Conservadorismo Reacionário contra Biden

A União Europeia (UE) avançou ontem na direção para abrir suas fronteiras para turistas de fora do bloco, ao definir normas para a para permitir a entrada de visitantes totalmente vacinados, sem a necessidade de quarentena. Brasileiros, no entanto, continuarão impedidos de entrar.

Os 27 países da UE acertaram o relaxamento dos critérios para que um país seja considerado seguro em relação à covid-19, o que permitirá aos cidadãos desses países viajar para a UE, a depender de seu status com respeito ao coronavírus e à vacinação. Pelos critérios atuais, a lista só inclui sete países. O Brasil, porém, deverá continuar na lista de países não seguros.

Este é o resultado provocado por um governo de extrema-direita apoiado por gente estúpida!

Enfrentar o conservadorismo reacionário é difícil em todo o mundo. Biden está pedindo aos americanos para absorverem um rompimento na doutrina econômica junto com uma mudança do contexto social, mas seu mandato é frágil para depositar tanta atividade

Janan Ganesh (Financial Times, 26/05/21) avalia isso: até mesmo o maior dos líderes democráticos do último século escolheu suas batalhas. Ao moldar uma nova política econômica, o New Deal, Franklin Roosevelt preservou grande parte do velho pacto na cultura. A causa dos direitos civis foi adiada para outra geração. Leis rígidas de imigração foram mantidas, mesmo com massas oriundas da Europa suplicando para entrar nos EUA.

Se havia no ar uma vileza pós-Era do Jazz, ela não se limitou a Washington. Hollywood começou a fazer valer seu código contra temas obscenos.

É difícil prestar conta da mistura de reforma material e retrocesso cultural naqueles anos. Mas uma teoria se apresenta. Uma sociedade só consegue absorver um número limitado de mudanças por vez.

Se as regras da vida econômica estão em evolução, as pessoas anseiam por estabilidade e mesmo uma regressão em outras áreas. Visto desse ângulo, o conflito dos anos 60 pode ser interpretado como os espasmos de uma nação tentando mudar demais em frentes demais em um período de tempo muito curto.

A questão é se o suposto herdeiro de Roosevelt aceita essa limitação. Uma alta recente da inflação vem alimentando a ideia de que está a caminho uma reação ao “Estado Grande” do presidente Joe Biden. Mas não é sua ousadia econômica por si só, que é excepcional. É sua coincidência com outra grande mudança.

Os crimes violentos estão aumentando nas cidades americanas há algum tempo, revertendo a tendência de pelo menos uma geração. Ao mesmo tempo, a fronteira sul do país foi um local de sofrimento e confusão durante a maior parte deste ano. As autoridades tiveram de lidar com mais migrantes nessa área em abril do que em qualquer mês desde o começo do século. Depois – como uma terceira fonte de insegurança cultural -, há um incipiente conjunto de questões que surgem sob o neologismo do momento, “woke” (despertar), com todas as suas implicações ao direito de liberdade de expressão previsto na primeira emenda da constituição dos EUA.

Mesmo juntos, esses conflitos sociais dificilmente constituem uma revolução. Também não se pode dizer que o presidente seja o principal autor desses conflitos. A onda de crimes começou sob seu antecessor, Donald Trump. A política de identidade tem sido gestada dentro da esquerda ocidental desde quando os filósofos franceses deram uma guinada pós-moderna na década de 60.

Mas se a agitação cultural não é toda culpa de Biden, ela é um problema dele. Os americanos estão sendo solicitados a absorver um rompimento na doutrina econômica junto com uma mudança do contexto social. Como que capturando o problema em miniatura, o Congresso está no momento engajado num aumento dos impostos e uma reforma da polícia. Estes são pontos difíceis de serem vendidos por conta própria. Biden está tentando as duas coisas ao mesmo tempo. É muita coisa para processar vindo de um homem que muitos vislumbraram como uma pausa para tomar fôlego, depois de um presidente dramático.

