Evangélicos: de Bíblia a Dinheiro, Passando pela Política

The Economist (Special Report, 05/06/21) narra: todos os domingos às 16h na Barra de Pojuca, uma cidade pobre da Bahia, as ruas de repente ficam vazias. Você pode pensar que as pessoas estão fazendo uma sesta, até que avista as igrejas lotadas. “Para cada irmã na igreja, há um irmão no bar”, brinca Cremilda, um membro das Assembléias de Deus, enquanto sobe para a capela de blocos de concreto. Mas nos 20 anos desde que ela ajudou a construir a igreja, mais homens estão escolhendo Bíblias em vez de cervejas.

Em 1970, apenas 5% dos brasileiros eram evangélicos. Agora, um terceiro é. O movimento deve seu crescimento à rápida urbanização. Os pastores chegaram com pouco mais do que uma Bíblia e pregaram em palavras que as pessoas entendiam.

O pentecostalismo ofereceu adoração viva e soluções para problemas terrenos como pobreza, abuso de álcool ou violência doméstica. Um estudo com homens brasileiros em 2014 descobriu que a fé protestante estava ligada a um aumento nos ganhos, especialmente entre homens negros com menor escolaridade.

“Tornar-se evangélico não é apenas uma aposta no sobrenatural, mas uma escolha” por uma vida melhor, escreve Juliano Spyer, um antropólogo, em um novo livro.

O maior subconjunto de evangélicos são mulheres negras pobres, um grupo que Bolsonaro ridicularizou. Mesmo assim, dois terços dos evangélicos votaram nele, muitos por conselho de seus pastores. As igrejas evangélicas antes evitavam a política. Seus representantes na convenção constitucional do Brasil em 1988 exortaram os católicos a manter o estado secular. Mas eles perceberam que a política poderia promover objetivos como a oposição aos direitos dos homossexuais e ao aborto, ou permanecer isento de impostos. A política também se tornou uma forma de lidar com a competição religiosa, diz Amy Erica Smith, cientista política da Universidade Estadual de Iowa. O lobby evangélico no Congresso inclui 195 dos 513 deputados federais.

Entre as mais de 40 denominações do Brasil, a mais partidária é a Igreja Universal do Reino de Deus (uckg), que tem 2 milhões de membros e 8.000 igrejas. Foi fundada em 1977 por Edir Macedo, ex-lotérico dono de uma emissora de TV. Ele uma vez apoiou o pt, mas em 2018 declarou-se a favor de Bolsonaro (que é católico, mas foi rebatizado no rio Jordão por um pastor pentecostal). Os membros foram bombardeados com propaganda anti-pt. Alguns vacilaram, diz Jacqueline Teixeira, antropóloga da Universidade de São Paulo. Mas depois que Haddad chamou Macedo de “charlatão fundamentalista”, eles sentiram que, se não votassem em Bolsonaro, “estariam negando sua identidade religiosa”, diz ela.

O apoio evangélico a Bolsonaro reflete a insatisfação com as políticas progressistas do pt e seu papel na Lava Jato. “Quando a igreja entra na política, ela traz moral”, diz Antônio Falcão, ex-vereador batista de Barra de Pojuca. Bolsonaro não legalizou a educação religiosa do Estado nem proibiu o casamento gay, mas aumentou a punição para pessoas condenadas por violência doméstica e cortou o financiamento público do cinema brasileiro, chamando-o de “pornográfico”.

Em abril, seu nomeado para a suprema corte decretou que as igrejas poderiam ser abertas no domingo de Páscoa, apesar de covid-19. Cerca de 500 pessoas lotaram um templo uckg em Porto Velho. O pastor repreendeu a congregação por faltar aos serviços religiosos. “Você tem fé nos médicos, tem fé nas vacinas, mas não tem fé em Deus?” ele chorou. Os obreiros da igreja prontamente apareceram com bolsas de veludo; o uckg instrui seus membros a doar 10% de sua renda para a igreja. “O que importa é que você seja bom para Deus”, disse o pastor.

Apenas 35% dos evangélicos desaprovam o senhor Bolsonaro, contra 44% de todos os brasileiros. Mesmo assim, alguns podem romper com ele em 2022. Marina Silva, uma ex-senadora evangélica, diz que os políticos devem ser julgados por suas credenciais, não por seu credo. Assembléias de Deus são menos hierárquicas do que o uckg. Tem megaigrejas com pastores bolsonaristas, mas a maioria de seus 12 milhões de membros pertence a congregações fechadas como a de Cremilda. O pastor Josemar diz que está farto de “representantes que não nos representam”.

Em 2018, os evangélicos eram “como frango com nossas cabeças cortadas”, comenta um amigo de Cremilda. Agora ela pensa que o presidente “não é um homem de Deus”. Mas Cremilda está indecisa. Ela está esperando para ver se outros candidatos compartilham seus valores cristãos. “Bolsonaro perdeu o rumo”, diz ela, mas acredita no poder da redenção.

Conteúdo completo deste relatório especial
Brasil: O capitão e seu país
A economia: um sonho adiado
Corrupção e crime: escorregando para trás
A Amazônia: árvores de dinheiro
Política: Precisa de reforma

  • Evangélicos: de Bíblias e cédulas
    Os clientes em potencial: hora de ir

Full contents of this special report
Brazil: The captain and his country
The economy: A dream deferred
Corruption and crime: Sliding back
The Amazon: Money trees
Politics: In need of reform
* Evangelicals: Of Bibles and ballots
The prospects: Time to go

1 thought on “Evangélicos: de Bíblia a Dinheiro, Passando pela Política

  1. Prezado Fernando,

    ao analisar pelo lado da antropologia cultural, os povos que não conseguiram superar as crenças em inexistentes são aqueles cujos sistemas educacionais possuem um erro degrau elevado.

    Atribuição do erro degrau é quando nem o aluno e nem o professor ou seus mestres, percebem que ambos estão errados na tentativa de identificar qual a lógica correta na classificação de determinado conhecimento.

    Isso provoca o Viés do ponto cego que é a tendência de indivíduos se perceberem como menos suscetíveis a vários tipos de vieses cognitivos do que o restante da população. Esse viés foi nomeado e descrito pela psicóloga Emily Pronin da Universidade de Princeton após ela e sua equipe analisarem uma série de experimentos que abordavam este fenômeno psicológico.

    Segue um resumo sobre os vieses cognitivos: https://rcristo.com.br/2021/03/08/o-que-e-vies-cognitivo-e-como-isso-nos-afeta/

    Como nasce o conhecimento?

    O conhecimento nasce com a percepção das possibilidades existenciais.

    C = P{E} ou C = P{{}}.

    Em qualquer conjunto X, existem conjuntos mensuráveis cuja origem é o vazio { } em todo o espaço X.

    C: X → R ∪ {±∞}

    E qual a razão do povo acreditar em inexistentes tipo Deus?

    A conclusão é: Não há nenhuma razão, é pura crise de percepção! Existencial é Claro. Abs. 😉

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