Desindustrialização Brasileira com a Nova Divisão Internacional do Trabalho

Download da Carta IEDI:

IEDI – Regressão industrial em curto e longo prazo

A pandemia de Covid-19 impactou negativamente a atividade econômica do Brasil e do mundo em 2020. O choque foi sentido de diversas formas em todas as atividades econômicas – lockdowns, suspensão de atividades menos essenciais e interrupção das cadeias internacionais de suprimento –, inclusive na indústria de transformação. 

Os países adotaram pacotes robustos de medidas fiscais, monetárias e sanitárias almejando manter empregos e sustentar uma demanda mínima, mantendo os mercados funcionando e evitando falências em série. 

As respostas econômicas, embora na direção certa, não conseguiram, entretanto, evitar que a crise econômica da Covid-19 fosse a mais grave em cem anos, provocando perdas substanciais do PIB total e da indústria em diversos países. 

O Brasil não foi uma exceção, como tem mostrado vários estudos do IEDI nos últimos meses, ainda que o quadro não tenha sido tão catastrófico como muitos esperavam no início da pandemia. 

Esta Carta IEDI avalia o desempenho da atividade manufatureira do Brasil e do mundo em 2020, estimando o impacto da Covid-19 na queda de participação relativa da indústria na estrutura produtiva do país, pelo qual temos passado nas últimas décadas. Deste modo, atualiza muitos dados da Carta IEDI n. 940 “Um ponto fora da curva”, de 02/08/2019, que já havia mostrado que a retração industrial do Brasil é prematura e uma das mais intensas do mundo.

No presente estudo, foi contrastada a evolução da indústria no Brasil vis-à-vis à do restante do mundo. Isso porque, diferentemente do caso brasileiro, até a pandemia ocorrer, a indústria mundial não só não vinha apresentando perda de participação no PIB global, como na verdade dava sinais de elevação. Ou seja, o retrocesso industrial não é um fenômeno visto em toda parte.

Em 2020, embora o PIB da manufatura tenha caído muito no Brasil, chegando a -4,3%, segundo o IBGE, foi menos do que no restante do mundo (-8,4%). As razões disso incluem a adoção de medidas emergenciais eficazes, a exemplo do auxílio pago às famílias, que somou 4,0% do PIB e contemplou 67,8 milhões de pessoas ou 45% dos lares brasileiros.

Mas também há outros fatores menos nobres, como o fato de não termos conseguido implementar períodos de lockdown tão rígidos quanto em outros países para evitar o espalhamento do coronavírus, e o timing distinto da pandemia no mundo, com a segunda onda da Covid-19 vindo ocorrer no Brasil só em 2021, mas em outros países, como os europeus, ainda em 2020.

No Brasil, como a indústria caiu em linha com o PIB total (-4,1%), sua participação pouco se alterou, mas ainda assim não estancou o retrocesso da manufatura em nossa estrutura produtiva, que passou de 11,92% do PIB em 2019 para 11,88% do PIB em 2020 a preços constantes de 2015.

No âmbito mundial, devido à crise da Covid-19, a participação da indústria no PIB recuou de 17,25% para 16,56% entre 2019 e 2020, a preços constantes de 2015, interrompendo uma trajetória de moderada elevação desde os anos 1990, ensejada pela industrialização chinesa.

Se for considerado o total mundial exceto China, o declínio industrial foi mais acentuado, passando de 14,81% do PIB em 2019 para 13,97% em 2020, também a preços constantes de 2015. 

A despeito do recuo menos intenso da indústria brasileira em 2020, para melhor compreensão do quadro industrial do país, os efeitos da pandemia devem ser inseridos em uma trajetória de longo prazo. 

Em 1980, o Brasil apresentava um grau de industrialização superior ao total mundial, isto é, a manufatura respondia por uma parcela de nosso PIB de 21,1%, superior aos 15,6% da média mundial. Em 2020, a situação se inverteu e, como vimos anteriormente, esta participação no Brasil ficou 4,7 p.p. abaixo da média global e 2,1 p.p. abaixo se excluirmos a China do agregado mundial.

Se olhar para trás não serve de alento, para frente também não traz sinais promissores. Os últimos dados do PIB brasileiro mostram crescimento de +1,2% para o PIB total no 1º trim/21, mas declínio de -0,5% da indústria de transformação. Com isso, a parcela da manufatura recuou novamente, para 11,5% do PIB neste início de ano, quando comparado ao resultado de 2020 como um todo.

É um retrocesso industrial quase contínuo nas últimas décadas que está levando a manufatura a contribuir diretamente com um décimo do PIB. Cabe lembrar, contudo, que direta e indiretamente, os produtos industriais continuam a apresentar uma contribuição muito acima de qualquer outro setor da economia em termos de ramificações produtivas (conexão com múltiplos setores), gastos com atividades tecnológicas e arrecadação tributária.

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