A ideia de a reforma econômica e a cultural formarem um par é recente. A história quase sempre produz construtores do bem-estar social que têm um perfil conservador até o ponto da nostalgia. Clement Attlee no Reino Unido, Charles de Gaulle na França e Otto von Bismarck na Alemanha são apenas os casos mais marcantes. Para eles, a redistribuição era uma cola nacional, e não uma fonte de “justiça” abstrata, e mudanças deveriam ser feitas de forma sequencial, e não de uma vez só.

Em outras palavras, o que Biden está tentando – mudar no contexto de ainda mais mudança – é algo perturbador pelos padrões não só da política americana como da política ocidental. Ajuda o fato de ele ser, por causa da idade e pelo histórico de votos, uma figura naturalmente tranquilizadora. Não espere que essa imagem vá durar se os eleitores começarem a se sentir golpeados pelos acontecimentos.

O erro mais fácil na política é assumir que as ideias que parecem boas nos seus próprios termos perfazem um todo popular. Na realidade, os eleitores não ouvem as notas, eles ouvem um acorde. Um amontoado de reformas pode exaurir e desalentar até aqueles que as admiram individualmente. Não são tanto as políticas de Biden que convidam a represálias do eleitorado nas eleições de meio de mandato, e sim seu número, alcance e simultaneidade.

A regra de Gustave Flaubert de que uma pessoa só pode ser radical até certo ponto (“seja regular e ordeiro em sua vida”, disse o escritor, “para que você possa ser violento e original em seu trabalho”) também se aplica à política. Tivesse Biden obtido vitórias esmagadoras como a de 1932 ou a de 1980, quando o povo claramente exigia um novo rumo, ele poderia ter conseguido uma licença para uma mudança total.

Em vez disso, e venceu de maneira clara mas não esmagadora, contra um oponente singularmente inepto, num ano anormal da história mundial. O Congresso encontra- se em mãos democratas pela menor das margens. Trata-se de um mandato frágil para se depositar tanta atividade. Aqueles que o conhecem dizem que o presidente contrariou o arco normal da vida ao entusiasmar-se com a mudança no decorrer do tempo. É uma mudança nobre, mas que não necessariamente irá agradar.

Em novembro de 2020, Glenn Hubbard, ex-diretor da Faculdade de Negócios da Universidade Columbia e assessor econômico, pensador e formulador de políticas públicas republicano de longa data, resolveu correr o risco de vir a público dizer o que pensava.

Quando muitos republicanos estavam receosos demais para criticar diretamente Donald Trump porque achavam que ele poderia vencer a eleição de 2020, Hubbard censurou a equipe de Trump pela falta de um plano econômico. “[Trump] não tem plano econômico. Não quero dizer que não gosto [do plano], ele não existe”, disse.

Essas críticas podem parecer águas passadas, porque Joe Biden ganhou a eleição – e está propondo políticas públicas drásticas, como gastos de cerca US$ 4 trilhões. Mas não: quando os republicanos se dividem em torno de problemas não econômicos (como a insistência de Trump com fraude eleitoral), a pergunta sobre quais são as políticas econômicas que o partido defende está gerando uma tensão cada vez maior.

Será que deveria respaldar um plano de infraestrutura? Será que a dívida ainda tem importância? Qual é a posição dos republicanos sobre questões como desigualdade de renda ou a visão de livre-mercado de Milton Friedman? Os republicanos deveriam apoiar a política ultraexpansiva do Fed (o BC dos EUA)? Ou será que Larry Summers – ex-assessor econômico da Casa Branca – tem razão em alertar para os riscos de inflação?

O “FT” entrevistou Hubbard para responder a essas perguntas, por ele ter sido assessor econômico da Casa Branca de George W. Bush e por estar prestes a lançar, neste ano, um livro, “The Wall And the Bridge” (o muro e a ponte), no qual traça um novo manifesto.

Trocando em miúdos: Hubbard acha o neoliberalismo estilo anos 80 – o mantra de Ronald Reagan – tem de ser repensado para o século 21, com uma nova adesão a Adam Smith. Mas o enfoque de Biden, diz ele, não funciona.

