The Economist: Brasil com o desafio de se livrar de um golpe anunciado para 2022

The Economist (05/06/21) avalia em matéria de capa: na última década terrível do Brasil, Jair Bolsonaro não é a única razão pela qual seu país está quase enterrado em uma vala. O sistema político que o ajudou a conquistar o cargo precisa de uma reforma profunda.

Os hospitais estão lotados, as favelas ecoam tiros e um recorde de 14,7% dos trabalhadores estão desempregados. Incrivelmente, a economia do Brasil está menor agora do que era em 2011 – e serão necessários muitos trimestres fortes como o relatado em 1º de junho para reparar sua reputação. O número de mortos no Brasil em covid-19 é um dos piores do mundo. O presidente, Jair Bolsonaro, brinca que as vacinas podem transformar as pessoas em crocodilos.

O declínio do Brasil foi chocantemente rápido. Após a ditadura militar de 1964-85, o país conseguiu uma nova constituição que devolvia o exército aos quartéis, uma nova moeda que acabou com a hiperinflação e os programas sociais que, com um boom de commodities, começaram a diminuir a pobreza e a desigualdade. Uma década atrás, o país estava cheio de dinheiro do petróleo e foi premiado com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Parecia destinado a florescer.

O Brasil não aproveitou a oportunidade. Como argumenta nosso relatório especial desta semana, governos consecutivos cometeram três erros.

Primeiro, eles cederam à visão de curto prazo e adiaram as reformas econômicas liberais. A culpa por isso pertence principalmente ao Partido dos Trabalhadores, de esquerda, no cargo em 2003-16. Supervisionou um crescimento de 4% ao ano, mas não investiu para aumentar a produtividade. Quando os preços das commodities caíram, o Brasil enfrentou uma das piores recessões de sua história. Os governos de Michel Temer e Bolsonaro fizeram algum progresso na reforma, mas pararam muito aquém do que é necessário.

Em segundo lugar, em seus esforços para se proteger das consequências do Lava Jato, uma enorme investigação anticorrupção, os políticos têm resistido às reformas que impediriam a corrupção. Os promotores e juízes por trás do Lava Jato são parcialmente culpados. Depois que alguns demonstraram ter uma agenda política, sua investigação ficou paralisada no Congresso e nos tribunais.

Finalmente, o sistema político do Brasil é uma pedra de moinho. Distritos estaduais e 30 partidos no Congresso tornam as eleições caras. Ainda mais do que em outros países, os políticos tendem a apoiar projetos extravagantes para ganhar votos, em vez de reformas dignas de longo prazo. Uma vez no cargo, eles seguem as regras erradas que os elegeram. Eles desfrutam de privilégios legais que os tornam difíceis de processar e de uma grande quantidade de dinheiro para ajudá-los a manter o poder. Como resultado, os brasileiros os desprezam. Em 2018, apenas 3% disseram confiar “muito” no Congresso.

A desilusão abriu o caminho para Bolsonaro. Ex-capitão do Exército com uma queda pela ditadura, ele convenceu os eleitores a verem sua impropriedade política como um sinal de autenticidade. Ele prometeu expurgar políticos corruptos, reprimir o crime e turbinar a economia. Ele falhou em todas as três acusações.

Depois de aprovar uma reforma da previdência em 2019, ele abandonou a agenda de seu ministro da Economia liberal, temendo que custasse votos. A reforma tributária e do setor público e as privatizações estagnaram. As doações em dinheiro ajudaram a evitar a pobreza no início da pandemia, mas foram reduzidas no final de 2020 devido ao aumento da dívida.

A taxa de desmatamento na Amazônia aumentou mais de 40% desde que ele assumiu o cargo. Ele levou uma motosserra para o ministério do meio ambiente, cortando seu orçamento e forçando a saída de funcionários. Seu ministro do Meio Ambiente está sob investigação por tráfico de madeira.

Em covid-19, Bolsonaro apoiou comícios anti-lockdown e curas de charlatães. Ele enviou aviões carregados de hidroxicloroquina para tribos indígenas. Por seis meses ele ignorou ofertas de vacinas. Um estudo descobriu que o atraso pode ter custado 95.000 vidas.

