Confusão nas Estatísticas sobre Mercado de Trabalho e Anúncio de Política Recessiva para o próximo Governo pelo CMN

Cláudia Safatle escreveu artigo denunciando os dados sobre mercado de trabalho confundirem os analistas (Valor Econômico, 25/06/21).

A substituição do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) pelas estatísticas do eSocial (Sistema de Escrituração Fiscal Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas), em fase de transição, obscureceu as informações sobre a real situação do mercado de trabalho no país, justamente neste momento quando políticas públicas estão sendo discutidas e desenhadas para minimizar o drama do desemprego recorde e da grave desigualdade de renda.

Até 2019 a prestação de contas do emprego formal, das empresas para o governo, era feita por um sistema próprio do Caged. Com a mudança, ela passou a ser feita através das informações colhidas pela plataforma única do eSocial.

Essa era, aliás, uma antiga reivindicação das empresas obrigadas a preencher 13 diferentes documentos oficiais com as informações relativas às admissões e desligamentos de empregados. Nesse sentido, a substituição dessa coletânea por uma única plataforma seria bastante elogiável.

Dentre os problemas gerados, porém, está o fato de nem todas as empresas aderiram a esse novo sistema e boa parte das que aderiram não informou os desligamentos, mas somente as admissões, segundo informações em notas técnicas oficiais.

Algumas continuaram informando sobre as demissões no Caged tradicional e outras simplesmente não passaram essa informação para as estatísticas.

A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, outra base de dados coletados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revela a taxa oficial de desemprego do país, mas também enfrenta problemas.

Um estudo feito em março pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontou que, ao deixar de ser presencial para ser feita por telefone, por causa da pandemia, a pesquisa teria reduzido o número de entrevistas pela dificuldade do IBGE em obter um cadastro de telefones. Tal suspeita decorre do fato de a queda estar concentrada, sobretudo, no grupo de indivíduos que seriam entrevistados pela primeira vez no segundo trimestre de 2020.

O box “Estimativas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua ajustadas para a redução da taxa de respostas na pandemia”, do Relatório Trimestral de Inflação, divulgado no dia 24/06/21, pelo Banco Central, investigou os impactos da diminuição da taxa de respostas da Pnad Contínua em indicadores do mercado de trabalho.

Os resultados de dois métodos de ajuste indicam que o possível “viés de seleção em variáveis ligadas à demografia não parece ter implicado mudanças relevantes em estimativas agregadas de ocupação e participação no mercado de trabalho”, diz o texto.

“Está bem complicado acompanhar as estatísticas do mercado de trabalho”, admite Bruno Ottoni, pesquisador da IDados, salientando a mudança na relação entre os dados do emprego e a atividade econômica. Ottoni atribui a dificuldade à fase de transição de um sistema para outro e considera que o novo Caged, que será produzido com as informações do eSocial será mais tempestivo e facilitará a vida das empresas que vão operar em uma única plataforma.

O novo Caged será mais amplo do que o velho, pois vai levar em conta subgrupos celetistas a exemplo de bolsistas e microempresários individuais (MEIs), até então não contabilizados pelo cadastro geral.

O Caged foi criado em 1965 com fins trabalhistas, enquanto o eSocial, criado em 2014, tem caráter tributário, previdenciário e trabalhista. Por esse motivo, o último sistema capta um volume de informações mais amplo que o Caged. Isso se a adesão das empresas for grande e se as informações forem preenchidas de forma correta.

Nota técnica da Secretaria do Trabalho do Ministério da Economia, de meados do ano passado, chama a atenção, como citado anteriormente, para o fato de parte relevante das empresas ter informado as contratações mas não os desligamentos.

Informações da Pnad revelam que no último trimestre de 2020 o número de desocupados chegou a 13,92 milhões, comparados a 11,63 milhões de desocupados no ultimo trimestre do ano anterior, antes, portanto, da pandemia.

A população ocupada caiu de 94,55 milhões de pessoas em 2019 para 86,17 milhões em igual período de 2020. A força de trabalho, portanto, que era de 106,18 milhões de pessoas em 2019, com a pandemia caiu para 100,10 milhões. Será muito difícil, senão impossível, que a diferença de 6 milhões de pessoas seja absorvida pelo mercado de trabalho neste ano.