FT: Dados do PIB mostram que a economia dos EUA está se recuperando muito rápido da pandemia. O Fed acaba de dizer que não pretende subir logo os juros e o presidente Joe Biden prometeu um pacote fiscal enorme. Diante disso, qual é a sua previsão para a economia americana?

Glenn Hubbard: Retomar [a atividade econômica] à medida que o vírus recua levará a um forte crescimento do PIB. Portanto, o curto prazo, na verdade, não é a grande questão. Certamente haverá uma alta da inflação. Mas acho que o Fed, no geral, está certo: essa alta provavelmente será transitória. Minha preocupação é quando ouço o Fed falar, como fez o presidente Jay Powell, sobre querer esperar o fim da ‘recuperação’ do mercado de trabalho. O problema do mercado de trabalho é [principalmente] estrutural. O Fed manter a economia aquecida não resolve isso.

Em política fiscal, o que há não é só um ‘estímulo’. O Plano de Socorro Americano foi pensado como um estímulo. Mas o plano Empregos Americanos e o das Famílias Americanas são, na verdade, uma reconstituição do tamanho do Estado. Isso tem de ser financiado e, aritmeticamente, não pode ser por meio de mais impostos aos ricos. Simplesmente não basta. Portanto, a conversa franca com a população é uma questão de escolha: você quiser um Estado grande, se que faça o que o presidente Biden quer, você terá que pagar por isso.

FT: As pressões inflacionárias serão mesmo transitórias?

Hubbard: Não se deve nunca ficar totalmente confiante, mas acho que, se o Fed tivesse uma política [monetária] mais clara, eu confiaria que os aumentos dos preços das commodities seriam passageiros. O que me preocupa é o Fed achar que pode enfrentar alterações estruturais no mercado de trabalho com política monetária.

Pode-se ficar um pouco preocupado com riscos de inflação no longo prazo – alguns das questões estruturais anti-inflacionárias ligadas à demografia e à expansão dos emergentes, em especial da China, estão perdendo força.

Temo que a política monetária [de juros muito baixos] possa levar à zumbificação das empresas

FT: O sr. acha que o Fed deveria indicar que está disposto a aumentar os juros se a inflação subir?

Hubbard: Acho pouco provável que o Fed faça isso. [Mas] um dos motivos pelos quais se vê maior volatilidade é o temor no mercado de bônus de que talvez o Fed esteja dizendo uma coisa, mas, numa situação muito difícil, possa fazer outra. Lembre-se que o Fed comprou por volta de metade das emissões do Tesouro no ano passado, e possui 40% de todos os títulos do Tesouro de 10 anos ou mais. Portanto, é muito importante o que o Fed pensa, e isso não está claro.

FT: Larry Summers diz que há estímulo demais, rápido demais, e que isso cria riscos de inflação. O sr., que não costuma concordar com Summers, concorda com relação a isso?

Hubbard: Eu concordaria com relação ao risco, mas isso não é o que mais me preocupa. O que me preocupa mais é [tentar] criar um Estado tão grande… as contas do orçamento que estão nos mostrando são incorretas. Estão nos apresentando [um cenário em que] alguns anos de gastos serão pagos por muito mais anos de impostos. Estão escondendo da população americana que, se ela quiser um Estado que faça essas coisas, a carga de impostos terá de ser maior.

Se você examinar as contas sobre a carga de impostos, os [pretendidos] aumentos dos impostos sobre as empresas e sobre ganhos de capital não é, nem de longe, suficiente. O outro aspecto estrutural que me preocupa é que vejo queda da produtividade e dos investimentos como resultado desses grandes aumentos de impostos.page4image3786309760page4image3786310032

FT: Biden disse que, se a pessoa ganha menos que US$ 400 mil, não verá seus impostos subirem.