Em vez de lidar com o enxerto, ele protegeu seus aliados. Em abril de 2020, ele demitiu o chefe da Polícia Federal, que investiga seus filhos por corrupção. Seu ministro da Justiça pediu demissão, acusando-o de obstrução da justiça. Dias antes, Bolsonaro havia ameaçado a independência da Suprema Corte. Em fevereiro, seu procurador-geral fechou a força-tarefa Lava Jato.

A democracia brasileira está mais frágil do que em qualquer momento desde o fim da ditadura. Em março, Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa, que se recusou a enviar o exército às ruas para forçar a reabertura de empresas. Se ele perder a reeleição em 2022, alguns acham que ele pode não aceitar o resultado. Ele lançou dúvidas sobre o voto eletrônico, aprovou decretos para “armar o público” e se gabou de que “só Deus” o removerá.

Na verdade, o Congresso do Brasil poderia fazer o trabalho sem a intervenção divina. Sua conduta provavelmente se qualifica como passível de impeachment, incluindo “crimes de responsabilidade”, como instar as pessoas a desafiar os bloqueios, ignorar ofertas de vacinas e demitir funcionários para proteger seus filhos. O Congresso recebeu 118 petições de impeachment. Dezenas de milhares se reuniram em 29 de maio para exigir sua expulsão.

Por enquanto, ele tem apoio suficiente no Congresso para bloquear o impeachment. Além disso, o vice-presidente, que iria assumir, é um general também nostálgico do regime militar. A última vez que o Congresso impeachment de uma presidente, Dilma Rousseff em 2016 por esconder o tamanho do déficit orçamentário, dividiu o país. O Sr. Bolsonaro se apresentaria como um mártir. Muitos de seus apoiadores estão armados.

No longo prazo, além de substituir Bolsonaro, o Brasil deve lidar com o cinismo e o desespero que o elegeu, enfrentando o baixo crescimento crônico e a desigualdade. Isso exigirá uma reforma dramática. No entanto, a própria resiliência que protegeu as instituições brasileiras das predações de um populista também as torna resistentes a mudanças benéficas.

As ações necessárias são assustadoras. Acima de tudo, o governo precisa servir ao público e não a si mesmo. Isso significa reduzir os privilégios dos trabalhadores do setor público, que consomem uma parcela insustentável dos gastos do governo. Os políticos também não devem se poupar. Os titulares de cargos devem ter menos proteções legais. Eles devem sacudir os sistemas eleitoral e partidário para permitir que sangue novo entre no Congresso.

O próximo governo deve combater a corrupção sem preconceitos, conter gastos desnecessários e aumentar a competitividade. A repressão na Amazônia deve ser acompanhada de alternativas econômicas ao desmatamento. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, novos Bolsonaros surgirão.

Uma longa jornada pela frente

Salvo o impeachment de Bolsonaro, o destino do Brasil provavelmente será decidido pelos eleitores no ano que vem. Seus rivais deveriam oferecer soluções em vez de espalhar nostalgia. Seu sucessor herdará um país danificado e dividido. Infelizmente, a podridão é muito mais profunda do que um único homem.

Um dia, em abril, enquanto os hospitais brasileiros ficavam sem oxigênio e 3.000 pessoas morriam de covid-19 por dia, o chefe de gabinete de Jair Bolsonaro, de 64 anos, Luiz Eduardo Ramos, foi agredido. Foi a vez dele, mas ele foi em segredo. Seu chefe é anti-vacina. Quando questionado por que o Brasil estava bloqueando a aprovação da vacina da Pfizer, o presidente brincou que os jabs transformam as pessoas em crocodilos.

O fato de Ramos, um general quatro estrelas que já comandou tropas de paz no Haiti, ter que fugir revela a que profundidade o Brasil caiu sob o governo de Bolsonaro, cuja carreira como capitão do Exército só se destacou quando ele foi preso por insubordinação. O Sr. Ramos confessou seu golpe em uma reunião que ele não sabia que estava sendo transmitida. “Como todo ser humano, eu quero viver”, disse ele.

Antes da pandemia, o Brasil sofria de uma década de problemas políticos e econômicos. Com Bolsonaro como médico, ele agora está em coma. Mais de 87.000 brasileiros morreram de covid-19 em abril, o pior número mensal de mortes no mundo na época. As vacinas são tão escassas que as pessoas com menos de 60 anos não as receberão até setembro. E um recorde de 14,4% dos trabalhadores estão desempregados.

