Endividamento de Empresas Brasileiras

Assis Moreira (Valor, 30/06/21) informa: para o Banco de Compensações Internacionais calcula que companhias brasileiras terão dívidas a pagar nos próximos dois anos em valor equivalente a 45% de seu lucro líquido. É o maior percentual entre sete grandes emergentes examinados.

Em seu relatório anual, o BIS examina um cenário alternativo sobre a economia global centrado na pandemia de covid-19. Leva em conta uma situação na qual as campanhas de vacinação não avançariam, faltaria tratamento e novas cepas do vírus, resistentes às vacinas, poderiam emergir, levando a novos lockdowns.

Os países com margem política mais limitada, especialmente muitos emergentes, seriam os mais atingidos. Nesse caso, as perdas do setor corporativo poderiam aumentar e alguns sistemas bancários poderiam enfrentar pressões.

Baseado na relação histórica entre taxas de infecção, lockdown e Produto Interno Bruto (PIB), o BIS calcula que a emergência de um vírus resistente a vacinas poderia diminuir o PIB entre 1,5% e 3,5% na segunda metade deste ano. Regiões onde a vacina avançou mais sofreriam o maior impacto no crescimento por causa desse retrocesso.

Os balanços das companhias estão mais expostos desde o começo da pandemia, com alta substancial de empréstimos, sobretudo no caso daquelas menos lucrativas.

Assim, o efeito adverso de crescentes falências seria amplificado a partir de seu impacto sobre bancos e outras instituições financeiras.

Mas o BIS observa que, mesmo que não se concretize um aumento das insolvências, as empresas terão que enfrentar um aumento do pagamento devido ao grande crescimento de empréstimos contraídos no início da pandemia. O valor de dívidas doméstica e externa a pagar nos próximos dois anos aumentou significativamente em muitos países desenvolvidos e em vários grandes emergentes.

Em alguns países, esse repagamento excede 50% do lucro líquido das firmas. Na Itália, em três a cinco anos a fatura a pagar vai ser equivalente a 66% do ganho das companhias. Já na França, cai de 42,7% em dois anos para 7,6% entre três e cinco anos.

Entre sete grandes emergentes (Brasil, China, Índia, Coreia, África do Sul, Turquia e Rússia), são empresas brasileiras que terão mais aumento de pagamento de dívidas nos próximos dois anos. Em um a dois anos, o valor da dívida que elas vão precisar pagar equivale a 45,42% de seu lucro líquido. Esse percentual cai para 12% em três a cinco anos.

Em comparação, na China as empresas pagarão 22,25% de seu ganho em até dois anos, mas entre três e cinco anos essa conta representará -17,6%, ou seja, alívio financeiro importante. Na Índia, em até dois anos não haveria pagamento de dívida (-10% na verdade), mas a fatura passa a 16,3% do lucro entre três e cinco anos.

Para o BIS, há sinais de que a recuperação a partir da pandemia poderia confirmar a necessidade do aumento do pagamento de dívidas pelas empresas, “pelo menos nos países onde progresso com vacinação é lento, atrasando o relaxamento de medidas de confinamento”.

Se as dívidas não puderem ser reescalonadas, pagá-las vai requerer das companhias reduzir custos ou cortar investimentos. Instituições financeiras sob pressão e firmas altamente endividadas também atrasarão a realocação de recursos.

Para o BIS, esse cenário seria mais desafiador sobretudo para os emergentes, por causa de vulnerabilidades pré-existentes e elevada aversão a risco de investidores.

A forte liquidez global e a demanda do investidor internacional por ativos de melhores retornos formam o pano de fundo para o reaquecimento do mercado de captações externas. Caminha para fechar o ano com marcas históricas.

Segundo dados do Morgan Stanley, já foram feitas este ano 30 emissões, incluindo a captação soberana realizada pelo Tesouro ontem, o que é um recorde. Em termos financeiros, o volume está em US$ 21 bilhões, ante US$ 27,9 bilhões vistos durante todo o ano de 2020, indicando que, confirmado o ritmo esperado pelos especialistas, este pode ser o melhor ano em, pelo menos, uma década.