Hubbard: Bem, isso simplesmente não é verdade, [nem] no curto prazo [nem] no longo prazo. Considere o imposto sobre as empresas. Muitos economistas concluíram que boa parte do ônus do imposto corporativo recai sobre os trabalhadores. Na década de 70 e início da de 80, achávamos que era o capital que arcava com a carga dos impostos corporativos. [Mas] não é isso o que se pensa hoje. Portanto, simplesmente não se pode dizer que quem ganha menos que US$ 400 mil não vai arcar com uma parte do ônus da alta de imposto.

O mesmo vale para os ganhos de capital. O presidente diz: ‘Só estou indo atrás de 0,3% dos contribuintes’, aqueles que ganham mais de US$ 1 milhão ao ano e têm ganhos de capital. Mas essas pessoas não têm 0,3% dos ganhos de capital – provavelmente têm o grosso desses ganhos. Assim, se houver um efeito sobre exposição ao risco, sobre a poupança e o investimento, esses [riscos] são muito grandes.

Esses efeitos recaem sobre a economia, não sobre o 0,3% dos que têm mais ganhos. Portanto, no curto prazo, a declaração [de Biden] é simplesmente uma mentira. E, no longo prazo, certamente é uma mentira, porque, se você examinar as contas do orçamento, haverá um grande rombo. Alguém terá de financiar isso.

FT: Bem, e se esse “alguém” forem as empresas?

Hubbard: Vamos pôr as mudanças fiscais em dois compartimentos. Com relação às alíquotas, acho que não queremos chegar a níveis tão altos quanto os que o presidente propõe, e certamente não queremos voltar às alíquotas antigas. Com relação à base de cálculo do imposto, o presidente está propondo um aumento de impostos pela ampliação da base – é uma mudança muito grande. Espero que as empresas reconheçam que precisam pagar algum nível mínimo, mas as contas não fecham.

FT: E impostos contra a mudança climática, como sobre combustíveis, ou sobre o valor agregado?

Hubbard: Acho que são uma ótima ideia. Há anos que eu apoio um imposto sobre carbono porque acho que é uma das melhores maneiras de lidar com a mudança climática. Sou muito cético com subsídios a coisas verdes. Mas, se você puser um preço no carbono, os empresários irão correr para inovar e farão isso com eficiência, e não terá de ser regressivo. Não entendo por que um governo que se diz ao mesmo tempo progressista e verde rejeita justamente um instrumento que poderia ajudar em ambos esses aspectos!

Com relação ao Imposto sobre Valor Agregado [IVA], não há dúvida de que, se fizermos o que o presidente está propondo, teremos com certeza um IVA. Países europeus que têm [setor estatal] maior que o dos EUA, como parcela do PIB, não são financiados com imposto sobre o capital. Na verdade, em muitos países europeus o imposto sobre o capital é menor que nos EUA. Eles são financiados por impostos sobre o consumo.

Vejo queda na produtividade e nos investimentos como resultado desses grandes aumentos de impostos

FT: Por que o governo Biden não avalie o imposto sobre o carbono?

Hubbard: Há um fascínio na esquerda por dominar e controlar a regulamentação. Mas isso não é tão eficiente quanto simplesmente taxas os malvados, em vez de subsidiar os considerados bons.

FT: Por que o sr. acha que o pacote de Biden reduz a produtividade?

Hubbard: Deixe-me só dar um passo atrás. Algumas discussões sobre estagnação secular vêm da insuficiência da demanda agregada. Outra corrente de pensamento acha que, estruturalmente, temos um problema com o crescimento da produtividade, em termos da ponta da oferta e do potencial de crescimento da economia. É dessa corrente que eu venho. Os planos de impostos são, sem dúvida, anti-investimento, uma vez que a falta de aprofundamento do capital explica o baixo crescimento da produtividade, e o imposto sobre ganho de capital afeta a exposição ao risco. Certamente não há nada para aumentar a produtividade [nos planos de Biden] e muito para desestimular a produtividade.page6image3769422720page6image3769422992

Não é só a política fiscal. Me preocupo com uma política monetária que possa levar à zumbificação das empresas – um ambiente de taxas de juros muito baixas que sustentam empresas de baixa produtividade. Reconheça-se, em favor de Biden, que partes do que ele está propondo para infraestrutura poderá, de fato, aumentar a produtividade, mas essa é uma pequena parte do que ele chama efetivamente de infraestrutura.