Ainda assim, no dia 1º de maio, os bolsonaristas envoltos em bandeiras brasileiras foram às ruas. Imperturbáveis ​​por uma comissão parlamentar de inquérito (cpi) sobre a forma como o presidente lidou com covid-19, eles aplaudiram sua recusa em usar máscara, seu apoio à hidroxicloroquina e seu desejo de enviar o exército para obstruir as ordens de permanência em casa. A torcida paulista implorou por “intervenção militar”. Uma mulher disse a um visitante que o Brasil nunca teve uma guerra civil. “Já era hora”, disse ela.

Troque o português pelo inglês e o verde e o amarelo pelo vermelho, branco e azul, e o rally poderia ter sido nos Estados Unidos no ano passado. Bolsonaro emprestou muito das táticas de Donald Trump para ganhar as eleições em 2018: populismo, nacionalismo, chauvinismo e notícias falsas. O Brasil ficou traumatizado com a corrupção, recessão, agravamento dos serviços públicos e crimes violentos. Os brasileiros estavam fartos de políticos que não conseguiram resolver esses problemas. O Sr. Bolsonaro canalizou sua frustração.

Ele se retratou como um forasteiro, mesmo tendo passado 27 anos como parlamentar de bastidores, só fazendo notícia quando dizia algo ofensivo sobre mulheres, indígenas ou gays. Fã da ditadura militar de 1964-85, ele costumava posar com os polegares e indicadores levantados como se estivesse atirando com uma metralhadora. Uma vez no cargo, ele se dirigiu diretamente às instituições democráticas do Brasil.

Bons tempos maus tempos

Dez anos atrás, a eleição de Bolsonaro teria sido impensável. Depois da ditadura, o Brasil se reformou. Uma constituição assinada em 1988 criou instituições independentes. Uma nova moeda em 1994 controlou a inflação. Um boom de commodities na década de 2000 trouxe empregos. Com dinheiro na carteira, os brasileiros viram suas vidas melhorar. Sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil juntou-se à Rússia, Índia e China no bloco de economias emergentes de rápido crescimento. Ele liderou negociações sobre o clima e foi premiado com a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Então, o boom das commodities terminou. Os protestos em 2013 por causa de um aumento nas passagens de ônibus se transformaram em protestos com o objetivo de derrubar o governo de esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT). Uma investigação anticorrupção lançada em 2014, conhecida como Lava Jato (Lava Jato), descobriu que dezenas de empresas pagaram propina a políticos em troca de contratos com a Petrobras, a empresa estatal de petróleo. A economia quebrou após gastos irresponsáveis ​​da sucessora de Lula, Dilma Rousseff. Manifestações maiores e mais raivosas levaram ao impeachment de Rousseff em 2016. Seu substituto, Michel Temer, foi acusado de enxerto e quase não escapou do impeachment em 2017.

A eleição de Bolsonaro seguiu-se a esses traumas. Ele tinha pouco financiamento ou tempo de antena, mas foi impulsionado quando foi esfaqueado durante a campanha. Apresentando-se como o salvador do Brasil, ele obteve 55% dos votos. Seu apoio era maior no sul e sudeste, as regiões mais ricas e brancas, e entre conservadores como fazendeiros e evangélicos. Milhões o apoiaram com raiva do pt. Bolsonaro parecia a muitos eleitores o menor de dois males.

Muitos especialistas disseram que as instituições brasileiras resistiriam a seus instintos autoritários. Até agora, eles provaram estar certos. Embora Bolsonaro diga que seria fácil dar um golpe, ele não o fez. Mas, em um sentido mais amplo, os especialistas estavam errados. Seus primeiros 29 meses no cargo mostraram que as instituições do Brasil não são tão fortes quanto se pensava e se enfraqueceram sob seu espancamento. Cláudio Couto, cientista político da Fundação Getulio Vargas, uma universidade de São Paulo, compara-os aos freios de um carro que desce uma ladeira. “Se forçado demais, eles podem falhar”, diz ele.

Veja o judiciário. Lava Jato parecia o triunfo da década. Os brasileiros esperavam que as reformas anticorrupção trouxessem legisladores mais limpos, que agiriam pelo povo e não por si próprios. Mas alguns promotores e juízes da Lava Jato tinham uma agenda política. Isso abriu caminho para que Bolsonaro, em face das acusações contra seus filhos, encerrasse a investigação. Seu fechamento ajudou não apenas políticos corruptos, mas também grupos do crime organizado.