Análise do Banco Central confirma a relação negativa entre a crise sanitária e o nível de atividade no Brasil, porém, ela não se mostra constante ao longo do tempo e sua sensibilidade, na verdade, diminuiu em 2021 até abril, o que pode ajudar a explicar a surpresa positiva com os dados econômicos no período.

As conclusões constam de um exercício da autoridade monetária apresentado no Relatório de Inflação (RI) de junho, divulgado ontem. “A mudança nessa relação ajuda no entendimento da surpresa positiva com a atividade econômica desde o último Relatório de Inflação [março] apesar da intensificação da crise sanitária”, diz o BC.

No modelo usado, a associação entre a intensidade da pandemia e a atividade econômica, com controle para efeitos-fixos de localidade e tempo, reflete “estritamente como a atividade econômica em um determinado local responde a mudanças na epidemia naquele mesmo local”, explica o BC.

O Índice de Atividade Econômica Regional do Banco Central (IBCR) foi usado como aproximação para a atividade, enquanto a intensidade da pandemia foi medida pela média diária por milhão de habitante de óbitos por covid-19 ou de internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG). A amostra compreende o período entre abril de 2020 e abril de 2021.

“Para as duas métricas, o coeficiente de inclinação estimado é negativo, indicando que um agravamento da crise sanitária está associado a deterioração da atividade econômica”, diz o BC.

O relatório observa ainda que o nível de atividade está positivamente associado a um aumento da mobilidade, mas há uma relação negativa entre a mobilidade e a intensidade da pandemia. “Os coeficientes estimados sugerem, como esperado, que a relação negativa entre pandemia e atividade econômica se dá pela piora da mobilidade”, aponta o relatório.

Para avaliar se a sensibilidade da relação entre atividade e o agravamento da pandemia mudou ao longo do tempo, o BC também fez estimativas em janelas móveis de três meses. A autoridade monetária observou que a relação entre a intensidade da pandemia e o nível de atividade foi mais forte no início da amostra e diminuiu, deixando de ser estatisticamente significativa, nas janelas que se iniciam em julho de 2020 ou depois e terminam em dezembro ou antes.

“Nas janelas com amostras que começam a partir de novembro de 2020 e terminam até abril de 2021, o coeficiente da associação entre a pandemia e a atividade voltou a ser significativo. Para o período até fevereiro de 2021, o tamanho do coeficiente estimado foi próximo ao do início da pandemia”, nota o BC. Nas últimas duas janelas, porém, que têm dados exclusivamente do ano de 2021 (janeiro a março e fevereiro a abril), o coeficiente estimado foi menor, apesar do recrudescimento da pandemia.

Isso significa, diz o BC, que recentemente houve uma redução da sensibilidade da atividade econômica à intensidade da pandemia, fato que, segundo o relatório, pode estar ligado à surpresa positiva com os dados da atividade econômica no período.

Os modelos sugerem que a redução da sensibilidade da atividade à pandemia ocorreu tanto pela redução da associação da mobilidade com a questão sanitária, quanto pela diminuição do impacto da mobilidade no nível de atividade. “O resultado é compatível com a ideia de que houve aumento da capacidade de produção e consumo para um dado nível de mobilidade”, diz o BC.

Em outro exercício no RI, a autoridade monetária avaliou ainda que os desafios enfrentados pelo IBGE para realizar a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua na pandemia – com a migração da coleta presencial de dados para o telefone e consequente redução da taxa de respostas – não parece ter implicado mudanças relevantes em importantes indicadores da pesquisa, como a população ocupada e a participação no mercado de trabalho.

Por fim, determinando a política monetária para o próximo governo social-desenvolvimentista a ser eleito em 2022 e abusando já da autonomia relativa do Banco Central, o Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou no dia 24/06/21, sob a presidência do neoliberalismo, a meta de inflação de 2024 em 3%, 0,25 ponto percentual abaixo do objetivo definido para 2023. Para 2021 e 2022, as metas são de 3,75% e 3,5%, pela ordem. A margem de tolerância permitida para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 1,5 ponto para mais ou para menos, foi mantida.

Com a decisão, o CMN deu continuidade a um ciclo de diminuições já durando seis anos e alinhou o alvo central brasileiro ao de outros emergentes, indiferente à conjuntura econômica de Grande Depressão inflacionária. Pares como Chile, Colômbia e México já perseguem 3% como centro da meta. No Peru, o objetivo é 2%.