FT: O sr. está preocupado com uma futura crise da dívida?

Hubbard: Bem, somos o país da moeda de reserva, e estamos tomando empréstimos na nossa moeda, portanto acho que um mal-estar lento e constante é mais provável. Para dar um exemplo, o fundo fiduciário do Medicare [seguro-saúde público para idosos] pode ficar sem dinheiro dentro de um ano, mais ou menos; a Previdência social, dentro de cinco anos. Isso obrigará Washington a discutir se a população quer ou não ter um Estado desse tamanho.

FT: Então, o sr. não vê uma crise da dívida propriamente dita? Hubbard: [Não] no momento.

FT: Os republicanos não deveriam estar colaborando para criar propostas suprapartidárias?

Hubbard: Poderia haver apoio dos dois partidos para um plano para preparar os trabalhadores para se adaptar ao mundo da covid, por exemplo, com ajuda a faculdades comunitárias. Onde não haverá apoio suprapartidário é [para] o conceito de que temos de nos afastar de um sistema de seguridade social sustentado pelo trabalho para uma rede de segurança mais ampla, do berço ao túmulo.

O governo deixou a coisa confusa ao chamá-la de projeto de infraestrutura. Infraestrutura não tem de ter só estradas, pontes e aeroportos – pode ser banda larga. Mas não assistência médica.

FT: O sr. estrutura esse debate com o contraste entre Keynes e Hayek. O que isso quer dizer?

Hubbard: Pode-se pensar na covid [em termos de] uma reação keynesiana – temos um colapso da demanda. A reação keynesiana não é extravagante. Mas Hayek diria que o novo mundo, pós-covid, não será parecido com o velho mundo, então por que apoiar toda e qualquer empresa, sem exceção? Ambos estão certos. Agimos bem em termos de política pública na parte keynesiana. [Mas] não fomos tão bem [pensando em Hayek].

FT: O que o sr. acha do conceito de Summers de estagnação secular?

Hubbard: Há uma cena em ‘Um Conto de Natal’, de Dickens, quando Scrooge pergunta [algo como] ‘Essas sombras pertencem a coisas que irão ou poderão acontecer?’ Sinto a mesma coisa com relação às descrições de Bob Gordon da economia americana – Larry e Bob estão falando sobre as sombras que poderão acontecer se tivermos uma política pública ruim o suficiente, voltando à questão da antiprodutividade. Mas não acho que elas sejam inevitáveis.

Todo empresário com quem falo é otimista sobre a utilização da tecnologia na produtividade. Se há motivo para pessimismo, é mais em relação à capacidade e disposição do sistema político de permitir que esse crescimento da produtividade [ocorra livremente].

FT: O Partido Republicano sabe o que fazer em termos de economia?

Hubbard: Acho que essa é uma enorme pergunta em aberto. Atribuo a Trump o mérito de [adotar] posições republicanas clássicas como mudanças no imposto sobre as empresas ou análise custo-benefício na regulamentação. Evidentemente, coisas como protecionismo e agenda anti-imigração não são ideias republicanas clássicas. Acho que existe uma percepção hoje no partido do que se perdeu, mas não do que precisa vir. A economia como um todo precisa de mais do que receitas neoliberais.

O que fazer daqui para a frente? Uma das coisas, por um curto período, é o protecionismo – temores anticomércio exterior e anti-imigrantes. Outro enfoque que os republicanos poderão assumir é passar do neoliberalismo para o liberalismo (com “l” minúsculo), para Adam Smith. Ele era antimercantilista – era isso que o enfurecia na “Riqueza das Nações” – e o interessado a capacidade de todos na economia de competir.

Assim, uma nova agenda republicana poderia fazer mais para ajudar as pessoas a competir – isso soa mais como Lincoln, ou como Roosevelt. É nisso que repousa uma nova agenda. Mas não vejo o partido indo nessa direção.