A economia precisa urgentemente de reformas para conter o crescimento dos gastos públicos, impulsionar a competitividade e combater a desigualdade. Como candidato, Bolsonaro professou brevemente sua fé na economia liberal. Ele contratou Paulo Guedes, um defensor do mercado livre formado na Universidade de Chicago, como ministro da Economia. Então ele abandonou ambos, recusando-se a apoiar mudanças que poderiam custar votos. Após uma reformulação das pensões em 2019, a agenda de reformas de Guedes estagnou. Seis dos dez membros de seu “time dos sonhos” econômicos pediram demissão ou foram demitidos.

A pandemia acabou com todos os empregos líquidos criados desde a recessão de 2014-16, enviando milhões de pessoas de volta à pobreza. Nenhum dos quatro ministros da educação de Bolsonaro criou um sistema viável de ensino à distância. Um durou apenas cinco dias antes de ser descoberto que ele enchia seu currículo com diplomas falsos da Argentina e da Alemanha. Cerca de 35 milhões de crianças ficaram fora da escola por 15 meses, um obstáculo para a mobilidade social nos próximos anos.

Na política, “a promessa de renovação era uma grande mentira”, diz Couto. Em 2018, os eleitores expulsaram grande parte da classe política tradicional. Pela primeira vez, o Congresso tem mais novatos do que titulares. Um pequeno grupo comprometido com a responsabilidade fiscal e outras reformas oferece esperança para o futuro. Mas a maioria dos políticos continua a ser glutões de carne de porco e clientelismo. Depois de denunciar o sistema, Bolsonaro se juntou a ele para se salvar de mais de 100 petições de impeachment.

Ele causou muitos danos à floresta amazônica, que no Brasil agora emite mais carbono do que armazena por causa das mudanças climáticas e do desmatamento. O presidente não acredita no primeiro e se solidariza com quem faz o segundo: madeireiros, garimpeiros e fazendeiros. Ele levou uma motosserra para o ministério do meio ambiente, cortando seu orçamento e forçando a saída de funcionários competentes. A redução do desmatamento requer um policiamento mais firme e investimentos em alternativas econômicas. Nenhum dos dois parece provável.

A princípio, covid-19 ajudou Bolsonaro. Grandes gastos com empresas e os pobres o distraíram de seu fracasso em aprovar reformas fiscais. Seus índices de aprovação atingiram brevemente o máximo desde que ele assumiu o cargo. Em julho passado, ele contraiu covid-19 e se recuperou rapidamente, como havia prometido que faria. Parecia que a economia poderia fazer o mesmo, abrindo caminho para sua reeleição em 2022.

Então, no início de 2021, o Brasil foi atingido por uma segunda onda com uma variante mais infecciosa da cidade amazônica de Manaus. Enquanto a mídia social se enchia de imagens de pessoas no vizinho Chile fazendo fila para jabs, os coveiros no Brasil estavam ocupados. Bolsonaro continuou a criticar os bloqueios e as vacinas. Em uma sacudida no gabinete, ele demitiu o ministro da Defesa, que teria se recusado a jurar lealdade. Os chefes das três forças armadas renunciaram em protesto, alimentando brevemente os rumores de um golpe.

Isso não aconteceu. No entanto, este relatório especial argumenta que o Brasil está enfrentando sua maior crise desde o retorno à democracia em 1985. Seus desafios são assustadores: estagnação econômica, polarização política, ruína ambiental, regressão social e um pesadelo ambíguo. E teve de suportar um presidente que está minando o próprio governo. Seus comparsas substituíram funcionários de carreira. Seus decretos têm forçado freios e contrapesos em todos os lugares. Considere o Diário Oficial da União, onde todas as alterações legais são publicadas, diz Lilia Schwarcz, uma historiadora. “Há um golpe todos os dias.”