O Tesouro Nacional engrossou a fila das captações externas bem-sucedidas, aproveitando o bom momento de mercado. Foi emitido US$ 1,5 bilhão em um novo título de dez anos, à taxa de 3,875%, e US$ 750 milhões na reabertura do bônus de 30 anos, a 4,925%. Nos dois casos, o rendimento ficou abaixo do guidance, refletindo a forte demanda, estimada em cerca de US$ 8 bilhões. O spread sobre o Treasury de dez anos ficou em 240,2 pontos-base, abaixo do observado na emissão de dezembro de 2020.

Embora a operação tenha ocorrido às vésperas da pausa esperada para esse mercado, devido às férias de verão no Hemisfério Norte, o resultado tão positivo deve estimular outros emissores a aproveitar os primeiros dias de julho para antecipar captações.

Há outras operações no ‘pipeline’, preparadas para saírem depois do feriado americano de 4 de julho, então haverá mais captações na próxima semana. Foi notória a melhora nas condições de preço observadas no mercado, o que acabou determinando o momento da operação soberana de ontem, que veio na sequência de outras operações também bem-sucedidas, da Suzano e da XP, de US$ 1 bilhão e US$ 750 milhões, respectivamente. O Tesouro não precisava de funding neste momento, mas aproveitou a oportunidades.

A queda do juro da T-note, título do Tesouro americano de 10 anos, para baixo de 1,50%, nível historicamente baixo, já é por si só uma das razões para o aquecimento desse mercado. Esse nível baixo de juro, num momento de liquidez abundante, leva os investidores a aceitarem correr mais risco para melhorar o rendimento de suas aplicações.

Uma boa medida do apetite do investidor é a queda do prêmio de risco pago pelos papéis. O spread em relação ao Treasury de dez anos da cesta de bônus corporativos brasileiros está hoje perto de 250 pontos-base, também muito perto da mínima histórica. Apenas em 2018 esse prêmio escorregou pontualmente abaixo desse nível, para 244 pontos.

Esse ambiente explica uma característica especial da recente leva de captações externas: a presença marcante de empresas novatas nesse mercado, em vez das emissoras mais tradicionais. Este ano, empresas como Amaggi (US$ 750 milhões), Unigel (US$ 110 milhões), Atento (US$ 500 milhões) e Stone (US$ 500 milhões) foram ao mercado internacional. Além delas, chamou atenção a captação pela Azul (US$ 750 milhões), empresa castigada pelos efeitos da pandemia e que recorrer ao mercado de dívida internacional para se capitalizar.

A disposição do investidor em comprar ativos arriscados trouxe mais confiança para novos emissores. Há uma tendência global clara do mercado de comprar papéis mais arriscados, e isso explica o perfil dos emissores este ano.

Ao mesmo tempo, as grandes companhias estão bastante líquidas e não precisam captar neste momento. Os emissores mais tradicionais são justamente companhias exportadoras de commodities, que têm hoje um bom momento de caixa dada a forte valorização das matérias-primas.

O Mercado deve continuar bastante ativo ainda que com volumes e demanda mais brandos do que se viu até aqui. Entramos numa fase de menos euforia. Mas, ainda assim, o especialista acredita que seja possível ver um volume total de emissões acima de US$ 30 bilhões este ano. Temos outros mandatos, de cinco a dez empresas novas podem ir ao mercado.

Outro fator que pode estimular empresas a captarem no segundo semestre – provavelmente com mais força entre setembro e dezembro – é a expectativa pelo ano eleitoral, que traz o risco de muito mais volatilidade. Algumas empresas já foram a mercado tentando se antecipar a 2022, e esse movimento pode ser mais evidente daqui para frente. Os grandes drivers para o mercado este ano foram a necessidade de diversificação da fonte de recursos pelas empresas e a antecipação à volatilidade ao ano eleitoral.

A política monetária americana, que pode afetar os juros de longo prazo no mercado global, é uma variável também a ser monitorada. O mercado já está se posicionando agora, porque a curva dos Treasuries pode mudar.

1 thought on “Endividamento de Empresas Brasileiras

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Cresce o endividamento das pessoas no Brasil, tanto jurídicas como físicas – estas atingindo 70% das famílias, recorde em 11 anos.
    Resultado da falta de governo: milhões não têm salário nem auxílio para pagar suas contas, centenas de milhares de empresas baixaram as portas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s