicanos disseram apoiar o uso da força para “proteger o modo de vida tradicional americano”.

Claro, é fácil dramatizar exageradamente o que as pessoas dizem aos pesquisadores que poderiam fazer na vida real. A maioria dos americanos, o que inclui quase metade dos republicanos, rejeita a violência política. O índice de aprovação de Biden não caiu abaixo dos 50% – teto que Trump nunca superou. E o sistema passou por um teste de stress severo entre a eleição de novembro passado e a posse de Biden.

Tudo isso é verdade. Mas essa narrativa não leva em conta as mudanças graves nas regras que regerão eleições futuras.

Os republicanos não estão muito atrás dos democratas nas pesquisas, em momento quando Biden lançou uma enorme campanha de vacinação. Ela tem dado impulso a uma recuperação econômica.

As chances de os democratas perderem a maioria no Senado ou na Câmara no ano que vem são grandes. E, antes dessa eleição, os distritos eleitorais terão sido redesenhados, na sequência do recente censo dos EUA.

A maioria dos Estados é controlada pelos republicanos, portanto o novo mapa desses distritos os favorecerá amplamente. Se um confronto no estilo de 2020 ocorrer em 2024, o sistema terá sido destituído de muitas de suas proteções.

A mudança, seja boa ou ruim, às vezes depende de uma margem ínfima. O governo de Biden viveria uma situação muito diferente hoje se em janeiro seu partido não tivesse vencido por pouco as duas eleições para o Senado na Geórgia. Isso deu aos democratas a maioria no Senado de que precisavam.

Desde então, a Geórgia reescreveu suas regras para tornar esse tipo de resultado muito menos provável – uma medida que Biden descreveu como “Jim Crow no século 21” (referências às leis de segregação racial). Biden só exagerou um pouco. É muito cedo para tirar os EUA da lista de democracias em perigo.

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