Necessidade de Reforma Política

Tabata amaral queria ser astrofísica, não política. Ela foi criada na periferia de São Paulo e se formou em Harvard em 2016. Em seu retorno, ela viu o péssimo estado da educação no Brasil e decidiu que apenas uma mudança nas políticas iria melhorá-lo. Então ela lançou uma candidatura ao Congresso e se tornou deputada federal aos 24 anos. Em seu primeiro dia em Brasília, em 2019, ela aprendeu por que mudar é tão difícil. O filho de outro deputado estava ocupando seu apartamento de estado e se recusou a sair. Os políticos ganham muitas regalias: um salário de 405.000 reais, 25 conselheiros à sua escolha, moradia gratuita e foro privilegiado, o que os torna difíceis de punir. Os partidos recebem 2 bilhões de reais entre eles para realizar campanhas. Distritos do tamanho de um estado exigem grandes gastos, então os clãs políticos ricos geralmente ganham. Em troca de seu apoio, o presidente distribui empregos e carne suína.

Alguns jovens políticos querem mudança. Depois de Lava Jato, Sra. Amaral fundou o Acredito (creio), movimento que prega “renovação de pessoas, práticas e princípios”. Ela também ingressou no Renova br, bootcamp de políticas públicas fundado pelo empresário Eduardo Mufarej que formou 117 candidatos antes da eleição de 2018, dos quais 17 foram eleitos. Os membros da Renova br representam partidos em todo o espectro ideológico e nem sempre obedecem às instruções partidárias. A Sra. Amaral quase foi expulsa do Partido Democrático Trabalhista, de centro-esquerda, por votar pela reforma previdenciária.

“Todo político tem que escolher se vai trabalhar para dentro ou para fora”, diz ela. A Sra. Amaral e dois outros congressistas cortaram custos compartilhando pessoal. Seu “gabinete compartilhado” foi o primeiro a propor uma renda básica para os pobres durante a pandemia. Políticos veteranos agora usam a mídia social. “Era como se o público não existisse e agora existe”, diz Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente. A internet pode gerar mais mudanças do que as modestas reformas acordadas até agora, como uma lei de “ficha limpa” que proíbe candidatos com condenações por corrupção por oito anos e uma “cláusula de desempenho” negando fundos a partidos com menos de 3% dos votos.

Reformas mais profundas podem incluir distritos menores, regras mais rígidas de financiamento de campanha e admissão de candidatos independentes. Mas nada parece provável. Embora os eleitores em 2018 tenham elegido um número recorde de novatos, a maioria eram “novos políticos com ideias antigas”, disse Joênia Wapixana, a primeira deputada indígena. Os políticos apóiam o sistema que os colocou no poder. Isso ficou claro quando eles se recusaram a abrir mão do orçamento, embora isso significasse cortes na saúde e na educação. Os deputados podem até apoiar um projeto de lei para aumentar seus mandatos de quatro para cinco anos e trazer de volta doações de campanha corporativa.

Os votos de renovação de Bolsonaro também se revelaram falsos. “Em 2018, foi uma decisão entre algo que sabíamos que havia deixado o país de joelhos e algo que não sabíamos”, disse Mufarej. Isso foi um “erro coletivo”. A desilusão aumentou quando o presidente desperdiçou chances de comprar vacinas. Um executivo da Pfizer disse ao CPI que Bolsonaro ignorou seis ofertas da empresa. Seu índice de aprovação caiu de mais de 40% em agosto para menos de 30%. Mas o Congresso ignorou 111 petições de impeachment contra Bolsonaro. Antes do impeachment de Rousseff, ela enfrentou meses de protestos e seu apoio caiu para 9%.

O CPI dará aos oponentes de Bolsonaro munição para as eleições do ano que vem. A batalha será travada por políticos tradicionais. Seu maior rival é Lula, que quer lembrar aos brasileiros como as coisas eram boas quando ele era presidente. “Os pobres viajavam de avião e ficavam orgulhosos de comer carne aos domingos”, disse ele ao The Economist. “Agora eles estão com fome.” Ainda assim, as avaliações negativas de Lula são quase tão altas quanto as de Bolsonaro. Muitos brasileiros não o perdoaram pelo papel do pt na corrupção. Ele sugere que promotores nos Estados Unidos colaboraram com Lava Jato por “interesse em nossa Petrobras”. Ele admite que a pt perdeu em 2018 por causa de “erros que cometemos”, mas diz que foram econômicos, não éticos. Com o crescimento crescente do desemprego estagnado, “o papel do governo é colocar dinheiro na mesa”, diz ele.