Buscar uma alta de preços menor e mais próxima da de seus pares é algo positivo, avaliam economistas, mas o processo de convergência da inflação brasileira a níveis mais civilizados também precisa ter contrapartida de uma consolidação fiscal mais robusta. Sem essa ajuda, serão necessários juros mais elevados para atingir a meta.

Por meio de nota divulgada pelo Ministério da Economia, o CMN informou a fixação da meta para 2024 reduzir incertezas e aumentar a capacidade de planejamento das famílias, das empresas e do governo. “A redução em 0,25 ponto percentual na comparação com a meta de 2023 é coerente com a elevada credibilidade da política monetária”, afirmou o Conselho.

De acordo com o CMN, a expectativa de inflação futura, projetada no boletim Focus, mostrou-se ancorada à trajetória de reduções da meta anteriores, e a variância das expectativas tem caído substancialmente com as diminuições da meta.

Economista-chefe da XP Investimentos pauta o CMN ao afirmar o consenso de mercado para o aumento do IPCA em 2023, de acordo com o boletim Focus, estar em 3,25%. “Será interessante observar se essas expectativas vão convergir à nova meta nas próximas semanas”, disse, para quem a decisão de ontem do CMN não deve ter efeito na trajetória da política monetária no curto prazo, uma vez que o horizonte relevante considerado pelo BC é de 18 meses à frente.

De qualquer forma, avaliou o número divulgado ontem como positivo, uma vez que a inflação seria o principal instrumento de concentração de renda. Ele também observa que, ao mirar 3%, o BC está buscando uma inflação mais em linha com os nossos pares. Além disso, acrescentou, uma meta de 3,25% é compreensível por um ano, devido ao processo de convergência, mas manter esse nível teria sido “estranho”.

A economista-chefe do Credit Suisse, concorda, mas pondera: o CMN poderia ter avançado ainda mais na definição de uma meta de longo prazo. “3% deveria ser uma meta para os próximos anos. Finalizamos uma convergência da meta do Brasil para a média dos emergentes, e isso deveria ser mantido também daqui para frente.” Com essa mudança, o horizonte relevante para a política monetária poderia ser móvel, ressaltou, o que aumentaria a transparência.

A despeito de projetar inflação acima da meta para 2022 (4,5%), Solange aponta que uma meta de 3% para o Brasil é atingível e o BC tem credibilidade, o que ajuda a ancorar as expectativas. “Mas por mais que o BC faça seu trabalho, as expectativas reagem muito ao fiscal. Será mais fácil atingir essa meta se a agenda de reformas continuar avançando e com medidas que tornem o teto de gastos factível”, ponderou.

Segundo Nelson Marconi, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV de São Paulo (FGV EAESP), ter uma inflação baixa é o melhor para o país, mas há duas questões mal equacionadas no Brasil: a situação fiscal frágil e a produtividade baixa. Diante destes dois fatores, metas menores de inflação só seriam atingidas com juros mais altos, o que é prejudicial para o crescimento e para a trajetória da dívida pública. Ou, então, a meta não será cumprida, o que também tem consequências negativas para a economia, observou.

“Para o governo conseguir cumprir essa meta sem equacionar essas duas questões, vai restar praticar uma política de juros altos. E pode ser que isso nem dê o resultado esperado”, afirma Marconi, para quem a decisão mais correta neste momento teria sido manter o alvo em 3,5%.

“Seria melhor uma meta estável no patamar atual, mas que declinasse à medida que se fizessem mudanças relevantes na economia”, diz o economista, referindo-se a decisões como reforma tributária, controle maior dos gastos correntes e iniciativas que diminuam o peso das despesas do governo com pessoal.

“Do contrário, sabemos que a inflação vai ficar acima da meta, e uma política de taxa de juros muito alta vai ter que ser praticada”, disse Marconi, o que atrapalha o crescimento econômico e dificulta a queda da dívida pública em relação ao PIB.

Em sua nota, o CMN afirmou que o processo de consolidação fiscal cria um ambiente favorável para a redução estrutural da inflação e dos juros de equilíbrio (aquele que não acelera nem contrai a economia), citando medidas como a reforma da Previdência e o teto de gastos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s