FT: E quanto a “Teoria dos Sentimentos Morais”, também de Smith?

Hubbard: Smith se referia à “solidariedade mútua”, que hoje chamaríamos de empatia. Empresários arrojados pensam dessa maneira. Não vejo o ESG [governança ambiental, social e corporativa] como um inimigo dos acionistas – não é Milton Friedman contra o socialismo. É mais uma questão sobre o que é realmente do interesse de longo prazo da empresa.

Lembre-se, Smith atacava a Companhia das Índias Orientais, que encarava como um câncer. Ele achava que se tinha de ter muito cuidado com a estrutura social das empresas. O meio empresarial de hoje tem de entender que a estrutura corporativa é uma concessão social. O capitalismo é uma concessão social. Se a população não o quiser, ele não ocorrerá.

FT: Estamos vendo um nível de colaboração das empresas inimaginável quando tivemos thatcherismo e reaganismo. Isso vai durar?

Hubbard: Estou [convencido disso] e Hayek teria comemorado essa reação coordenada, que despontou de baixo. Se você comparar a produção de vacinas, que foi em boa medida uma atividade do setor privado, com a distribuição de vacinas, que é mais uma atividade do setor público, acho que sabemos qual funcionou melhor.

Existem coisas que poderiam ajudar nisso. Imagine se Biden instalasse centros de pesquisa aplicada por todo o país que fossem ligados a universidades. Isso poderia ajudar as empresas a recuperar localidades, além de resolver grandes problemas como vacinas.

FT: Por que nenhum republicano propõe essa agenda positiva?

Hubbard: Acho que vai acontecer – mas [no momento] há um vácuo. O niilismo não vai derrotar Biden – Trump perdeu por mais de sete milhões de votos, isso não é uma derrota por pouco. Então as pessoas, em última instância, receberão [novas políticas] porque o que mais o Partido Republicano pode fazer? A outra opção seria voltar ao neoliberalismo convencional, e não sei se Ronald Reagan conseguiria se eleger presidente hoje se essa fosse sua plataforma.

FT: O sr. teme uma bolha ESG?

Hubbard: Sim sob vários aspectos. Estamos correndo o risco de fomentar uma política setorial e o rentismo, ao subsidiar apenas ‘coisas verdes’. Receio também a maneira pela qual os CEOs poderão lidar com isso – você não quer que o CEO passe metade de seu dia respondendo a preocupações sociais.

FT: E o protecionismo? Os republicanos podem oferecer uma voz alternativa com relação a isso?

Hubbard: Espero que sim, mas não tenho certeza. A exemplo de quase todos os economistas, talvez com exceção de Peter Navarro, eu acredito no livre comércio. Portanto, por que algo que é óbvio nos princípios gerais da economia não é tão bem- aceito pela população?

Acho que por dois motivos. Um é que, toda vez que seu professor de economia falava das vantagens do comércio exterior, sempre [tinha] a ideia de que haveria perdedores, mas que haveria uma compensação – e não houve.

[Em segundo lugar] o livre comércio é um desses exemplos, como o velho clássico padrão-ouro, de um sistema que é às avessas. Você tem [primeiro] de aceitar as regras do jogo e depois você se adapta. Acho que temos de voltar ao período que diz, olha, precisamos verdadeiramente entender o eleitorado doméstico. Isso pode significar muito mais apoio à formação [educacional], seguro-salário [que cobre a diferença salarial caso um trabalhador seja obrigado a optar por um emprego de menor salário], poderia ser muita coisa em vez de apenas dizer livre comércio.

FT: Trata-se, portanto, de tentar falar de livre comércio com ambas as partes de Adam Smith.

Hubbard: Sim, exatamente. Mesmo Smith, que era o paladino da abertura, não teria estimulado que regiões inteiras fossem simplesmente deixadas para trás. Smith falava muito de lugares – dizia que um homem é um tipo de bagagem difícil de deslocar, o que significa que você tem de procurar lugares, não simplesmente empregos… sua cultura. 

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