Se a eleição fosse realizada hoje, o resultado mais provável seria um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Alguns dos críticos de Lula tapariam o nariz e votariam nele. “Pelo menos o pt está no espectro democrático”, diz Cardoso, cujo Partido da Social-Democracia Brasileira foi por muito tempo seu maior rival. Os partidos de centro estão lutando para encontrar uma alternativa. “Lula e Bolsonaro veem o país pelo retrovisor”, diz Luciano Huck, apresentador de TV que pode concorrer. Outras opções incluem João Doria, governador de São Paulo, e Ciro Gomes, ex-governador que ficou em terceiro lugar em 2018. Mas, se mais de um concorrer, eles podem dividir o voto de centro.

Problemas à frente?

Se Bolsonaro perder, pode haver protestos. O ex-ministro das Relações Exteriores chamou aqueles que contestaram a perda de Trump de “bons cidadãos”. Em um levante bolsonarista, alguns policiais brasileiros podem aderir. Quanto ao exército, pode dividir as fileiras, diz um ex-oficial. Foi o que aconteceu em 1964. O golpe contra João Goulart, um presidente populista, foi amplamente apoiado por brasileiros na esperança de que a democracia voltaria em breve. Os generais governaram por 21 anos.

Carlos Alberto Santos Cruz, o ex-chefe de gabinete de Bolsonaro, insiste que os generais de hoje estão comprometidos com a democracia. Os que estavam no gabinete se juntaram como cidadãos, não soldados, diz ele. Ainda assim, ele admite que os mais de 6.000 soldados em empregos públicos deixam a impressão de “que os militares estão participando”. Muitos podem querer que Bolsonaro fique, incluindo Eduardo Pazuello, um ex-ministro da saúde sob escrutínio do cpi por ignorar os apelos de Manaus antes que os hospitais ficassem sem oxigênio em janeiro.

O exército despreza o PT por seu papel na corrupção e pela criação de uma comissão da verdade para investigar os abusos dos direitos humanos durante a ditadura. Em 2018, antes que o Supremo Tribunal rejeitasse um apelo para salvar Lula da prisão, o comandante do Exército tuitou que sua instituição estava “alerta” e “compartilha o desejo de todos os bons cidadãos de repudiar a impunidade”. Foi percebido por muitos como um aviso.

Bolsonaro chama as forças armadas de “meu exército”. Ele diz que pode ordenar que abram negócios que os governadores fecharam por causa da pandemia. A recente renúncia de comandantes superiores sugere que eles podem rejeitar tais ordens, mas Bolsonaro está tentando torná-los mais leais, diz Antonio Ramalho, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília.

Os soldados tiveram aumentos salariais e foram poupados dos mais profundos cortes nas pensões. Em fevereiro, o presidente tentou sem sucesso conceder a Pazuello uma quarta estrela. Mudar as regras de promoção para que oficiais mais jovens possam avançar rapidamente é uma tática que funcionou bem para Hugo Chávez na Venezuela. “As pessoas subestimaram o Bolsonaro”, diz Ramalho. “Ele está pensando no futuro.” ■

1 thought on “The Economist: Brasil com o desafio de se livrar de um golpe anunciado para 2022

  1. Prezado Fernando,

    nossos políticos negam tudo, são energúmenos em todos os sentidos: obsoletos, acreditam em inexistentes, mal-preparados, mal-educados, são os piores seres do planeta. Caso uma pessoa acredite em inexistentes em pleno século XXI, trata-se de um desqualificado.

    Nossa classe política é o pior DNA que já existiu, são aberrações públicas, um câncer para o país e não merecem respeito.

    Nós deveríamos escolher a “Natália Pasternak” como candidata para 2022; é cética, acredita e usa CVJV (conhecimento verdadeiro justificado e válido), defende a ciência, seus métodos e atua com total engajamento acadêmico.

    Nosso país está sendo representado e gerido: pelo pior dos piores, quando deveria ser ao contrário.

    Chegaremos ao final de junho com meio milhão de mortos pela COVID-19, a culpa não é do vírus e sim das incompetências dos nossos políticos, seres desprezíveis que causam esse enorme sofrimento ao próprio povo.

    A cientista Natália reconhece a mea-culpa dos acadêmicos em ficarem quietos e deixar que os inexistentes sejam considerados verdadeiros, quando na realidade são falsos e prejudiciais ao Brasil. Segue uma de suas palestras. Abs.

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